- Gonzaguinha
2.12.11
Explodindo
- Gonzaguinha
21.6.11
Carta ao amigo ausente
Por aqui, poucas amenidades, meu querido. Copo meio cheio, meio vazio, entende? Tanta falsa inspiração. Talvez não. Melhor não. Tem a música e se há música a paixão nunca é em vão, você sabe. Tem Veloso cantando Help, cara, e até o Robertão mandando Detalhes. Lindo. Mas soa falso. Porque nem parece paixão. Parece só sede. Ou fome.
“Você tem fome de quê?” me pareceu agora a indagação filosófica mais elementar. Lembro sempre aquela frase da Camile Claudel que você me mostrou – “existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta”. Que fome é essa, cara? É sede de quê? Por favor, não me venha com explicações freudianas. Ando mais insaciável que nunca, meu amigo. Faminto. Guloso.
Jóia, do Caetano, não para de tocar por aqui. Madrugada avança rápido e eu tão lento. Três e pouco. Vento frio invadindo o quarto. Cigarro atrás do outro. Lápis e papel nas mãos. Tão retrô, né? E eu estou, inacreditavelmente, zero nostálgico. Você está rindo agora, aposto. Mas falo sério. Totalmente desgarrado. Quase não percebo as amarras. Acredite.
Mas, como não podia deixar de haver mas, em contrapartida o amanhã me dá um nó na boca do estômago. Cheguei a pensar que pudesse ser apenas ansiedade. Mas, não. O inverno chega nas próximas horas. Acho que é essa a causa desta sensação incômoda que quase chamei de medo agora. Inseguro, um pouco sim. Inverno representa o renascimento. A tal dor do parto, será?
Já nem me lembro direito como comecei toda essa prosa torta. Ah! A falsa inspiração. Depois falei da fome e agora falava do inverno. Desculpe, ando confuso como sempre. E faminto, só pra variar. Mas não vou gastar mais sua saúde mental repetindo meus traumas, dores, neuroses.
Coragem. Me deseje muita coragem, meu amigo. Lhe desejo o mesmo para encarar este inverno. Sinto uma força bruta se aproximando densa, tensa. Relaxe, não é nada premonitório. Mas, como que por uma convicção íntima, sem nada de divino ou fabuloso, sinto que este inverno será penoso. E muito proveitoso.
Ah! A Lua acaba de entrar em peixes. Me deseje força também, meu querido, além da coragem.
Axé pra nós.
28.4.11
Espaços em branco
Desculpa... preciso de uma boa para telefonar. Nada que possa ser assertivo me ocorre. Ser espontâneo implicaria em clichês. Esquece. Também não dá para fingir despretensão – são inúmeras as boas e más intenções. Olá-como-vai-tudo-bem-sumiu-que tal-bla-báh. Melhor... melhor não. Esquece.
Onde estava mesmo? Ah, sim, a câmera retrô! Registrar momentos, captar olhares. Fecho os olhos e lembro justamente do olhar, daquelas sobrancelhas grossas circundando os olhos... Caramba! Tentando de novo: cor, quadro, bambu, flor, foto, retrô... o quarto – tão grande... tão só.

Is just to love and be loved in return
31.3.11
Amadurecência
"Era desses caras de barba por fazer que sempre escolherão o risco, o perigo, a insensatez, a insegurança, o precário, a maldição, a noite — a Fome maiúscula."
Caio Fernando Abreu
Titubeio. E muitas vezes quase paro. Só que a vida é movimento e cobra ginga. E a gente muda. E a gente cresce. E a gente apanha muito e fica forte. Ou fica sem vergonha e apanha quase que por prazer. Questão de escolha.
Fiz a barba. Achei graça: não sou mais moleque, pensei. Nem sinto mais saudade dos 17 anos. Tão bom ter 27. Tão bom ter essa coisa que chamam de maturidade. Que seja só serenidade. Mas, realmente, tem coisas que a gente só aprende com o avanço da idade.
Metade foi a palavra que a rima me pediu agora. Mas, pensei, para ser grande tem que ser todo em cada coisa – como bem disse Pessoa. E tenho me esforçado tanto para pôr o quanto sou no mínimo que faço. Às vezes ainda exagero ou excluo algo. E isso é praticamente uma questão de escolha. Porém, demanda prática. Por isso tenho me esforçado tanto: para ser inteiro.
14.1.11
Se árvores coubessem em caixas...
Toda vez que minha mãe me observava arrumando mala perguntava, ironicamente, se ia viajar ou mudar – se referindo, evidentemente, ao tamanho da mala. Sempre achei um exagero dela – tão exagerada em tudo. E eu não estava errado.
Mudar de casa é surreal. Quem dera coubesse tudo em uma mala, ou três, ou cinco, ou dez. Caixas enormes, grandes, pequenas, menorzinhas, caixas e mais caixas. E todas as malas da casa.
Ah, a casa... quanto móvel, quanto aparelho, quanta panela, vasilha, pratos, copos, talheres – tudo de todos os tipos. E o tanto de “bibelô”, quadros, vasos, plantas. Quanta planta, meu Deus, quantos livros, quantos discos, pra quê tanto papel, é papel demais, é tralha demais. É memória demais.
Quase 27 anos vivendo na mesma casa.
Mudar de casa é surreal. Que confusão, quanta caixa, quanta tralha, quanta coisa. Quanta memória – é memória demais. É tempo demais.
E o que faço com tanto apego, tanta lembrança? Quase três décadas, meu Deus, é tempo demais, é afeto demais.
E o que faço da goiabeira? Cresci em cima dela, namorei encostado nela, gangorrei minha filha nela. E o pé de acerola, sempre tão carregado, tão lindo verde-musco salpicado de vermelho-sangue. Tanta vitamina C deixada pra trás...
Mudar de casa é mesmo surreal. Melhor nem ficar pensando nos pés de goiaba, de acerola – a ameixeira, meu Deus, tão frondosa – senão o casal de azaléias – vermelha e branca que a cada ano renovam núpcias e se enfeitam por inteiras na primavera – não me deixará partir. E eu preciso partir.
18.9.10
Como assim?
Chegou seca a notícia, moço, como que casual, corriqueira: mas ele já até morreu, como assim ele morreu, já faz mais de mês até fui ao enterro, como assim eu insistia. Fui logo conferir e encontrei tanta saudade, descanse em paz, você faz muita falta, te amo para sempre. Para sempre, eu me perguntei, mas não era para ser sempre pra sempre? E encontrei lá também sua tia, aquela que tanto gosta, mandando força, mandando beijo, mandando bronca, dizendo que faria bolos e mais bolos para comemorar quando você saísse dessa. Dessa o quê, cara, o quê que houve, cadê você? Conferi no celular, seu nome estava lá. Olhei sua foto e estava lá o seu sorriso, o seu olhar terno. Como assim, cara, o quê que rolou? Porra, tu sofreu, doeu muito, sentiu muito medo? Onde é que você tá, cara? Vontade de te dar um abraço, de te fazer sorrir como naquela noite, lembra? Dois perdidos numa noite suja! Ou seriam dois sujos numa noite perdida? Ao contrário, foi noite ganha, muito bem ganha. Ok, ok, os dois estavam muito sujos, mas cheirando a Armani, claro. Tão rápido, moço, por que tão breve? Queria ter te visto antes, lhe desejado boa sorte, ter lhe dito que não foi breve: és para sempre. Queria ter te dado um abraço forte, bem forte, como este que lhe mando agora, assim, apertado, sincero, acompanhado de um beijo babado na testa. Divirta-se aí entre as nuvens – deve ser uma delícia. Dê notícias se tiver como. Axé, querido. Siga em paz.
11.8.10
Tanta saudade...
Faço longas cartas pra ninguém
Adriana Calcanhoto
Oh, Darling, escrevo para dizer que sinto muito. Muito medo, muito sono, muito frio, muita fome. Muita fome, você sabe.
Faz tanto tempo que você se foi, Darling, e eu sinto tanto. Tanto receio, tanta saudade, tanta preguiça, tanta vontade.
Sabe, Darling, faz tanto tempo que sinto tanto a sua falta. E é tanto medo, tanto frio, tanto sono. Tanto sono, Darling. Tanta fome, tanta saudade.
Muito a falar, muito a contar e eu precisava tanto ouvir. Mas, você se foi sem nada dizer – e eu sinto tanto.
Vontade. Saudade. Dor.
Desculpe, Darling, mas dói. E muito. Tanto silêncio, tanto desprezo, tanto asco. Asco, Darling? Compreendo. Eu compreendo sempre. Perdôo. Perdoa?
Tanto medo, tanta fome, tanto frio, tanto sono, tanta saudade.
Mas, escrevo mesmo para dizer que sinto muito, Darling. Muito remorso, muita mágoa, muita dor, muita saudade. Tanta saudade.
Perdoa, Darling? Perdôo.
Com amor,
Augusto
29.6.10
Reencontro (ou mero desabafo)
Porque neste jogo de não jogar eu indaguei o óbvio e atingi o ilusório. Imaginei regras que jamais foram ditadas e me enrolei em minha própria arbitragem. Fui pivô de uma tormenta que a minha carência alimenta.
23.6.10
Solo
Caio Fernando Abreu
15.3.10
Contradições em tempo verbal
De repente ficou bom. Simples assim: de repente, bom. Mas do nada fica ruim. Complexo assim mesmo: do nada, ruim. Entende? Ora, desculpe. Não estou subjugando a sua capacidade de compreensão, não é isso. Mas me conte: entende o que eu digo? Simples – complexo, bom – ruim?
Me confundo tanto com essas contradições. De repente bom, do nada ruim e eu sempre optando pelo mais complexo. Deve estar nos astros. Áries com ascendente em Touro e sol em Áries. Tanta cabeça dura para um ser só...
Sabe que outro dia eu voltava para casa, cabeça cheia, ombros duros, peito inchado e espírito agudo e de repente, assim, não mais que de repente, fiquei bem.
Talvez tenha sido o sorriso daquele bebê no banco da frente, o cheiro de grama recém aparada que invadiu o ônibus ou aqueles feixes de luz saindo de trás da nuvem rosa como em cena de filme quando ocorre um milagre. Não sei bem – como disse, foi de repente que fiquei bem.
Mas daí bate uma puta nostalgia, rola aquela ansiedade, e então vem o por que não, o por que sim e, pior, sempre surge o se e, do nada, fico mal.
Tem um pouco de culpa, uma certa mágoa e talvez até mesmo uma latente revolta. Sabe como é, você também já fez análise, ora. A gente cutuca, revira, cava e do nada estoura a lava. Me ocorreu uma frase de efeito agora: a expressão oral pode reacender o mal. Que acha?
Eu sei, eu sei: piegas, pedante, prolixo. Ah! Não era isso que iria dizer? Mas teve vontade ou ao menos pensou. Confessa, vai, não vou achar ruim, juro. Tudo bem, desculpe. Vou mudar de assunto.
20.2.10
Palavras, cores, sons e aquela tal insanidade
Receio escrever nestas noites, ou mesmo naqueles dias, em que meu peito e minha mente disputam voz. Tenho medo de registrar esses solilóquios. Nunca confessei, mas tenho medo da palavra escrita. A palavra falada morre no silêncio próximo. Já a palavra escrita é feito matéria: deixa resto. Quando dita deixa apenas lembrança.
Adoro a palavra palavra. Tem mais ritmo quando pronunciada sílaba-a-sílaba: PA-LA-VRA. Também gosto da palavra sílaba. Na verdade, gosto de todas as palavras. Principalmente das que sugerem amor, mesmo que seja: dor. Simpatizo-me também por aquelas que remetem à força: não, por exemplo.
Sem falar na magia das proparoxítonas. Ouça: PRO-PA-RO-XÍ-TO-NA. Ética, poética, métrica, tréplica, intrépida, metódica, carótida, translúcida...
Gosto também das cores. Já reparas-te o azul? Olhe para o céu, para o mar. Repare o azul. Uma camisa azul, uma parede azul, olhos azuis. A-ZUIS. Pense azul. Pense também em poesia. Não falo de verso nem de prosa nem rima e menos ainda de estilo. Sem poesia é que não dá.
Sem cor também não pode. Formas? Pouco importa – o que vale é o meio: simbólico, lúdico, lírico. Intensidade, beleza, poesia cor e luz – muita luz. E música. Não esqueçamos o poder do som: ssSSSS SOM.
Registros bobos de uma mente que mente a si mesma. Artifícios pequenos de quem teme a culpa. Palavras dúbias que transformam certeza em mistério.
Palavras confundem o que sentimentos justificam. Se sentir bastasse-me nada diria. Por outro lado, se emoção justificasse-me e convencesse-me eu estaria sendo claro e objetivo agora.
Será que ainda preservo incólume a capacidade de sonhar? Afinal, de que são feitos os sonhos senão de outros sonhos?
Temo as horas.
São quase três.
Sigo em clichês.
22.1.10
Reticências (ou eterno retorno?)...
Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo por que digo 'mais', se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora.
Caio Fernando Abreu
“Para mundo porque eu quero descer!” – Lembrei desta frase e sorri bobo.
No fim do último dezembro, chegada a hora do tal balanço, estava me sentindo meio assim: seco. Passeando pela memória lembrei que no mesmo período do ano anterior enviei um email para uma amiga, que amo muito, desabafando meu estado de espírito naquele momento. Reli o texto e percebi que na ocasião em que o escrevi eu me sentia da mesma forma: seco. Mas, ainda havia dor.
Nesta semana tenho me sentido muito assim: seco. Tentei escrever, mas as frases não se encaixavam. A secura é tanta que os pensamentos entram em atrito, não se combinam. Então reli aquele mesmo email e percebi, claramente, que agora nem há (ou parece não haver) mais dor. E é isso aí:
Data: Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008
Assunto: Só eu sei, Vivi...
Ai, Vi....
“Só eu sei
As esquinas por que passei
Só eu sei”.
Não queria te falar dessa dor assim, por e-mail, à distância. Mas, mesmo que estivéssemos cara-a-cara, eu não diria nada diferente. Apenas repetiria que dói, dói... e dói muito, Vi.
Não sei dar explicações, Vi. Não tenho explicações a dar. Talvez por que não tenha explicação mesmo. Mas explico-me (a mim mesmo, mesmo) que, nos últimos dias, o “tal” balanço me atordoa. Aquele balanço que a gente faz quando é fim de ano, ou quando chega nosso aniversário, sabe? Você tenta colocar na balança aquilo que desejou, e aquilo que conseguiu; aquilo que ganhou, e aquilo que perdeu; aquilo que sentiu, e aquilo que negligenciou; aquilo que era, e já não é mais; ou mesmo aquilo que é agora, e que nunca havia sido antes.
Controvérsias... controvérsias....
Você não deve estar entendendo nada, nobre amiga libriana. E temo pelas preocupações que esse meu desabafo bêbado possa suscitar em você. Mas não se preocupe. Não é nada tão grave, embora eu sinta como se essa dor fosse, enfim, o fardo que não vou conseguir carregar... No fim, sei que vou conseguir. Mas, por enquanto, só dói... e dói tanto.
A dor deve ser provocada pela alternância dos pratos da balança que ouso utilizar sem auferir. O balanço começa pelo fim de curso... quatro anos... O que foram esses quatro anos? O que fiz nesses quatro anos? O que fiz desses quatro anos?
Daí lembro que há oito concluí o segundo grau... Que foram esses oito anos? Que foram os quatro penúltimos anos antes dos quatro últimos? E o que representa todo o conjunto destes oito anos? Que fiz deles? Que me fizeram eles?
Logo lembro que neste conjunto de anos, veio a Bia... E o que é a paternidade na minha vida, Vi? Que fiz eu para merecer ser pai de uma menina tão linda? Que faço eu para agradecer tão divina glória?
Num próximo instante lembro que faz dez anos que conheço o David; doze que conheço você; vinte e quatro que conheço Nívio... E o que significam vocês para mim? O que significam vocês na minha vida? E o que significo eu na vida de vocês? Daí, penso naqueles outros amigos que conheço há pouco; há meses; há semanas; há dias... E sinto raiva por valorizar, em determinados momentos, mais aqueles que só me procuram por motivos/interesses que, na maioria das vezes, desconheço que são torpes. E me entrego. E você sabe o quanto me custa essa entrega e o quanto ela me dói. E dói demais mesmo, Vivi.
E penso ainda o que representam este quase 1/4 de século de vida... as duas décadas pelas quais passei e a terceira pela qual estou passando... Passo por elas ou elas passam por mim? Somo os anos, ou me subtraem os meses? Traio eu a vida troçando tanto dela?
Ah! As esquinas... passei por tantas, Vivi, que só eu sei. Assim como julguei saber, nestas mesmas esquinas, para qual lado me guiar, ignorando os avisos de “segue por aqui, porque por ali é furada”... Só eu sei os erros reais que cometi, Vi, embora os negue tanto.
Mas dói tanto, Vivi... Doem muito as certezas, e doem mais ainda as dúvidas. E são tantas as dúvidas.
As dúvidas somam o vazio que tanto me dói. E se, ultimamente, pondero tanto as certezas do passado, certamente é porque as dúvidas do futuro me afligem muito mais.
Tenho medo do futuro, Vi, porque não o vejo. Talvez me dissesse agora que para todos o futuro é incerto. Concordaria contigo. Mas tenho medo, Vi, e isso me dói... tanto.
Não sei se agradeço, ou se me desculpo pelo desabafo... Mas...
Beijos, Vi!
Dan.
13.1.10
Pelo fim da década, agradeço
Agradeço: aos astros, à natureza, à vida ou seja lá qual for o nome que Ele tenha. Dou graças pelo meu pão de cada dia, pelo meu tônus muscular, pelos meus pés firmes que me garantem o caminhar, pela família que me indica o Norte, pelos amigos sinceros e seus ombros largos, pelo trabalho suado, pelo suor, pela sanidade mental e até mesmo pelos desvarios. Sou grato e peço mais bênçãos – afinal sou humano e quero sempre mais.
Mais saúde, mais amor, mais trabalho, mais suor, mais união fraterna, mais farra entre amigos, mais beijos & abraços sinceros, mais música, mais poesia, mais paisagens novas, horizontes mais belos e muita, muita esperança e fé – em qualquer coisa que me garanta mais uma, duas, três, quem sabe até quatro décadas.
Nada de projeções do tipo “e amanhã, e depois?”. Agradeço o momento presente. Meu balanço de 2009 terminou sem aquela coisa de planejar. Estava, e ainda estou, num clima meio bossa-nova: barquinho a deslizar. Mas também não vou soltar o leme: é preciso estar atento às revoltas da maré, às tempestades.
Ao comparar 2009 ao ano anterior percebi mudanças claras, profundas, coesas, satisfatórias. Escuridão e medo marcaram 2008. Feito larva no casulo ganhei luz em 2009 e não me hesitei a bater asas e voar. Voei e transcendi certas barreiras. Houve lamúrias, dores, medos, danos – é claro, nem tudo são flores. Amadureci e noto isso com muita clareza e orgulho.
Feliz e, até certo ponto, seguro, começo 2010 com otimismo e disposição para encarar as mudanças que se anunciam. Fim de década, algo muda – há de mudar – e torço para que mude para melhor (no meu umbigo e no resto do mundo!).
Desde a última semana de dezembro tenho ensaiado registrar esse momento de transição aqui. Não se trata de falta de inspiração, menos ainda de tempo. Sei lá o motivo da demora. O que importa é que agradeço, muito, por tudo e por todos que marcaram meu último ano, o penúltimo da década.
Desejo a todos muita folia. Eu quero mais, quero muita, quero hoje e quero agora!
17.11.09
Ácido
22.10.09
Notícias particulares
3.9.09
Que seja doce
12.8.09
Sobre a fé ou coisa que a valha
Sabe aquela piada-sem-graça-alguma que pergunta por que o cachorro entrou na igreja? Pois, ontem eu me senti o próprio cãozinho. Caminhava alheio pela praça quando vi a porta do templo aberta e resolvi entrar. Sem propósito algum, entrei simplesmente porque as portas estavam abertas.
Bonito lá dentro. Nada muito exuberante ou luxuoso. Belos vitrais discretos, muita luz natural, dois lindos jardins de inverno com fontes e peixes. Ambiente harmonioso, como na maioria dos templos religiosos. No centro do altar um Cristo sóbrio e discreto, talhado em concreto, sem sangue ou expressão de dor nem semblante Daquele que carrega todos os pecados do mundo, espalhava candura no ambiente.
Sentei-me em um dos bancos, ao fundo da Igreja, contemplei o local e lembrei-me que já estivera ali outra vez. Há cerca de três anos caminhava aflito pela mesma praça quando vi as portas abertas e entrei. Mas, daquela vez, entrei para encarar aquele mesmo Cristo (como se ele só existisse ali) e clamar por socorro, nao apenas porque as portas estavam abertas. Nada muito grave me ocorria à exceção de problemas financeiros e certa desesperança de um futuro melhor. Entrei para rezar e pedir auxílio.
Dessa vez foi diferente. Entrei apenas porque as portas estavam abertas e porque tinha tempo livre antes do trabalho. Uma vez lá dentro, aproveitei para agradecer – a vida, a família, o emprego, os amigos – a Deus, não à imagem do Cristo. Sempre há o que agradecermos. E agradeci muito.
Quando me preparava para sair da igreja, avistei alguns papéis sobre um móvel e peguei um para ler. Sempre é bom ler mensagens motivacionais e esperava que aquela folha de papel A4 reservasse alguma. Havia, no alto da página, a imagem de um santo que não soube identificar e, ao lado da imagem, os dizeres “Eu quero, eu posso, eu faço”, em negrito e caixa alta.
O santo em questão, a mensagem informava, era aquele que ajuda a ganhar na mega-sena, tira HIV do sangue de quem lhe é devoto e cura até enfermos com câncer em fase terminal. Tratava-se de São Judas Tadeu, cujos fiéis criaram aquela “corrente” que acabara de pegar.
Detesto essas correntes e sempre apago todas que chegam por e-mail antes mesmo de lê-las. Mas aquela estava impressa, dentro de uma igreja na qual entrei sem nenhum propósito e onde, certa vez, busquei auxílio divino. Supondo que tudo aquilo fosse algum “sinal” (sou apegado a essas circunstâncias do acaso), li atento até a última linha a mensagem.
A tal corrente de São Judas Tadeu consiste em fazer 81 cópias dela e espalhá-las em nove igrejas católicas (nove cópias em cada) num prazo máximo de 13 dias – tudo muito cabalístico. Se cumprir a tarefa, tem o milagre (o santo em questão trabalha com pedidos nada modestos) concedido em até nove dias. Caso não seja cumprida algo terrível pode acontecer e “em hipótese nenhuma deves se livrar dela”.
Esta última frase me assustou e guardei o papel, cuidadosamente, na mochila. Em 13 dias eu tenho tempo de pensar melhor na proposta do Santo e cumprir a tal missão – pensei. E deixei a igreja cogitando qual seria o meu pedido. Me vieram coisas pequenas na mente, como comprar um carro, um apê ou viajar pela Europa. Mas também me ocorreram coisas grandes como ver o vovô bem de novo, viver até meus netos ficarem adultos ou encontrar um amor-de-quatro-estações-para-a-vida-toda.
Senti medo, realmente, pela intimidação da corrente. Mas, também senti muita esperança de que tanto as coisas pequenas como as grandes acontecessem. Estes dois sentimentos (esperança e medo) são ou não são indissociáveis à fé? Creio que sejam quase sinônimos. Fato é que se eu me decidir por não quebrar a corrente e meu pedido for atendido dentro do prazo (trato é tato e se acontecer depois do 10º dia dou como inválido) São Judas Tadeu ganhará mais um devoto.
28.6.09
Frio
Sei que pareço confuso, mas não me preocupo que me perceba assim. Embora deseje imensamente que você acredite que estou mais sereno. Ouça: sinto frio nos pés, mas mantenho-os descalços. Não percebe a amplitude disso? Talvez eu mesmo não perceba. Mas, acredite, estou mais sereno. Reconheço o frio e dispenso o agasalho. Ato falho ou grande passo?
Enfim, escrevo só para dizer que tenho os pés frios agora e que ainda não calcei meias porque raríssimas são as vezes que as uso apenas por estar com frio. Se for capaz de compreender com que lealdade (lealdade, repito) lhe confesso tal intimidade me sentirei mais à vontade para lhe contar outras bobagens. Talvez lhe conte até mesmo sobre o frio que não me atinge os membros, mas o peito. Frio este que não cesso também por recusa, além de certa dor.
