19.11.14

Marcas


"Cá entre nós: fui eu quem sonhou que você sonhou comigo?"
Caio Fernando Abreu em Por trás das vidraças

Quinta noite seguida que você me aparece em sonho. Um sonho vívido, com cheiro e tato. Por quê? Pra quê? Talvez porque não há um dia sequer que não pense em você. Talvez porque tudo o que conquistei até agora foi para te mostrar que você estava certa e que eu sou capaz. Talvez porque sinta muita vontade de te mostrar cada uma destas conquistas (a casinha tá cada dia mais colorida). Talvez para eu entender que não era uma questão de escolha minha seguir a teu lado, mas de pura aceitação. Os erros são todos meus e sei que a saudade é só minha. Mas estes sonhos me intrigam... de tão vívidos, parecem mais encontros metafísicos. Será que foi você quem sonhou comigo e não o contrário? Ah, saudade bandida...

18.1.14

Saudade trai a gente.



Da série Versos Bêbados em Guardanapos Sujos

28.2.13

Ferida aberta



Ouvindo: O Velho e o Moço
Los Hermanos

(...)
e se eu fosse o primeiro 
a voltar pra mudar
o que eu fiz
quem então agora eu seria
ahh tanto faz
e o que não foi não é
eu sei que ainda vou voltar
mas eu quem será?
(...)



Porque fevereiro acaba hoje e eu prometi a mim mesmo que iria registrar meus solilóquios ao menos uma vez por mês forço algumas linhas. Porque ontem eu assisti uma entrevista com o . Marcelo Camelo e chorei com a história real por trás de “Conversa de Botas Batidas” escolhi outra música do Los Hermanos para dar trilha sonora a este registro. Porque eu me perdi do menino que fui, matei o moço que ensaiei ser e me vejo velho, muito velho, antes dos 30. Porque eu gosto do gasto, do estrago, e mesmo ciente disso não aceito a condição. Porque nos dias como estes em que a ferida abre e volta a sangrar, ou mesmo quando bate a febre, aquela febre, minha vontade é única: voltar. E se eu conseguisse mudar? Quem agora eu seria? Ah! Dispenso a previsão.


1.1.13

Bom. A palavra é essa


Ouvindo:

Nunca é igual

Se for bem natural

Se for de coração
Além do bem e do mal
Coisas da vida - Milton Nascimento

De repente, do nada, quase sem querer, ao acaso, por sorte ou qualquer  outra expressão que valha a metáfora do inesperado. O porvir esta aí, disponível para ser desbravado, prontinho para ser degustado. Há que se estar atento e disposto. Eu estou. Principalmente bem disposto, ainda não sei se tão atento. Mas alerta sim.

Mais um ano começa. Para muitos, apenas uma contagem linear do tempo. Para alguns, o início de uma nova era - a era Maia, aquário, fim de peixes - (sou desses). Mas, em verdade, todo dia é dia do novo. Basta querer. Mudar, resignificar, recomeçar, reestruturar, reformar ou qualquer outro verbo que conote REação.

Vida é movimento e cobra ginga.

Inércia não. Atribuem a Eisnten uma frase que diz algo como 'se você quer mudar o seu jeito de ser, mude primeiro o seu jeito de pensar'. Certamente o autor é um gênio. E me recordo agora de Pessoa, o Fernando: "ser o que penso? Mas penso tanta coisa".

Penso agora que sou um homem feito, no sentido evolutivo da espécie, não na questão existencial. Um homem ainda em formação. Com base sólida para a construção de um ser melhor. Com experiência de vida suficiente para saber o que é melhor para mim. Mas com fraquezas que ainda me desviam do meu caminho.

Foco nas forças.

Ano ímpar. Dois mil e treze se anuncia a mim como um período fértil e promissor. Começa quente, lindo, líquido, cheio de curvas e surpresas. Rio de Janeiro, quarenta graus, cidade maravilha, purgatório da beleza e do caos. Ainda conjumina. Ainda vai dar pé. Para mim. Para você. Para nós.

Alegrias sem fim neste Ano Novo. E luz. Muita luz.



28.7.12

Encanto (ou o fim do)

Restou na pele a lembrança morna daquele tímido roçar de pernas protegidas por jeans. Faltou na boca o gosto doce do mistério da entrega.


 *Da série Versos Bêbados em Guardanapos Sujos

2.12.11

Explodindo


Chega de tentar, dissimular, e disfarçar e esconder o que não da mais pra ocultar. E eu não posso mais calar, já que o brilho desse olhar foi traidor e entregou o que você tentou conter, o que você não quis desabafar e me cortou. Chega de temer ,chorar, sofrer, sorrir, se dar, e se perder, e se achar, e tudo aquilo que é viver. Eu quero mais é me abrir e que essa vida entre assim, como se fosse o sol desvirginando a madrugada. Quero sentir a dor dessa manhã nascendo, rompendo , rasgando, somando o meu corpo. E então eu chorando, sofrendo, gostando, adorando, gritando. Feito louco alucinado e criança. Sentindo o meu amor se derramando. Não da mais para segurar. Explode Coração.
- Gonzaguinha



Enquanto a roda gira, o eremita salta da torre. O louco corre alucinado em direção às estrelas, que não alcança jamais. Os enamorados tremem sobre a força catastrófica da balança. Falta ação do papa, que jamais ousou intervir no duelo travado entre a papisa e a imperatriz. Daí o choque sem espasmo. E a renúncia ante o medo do fracasso e a consequente frustração. De tudo, restam-me as reticências...

21.6.11

Carta ao amigo ausente

Por aqui, poucas amenidades, meu querido. Copo meio cheio, meio vazio, entende? Tanta falsa inspiração. Talvez não. Melhor não. Tem a música e se há música a paixão nunca é em vão, você sabe. Tem Veloso cantando Help, cara, e até o Robertão mandando Detalhes. Lindo. Mas soa falso. Porque nem parece paixão. Parece só sede. Ou fome.

“Você tem fome de quê?” me pareceu agora a indagação filosófica mais elementar. Lembro sempre aquela frase da Camile Claudel que você me mostrou – “existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta”. Que fome é essa, cara? É sede de quê? Por favor, não me venha com explicações freudianas. Ando mais insaciável que nunca, meu amigo. Faminto. Guloso.

Jóia, do Caetano, não para de tocar por aqui. Madrugada avança rápido e eu tão lento. Três e pouco. Vento frio invadindo o quarto. Cigarro atrás do outro. Lápis e papel nas mãos. Tão retrô, né? E eu estou, inacreditavelmente, zero nostálgico. Você está rindo agora, aposto. Mas falo sério. Totalmente desgarrado. Quase não percebo as amarras. Acredite.

Mas, como não podia deixar de haver mas, em contrapartida o amanhã me dá um nó na boca do estômago. Cheguei a pensar que pudesse ser apenas ansiedade. Mas, não. O inverno chega nas próximas horas. Acho que é essa a causa desta sensação incômoda que quase chamei de medo agora. Inseguro, um pouco sim. Inverno representa o renascimento. A tal dor do parto, será?

Já nem me lembro direito como comecei toda essa prosa torta. Ah! A falsa inspiração. Depois falei da fome e agora falava do inverno. Desculpe, ando confuso como sempre. E faminto, só pra variar. Mas não vou gastar mais sua saúde mental repetindo meus traumas, dores, neuroses.

Coragem. Me deseje muita coragem, meu amigo. Lhe desejo o mesmo para encarar este inverno. Sinto uma força bruta se aproximando densa, tensa. Relaxe, não é nada premonitório. Mas, como que por uma convicção íntima, sem nada de divino ou fabuloso, sinto que este inverno será penoso. E muito proveitoso.

Ah! A Lua acaba de entrar em peixes. Me deseje força também, meu querido, além da coragem.

Axé pra nós.

28.4.11

Espaços em branco

Ouvindo:
Nature Boy (Eden Ahbez)
Voz: Caetano Veloso

There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Ovel land and sea
A litte shy and sad fo eye
But very wise was he

And then onde day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
"The greatest things you'll ever learn
Is just to love and be loved in return "

De repente me deu vontade de comprar um quadro. Colorido, abstrato. Dois na verdade: um no qual se sobressaia o verde, para pendurar no quarto, na parede contrária à janela que dá para a Serra; outro com tons de laranja, vermelho e amarelo, meio pôr-do-sol, para colocar na sala, combinando com a manta que cobre o sofá. Lembrei do bambu que quero colocar também na sala - bambu plantado, nada de artesanato ribeirinho.

O bambu me lembrou a vontade antiga de espalhar flores pela casa. Coisa bem de velho - ir à feirinha de rua ao domingo, comprar um tanto de flor diferente para perfumar e colorir sala, banheiro, corredor. Principalmente orquídeas. E gerânios. Melhor esperar ficar velho mesmo. Quem sabe tento a jardinagem.

Qual era mesmo a vontade inicial? Ah, sim: imagens. O quadro, a abstração as cores. Pensei em imprimir aquelas fotos P&B produzidas na época da faculdade. Criar um tipo de varalzinho, sob a primeira das três prateleiras de livros. Ou colocá-las sob a placa de vidro da mesa. Não sei. Talvez criasse muita poluição visual no quarto. Pelo menos ele é grande. Me sinto tão só nele. Ainda mais com aquela cama enorme.

Estou perdendo o foco. Decoração, cores, P&B, fotos... Uma Polaroid! Como não pensei nisso antes? Uma câmera que já revela e imprime. Nada de olhar na tela, mas ver no papel. Faz tanto tempo que não revelo fotos. Tão gostosa aquela expectativa de saber como o olhar foi captado pela objetiva. Desejo antigo o de fotografar. Câmeras não me faltam. O que falta? Tanta coisa... Ok, sem divagações. Culpo a falta de técnica, só para ter desculpa mesmo.

Desculpa... preciso de uma boa para telefonar. Nada que possa ser assertivo me ocorre. Ser espontâneo implicaria em clichês. Esquece. Também não dá para fingir despretensão – são inúmeras as boas e más intenções. Olá-como-vai-tudo-bem-sumiu-que tal-bla-báh. Melhor... melhor não. Esquece.

Onde estava mesmo? Ah, sim, a câmera retrô! Registrar momentos, captar olhares. Fecho os olhos e lembro justamente do olhar, daquelas sobrancelhas grossas circundando os olhos... Caramba! Tentando de novo: cor, quadro, bambu, flor, foto, retrô... o quarto – tão grande... tão só.


The greatest things you'll ever learn
Is just to love and be loved in return
(Testando a Polaroid do celular)

31.3.11

Amadurecência

"Era desses caras de barba por fazer que sempre escolherão o risco, o perigo, a insensatez, a insegurança, o precário, a maldição, a noite — a Fome maiúscula."
Caio Fernando Abreu


Questão de escolha. Simples jogo de sim ou não. Simples? Se o fosse não haveria erros. Ou nem haveria acertos e daria tudo errado sempre. Melhor dizer assim: complexa essa coisa de querer ou não querer e ter que decidir sempre no já.

Titubeio. E muitas vezes quase paro. Só que a vida é movimento e cobra ginga. E a gente muda. E a gente cresce. E a gente apanha muito e fica forte. Ou fica sem vergonha e apanha quase que por prazer. Questão de escolha.

Fiz a barba. Achei graça: não sou mais moleque, pensei. Nem sinto mais saudade dos 17 anos. Tão bom ter 27. Tão bom ter essa coisa que chamam de maturidade. Que seja só serenidade. Mas, realmente, tem coisas que a gente só aprende com o avanço da idade.

Metade foi a palavra que a rima me pediu agora. Mas, pensei, para ser grande tem que ser todo em cada coisa – como bem disse Pessoa. E tenho me esforçado tanto para pôr o quanto sou no mínimo que faço. Às vezes ainda exagero ou excluo algo. E isso é praticamente uma questão de escolha. Porém, demanda prática. Por isso tenho me esforçado tanto: para ser inteiro.

Mudei muitas escolhas. Decidi manter a cara sempre limpa. O risco é viver sempre no já e isso não há como evitar. Mas prevenir é prudente e necessário. Por isso hoje me recuso a sentir fome e tento me manter sempre lúcido. Deixo portas e janelas abertas para o sol entrar. Quero luz, muita luz. Aceito o novo e sorrio sempre para o momento presente. E, quase em oração, lembro Caio F. a cada instante: que seja doce.

14.1.11

Se árvores coubessem em caixas...

Toda vez que minha mãe me observava arrumando mala perguntava, ironicamente, se eu iria viajar ou mudar – se referindo, evidentemente, ao tamanho da mala. Sempre achei um exagero dela – tão exagerada em tudo. E eu não estava errado.

Mudar de casa é surreal. Quem dera coubesse tudo em uma mala, ou três, ou cinco, ou dez. Caixas enormes, grandes, pequenas, menorzinhas, caixas e mais caixas. E todas as malas da casa.

Ah, a casa... quanto móvel, quanto aparelho, quanta panela, vasilha, pratos, copos, talheres – tudo de todos os tipos. E o tanto de “bibelô”, quadros, vasos, plantas. Quanta planta, meu Deus, quantos livros, quantos discos, pra quê tanto papel, é papel demais, é tralha demais. É memória demais.

Quase 27 anos vivendo na mesma casa...

Mudar de casa é surreal. Que confusão! Quanta caixa, quanta tralha, quanta coisa. Quanta memória – é memória demais. É tempo demais.

E o que faço com tanto apego, tanta lembrança? Quase três décadas, meu Deus! É tempo demais. É afeto demais.

E o que faço da goiabeira? Cresci em cima dela, namorei encostado nela, gangorrei minha filha nela. E o pé de acerola? Sempre tão carregado, tão lindo verde-musco salpicado de vermelho-sangue. Tanta vitamina C deixada pra trás...

Mudar de casa é mesmo surreal. Melhor nem ficar pensando nos pés de goiaba, de acerola – a ameixeira, meu Deus, tão frondosa – senão o casal de azaleias – vermelha e branca que a cada ano renovam núpcias e se enfeitam por inteiras na primavera – não me deixará partir. E eu preciso partir.

18.9.10

Como assim?

Pois para isso fomos feitos
Para lembrar e ser lembrados
- Vinícius de Morais

Chegou seca a notícia, moço, como que casual, corriqueira: mas ele já até morreu, como assim ele morreu, já faz mais de mês até fui ao enterro, como assim eu insistia. Fui logo conferir e encontrei tanta saudade, descanse em paz, você faz muita falta, te amo para sempre. Para sempre, eu me perguntei, mas não era para ser sempre pra sempre? E encontrei lá também sua tia, aquela que tanto gosta, mandando força, mandando beijo, mandando bronca, dizendo que faria bolos e mais bolos para comemorar quando você saísse dessa. Dessa o quê, cara, o quê que houve, cadê você? Conferi no celular, seu nome estava lá. Olhei sua foto e estava lá o seu sorriso, o seu olhar terno. Como assim, cara, o quê que rolou? Porra, tu sofreu, doeu muito, sentiu muito medo? Onde é que você tá, cara? Vontade de te dar um abraço, de te fazer sorrir como naquela noite, lembra? Dois perdidos numa noite suja! Ou seriam dois sujos numa noite perdida? Ao contrário, foi noite ganha, muito bem ganha. Ok, ok, os dois estavam muito sujos, mas cheirando a Armani, claro. Tão rápido, moço, por que tão breve? Queria ter te visto antes, lhe desejado boa sorte, ter lhe dito que não foi breve: és para sempre. Queria ter te dado um abraço forte, bem forte, como este que lhe mando agora, assim, apertado, sincero, acompanhado de um beijo babado na testa. Divirta-se aí entre as nuvens – deve ser uma delícia. Dê notícias se tiver como. Axé, querido. Siga em paz.

11.8.10

Tanta saudade...

Faço longas cartas pra ninguém
Adriana Calcanhoto

Oh, Darling, escrevo para dizer que sinto muito. Muito medo, muito sono, muito frio, muita fome. Muita fome, você sabe.

Faz tanto tempo que você se foi, Darling, e eu sinto tanto. Tanto receio, tanta saudade, tanta preguiça, tanta vontade.

Sabe, Darling, faz tanto tempo que sinto tanto a sua falta. E é tanto medo, tanto frio, tanto sono. Tanto sono, Darling. Tanta fome, tanta saudade.

Muito a falar, muito a contar e eu precisava tanto ouvir. Mas, você se foi sem nada dizer – e eu sinto tanto.

Vontade. Saudade. Dor.

Desculpe, Darling, mas dói. E muito. Tanto silêncio, tanto desprezo, tanto asco. Asco, Darling? Compreendo. Eu compreendo sempre. Perdôo. Perdoa?

Tanto medo, tanta fome, tanto frio, tanto sono, tanta saudade.

Mas, escrevo mesmo para dizer que sinto muito, Darling. Muito remorso, muita mágoa, muita dor, muita saudade. Tanta saudade.

Perdoa, Darling? Perdôo.

Com amor,

Augusto

29.6.10

Reencontro (ou mero desabafo)


Ouvindo:Cheirando a amorÂngela Rô Rô
Já pus de lado o tormentoDe um mundo atento a não perdoarAmantes sem fingimentosDelirantes formas de amar
Quero cheirar a amorQuero exalar suorPro dia que você forFicar com seu melhor
Amor apertadoTrancada com medo da ruaSe isso é pecado me punaA culpa de amar livre e nua
Que preconceito baratoQue o cão caça o gatoMe morde e me desafiaSó meu olhar lhe arrepia





Porque neste jogo de não jogar eu indaguei o óbvio e atingi o ilusório. Imaginei regras que jamais foram ditadas e me enrolei em minha própria arbitragem. Fui pivô de uma tormenta que a minha carência alimenta.

Julguei ter te jogado no limbo e me enganei: mantive você sempre por perto – no meu orgulho ferido, na minha frágil libido, no meu grito contido, no meu desejo escondido, no meu gozo fingido.
Agora tudo parece mais claro. Seis meses se passaram até o nosso reencontro. E me pergunto se ainda há tempo de, enfim, te propor um jogo (aberto): não quero ser apenas mais um amigo. Fica comigo?

23.6.10

Solo


“Tristeza-garoa, fininha, cortante, persistente, com alguns relâmpagos de catástrofe futura. Projeções: e amanhã, e depois?"
Caio Fernando Abreu

Fim de tarde, começo de inverno. Metrô lotado, cabeça cheia e peito vazio rumo ao trabalho. Uma animosidade que só não era mais profunda porque, no fundo, havia a esperança de que algo bom acontecesse, assim do nada.
A agitação mental era tanta e a secura no coração tamanha que nem sequer me lembrava dela – a Dor. Ela que nunca soube descrever, jamais soube nomear nem sequer estabelecer sua dimensão.
Eis que ao contemplar o pôr-do-sol, ali de dentro do metrô lotado, a rádio toca uma canção belíssima, embora tristíssima, e reconheço de imediato a Dor. Ainda não sei o nome, a forma ou a dimensão que tem, mas tenho plena certeza do som que ela reproduz.
Solo executado pelo violinista Nicolas Krassik na faixa Juízo Final (Nelson Cavaquinho) do disco Poeira Leve, de Adriana Maciel.

15.3.10

Contradições em tempo verbal


De repente ficou bom. Simples assim: de repente, bom. Mas do nada fica ruim. Complexo assim mesmo: do nada, ruim. Entende? Ora, desculpe. Não estou subjugando a sua capacidade de compreensão, não é isso. Mas me conte: entende o que eu digo? Simples – complexo, bom – ruim?

Me confundo tanto com essas contradições. De repente bom, do nada ruim e eu sempre optando pelo mais complexo. Deve estar nos astros. Áries com ascendente em Touro e sol em Áries. Tanta cabeça dura para um ser só...

Sabe que outro dia eu voltava para casa, cabeça cheia, ombros duros, peito inchado e espírito agudo e de repente, assim, não mais que de repente, fiquei bem.

Talvez tenha sido o sorriso daquele bebê no banco da frente, o cheiro de grama recém aparada que invadiu o ônibus ou aqueles feixes de luz saindo de trás da nuvem rosa como em cena de filme quando ocorre um milagre. Não sei bem – como disse, foi de repente que fiquei bem.

Mas daí bate uma puta nostalgia, rola aquela ansiedade, e então vem o por que não, o por que sim e, pior, sempre surge o se e, do nada, fico mal.

Tem um pouco de culpa, uma certa mágoa e talvez até mesmo uma latente revolta. Sabe como é, você também já fez análise, ora. A gente cutuca, revira, cava e do nada estoura a lava. Me ocorreu uma frase de efeito agora: a expressão oral pode reacender o mal. Que acha?

Eu sei, eu sei: piegas, pedante, prolixo. Ah! Não era isso que iria dizer? Mas teve vontade ou ao menos pensou. Confessa, vai, não vou achar ruim, juro. Tudo bem, desculpe. Vou mudar de assunto.

Outro dia me peguei pensando em milagres e cheguei mesmo a acreditar na existência deles. Milagre é a subversão do irremediável, pensei. Aflorei então minha tendência subversiva e decretei mudança (nem de repente e nem do nada), tempestiva e imediata no tempo verbal: ficava mal, agora fico bem.

20.2.10

Palavras, cores, sons e aquela tal insanidade


Eu te digo: estou tentando captar a quarta dimensão do instante-já que de tão fugidio não é mais
porque agora tornou-se um outro instante-já que também não é mais.
Clarice Lispector

Interação Universal - Guilherme Carvalho

Mais de duas da manhã e minha mente ainda está repleta de clichês. Hesito em deslizar a ponta fina no papel e repetir frases prontas. Tinham mais cor e brilho os versos de antes. Minha escrita tornou-se opaca. Pinto-a quando posso.

Receio escrever nestas noites, ou mesmo naqueles dias, em que meu peito e minha mente disputam voz. Tenho medo de registrar esses solilóquios. Nunca confessei, mas tenho medo da palavra escrita. A palavra falada morre no silêncio próximo. Já a palavra escrita é feito matéria: deixa resto. Quando dita deixa apenas lembrança.

Adoro a palavra palavra. Tem mais ritmo quando pronunciada sílaba-a-sílaba: PA-LA-VRA. Também gosto da palavra sílaba. Na verdade, gosto de todas as palavras. Principalmente das que sugerem amor, mesmo que seja: dor. Simpatizo-me também por aquelas que remetem à força: não, por exemplo.

Sem falar na magia das proparoxítonas. Ouça: PRO-PA-RO-XÍ-TO-NA. Ética, poética, métrica, tréplica, intrépida, metódica, carótida, translúcida...

Gosto também das cores. Já reparas-te o azul? Olhe para o céu, para o mar. Repare o azul. Uma camisa azul, uma parede azul, olhos azuis. A-ZUIS. Pense azul. Pense também em poesia. Não falo de verso nem de prosa nem rima e menos ainda de estilo. Sem poesia é que não dá.

Sem cor também não pode. Formas? Pouco importa – o que vale é o meio: simbólico, lúdico, lírico. Intensidade, beleza, poesia cor e luz – muita luz. E música. Não esqueçamos o poder do som: ssSSSS SOM.

Registros bobos de uma mente que mente a si mesma. Artifícios pequenos de quem teme a culpa. Palavras dúbias que transformam certeza em mistério.

Palavras confundem o que sentimentos justificam. Se sentir bastasse-me nada diria. Por outro lado, se emoção justificasse-me e convencesse-me eu estaria sendo claro e objetivo agora.

Será que ainda preservo incólume a capacidade de sonhar? Afinal, de que são feitos os sonhos senão de outros sonhos?

Temo as horas.

São quase três.

Sigo em clichês.

22.1.10

Reticências (ou eterno retorno?)...

Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo por que digo 'mais', se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora.
Caio Fernando Abreu

“Para mundo porque eu quero descer!” – Lembrei desta frase e sorri bobo.

No fim do último dezembro, chegada a hora do tal balanço, estava me sentindo meio assim: seco. Passeando pela memória lembrei que no mesmo período do ano anterior enviei um email para uma amiga, que amo muito, desabafando meu estado de espírito naquele momento. Reli o texto e percebi que na ocasião em que o escrevi eu me sentia da mesma forma: seco. Mas, ainda havia dor.

Nesta semana tenho me sentido muito assim: seco. Tentei escrever, mas as frases não se encaixavam. A secura é tanta que os pensamentos entram em atrito, não se combinam. Então reli aquele mesmo email e percebi, claramente, que agora nem há (ou parece não haver) mais dor. E é isso aí:

Data: Quinta-feira, 11 de Dezembro de 2008
Assunto: Só eu sei, Vivi...

Ai, Vi....

“Só eu sei
As esquinas por que passei
Só eu sei”.

Estou com uma dor tão forte no peito, Vivi... Daquelas dores que não têm razão, que vêm de um fundo vazio cujo vácuo pressiona a boca do estômago, parece entupir o coração e sufoca... E dói, dói, dói...

“Sabe lá
O que é morrer de sede em frente ao mar
Sabe lá”

Não queria te falar dessa dor assim, por e-mail, à distância. Mas, mesmo que estivéssemos cara-a-cara, eu não diria nada diferente. Apenas repetiria que dói, dói... e dói muito, Vi.

“Sabe lá
O que é não ter e ter que ter pra dar
Sabe lá”

Não sei dar explicações, Vi. Não tenho explicações a dar. Talvez por que não tenha explicação mesmo. Mas explico-me (a mim mesmo, mesmo) que, nos últimos dias, o “tal” balanço me atordoa. Aquele balanço que a gente faz quando é fim de ano, ou quando chega nosso aniversário, sabe? Você tenta colocar na balança aquilo que desejou, e aquilo que conseguiu; aquilo que ganhou, e aquilo que perdeu; aquilo que sentiu, e aquilo que negligenciou; aquilo que era, e já não é mais; ou mesmo aquilo que é agora, e que nunca havia sido antes.

Controvérsias... controvérsias....

“Cadê os seus planos
Cadê as meninas?
Você agora enche a cara e cai pelas esquinas”

Você não deve estar entendendo nada, nobre amiga libriana. E temo pelas preocupações que esse meu desabafo bêbado possa suscitar em você. Mas não se preocupe. Não é nada tão grave, embora eu sinta como se essa dor fosse, enfim, o fardo que não vou conseguir carregar... No fim, sei que vou conseguir. Mas, por enquanto, só dói... e dói tanto.

“E eu
Homem feito
Tive medo e não consegui dormir.”

A dor deve ser provocada pela alternância dos pratos da balança que ouso utilizar sem auferir. O balanço começa pelo fim de curso... quatro anos... O que foram esses quatro anos? O que fiz nesses quatro anos? O que fiz desses quatro anos?

Daí lembro que há oito concluí o segundo grau... Que foram esses oito anos? Que foram os quatro penúltimos anos antes dos quatro últimos? E o que representa todo o conjunto destes oito anos? Que fiz deles? Que me fizeram eles?

Logo lembro que neste conjunto de anos, veio a Bia... E o que é a paternidade na minha vida, Vi? Que fiz eu para merecer ser pai de uma menina tão linda? Que faço eu para agradecer tão divina glória?

Num próximo instante lembro que faz dez anos que conheço o David; doze que conheço você; vinte e quatro que conheço Nívio... E o que significam vocês para mim? O que significam vocês na minha vida? E o que significo eu na vida de vocês? Daí, penso naqueles outros amigos que conheço há pouco; há meses; há semanas; há dias... E sinto raiva por valorizar, em determinados momentos, mais aqueles que só me procuram por motivos/interesses que, na maioria das vezes, desconheço que são torpes. E me entrego. E você sabe o quanto me custa essa entrega e o quanto ela me dói. E dói demais mesmo, Vivi.

E penso ainda o que representam este quase 1/4 de século de vida... as duas décadas pelas quais passei e a terceira pela qual estou passando... Passo por elas ou elas passam por mim? Somo os anos, ou me subtraem os meses? Traio eu a vida troçando tanto dela?

“Mas, ei, Mãe
Alguma coisa ficou pra trás
Antigamente eu sabia exatamente o que fazer”

Ah! As esquinas... passei por tantas, Vivi, que só eu sei. Assim como julguei saber, nestas mesmas esquinas, para qual lado me guiar, ignorando os avisos de “segue por aqui, porque por ali é furada”... Só eu sei os erros reais que cometi, Vi, embora os negue tanto.

Mas dói tanto, Vivi... Doem muito as certezas, e doem mais ainda as dúvidas. E são tantas as dúvidas.

As dúvidas somam o vazio que tanto me dói. E se, ultimamente, pondero tanto as certezas do passado, certamente é porque as dúvidas do futuro me afligem muito mais.

Tenho medo do futuro, Vi, porque não o vejo. Talvez me dissesse agora que para todos o futuro é incerto. Concordaria contigo. Mas tenho medo, Vi, e isso me dói... tanto.

Não sei se agradeço, ou se me desculpo pelo desabafo... Mas...

Beijos, Vi!

Dan.


13.1.10

Pelo fim da década, agradeço

Agradeço: aos astros, à natureza, à vida ou seja lá qual for o nome que Ele tenha. Dou graças pelo meu pão de cada dia, pelo meu tônus muscular, pelos meus pés firmes que me garantem o caminhar, pela família que me indica o Norte, pelos amigos sinceros e seus ombros largos, pelo trabalho suado, pelo suor, pela sanidade mental e até mesmo pelos desvarios. Sou grato e peço mais bênçãos – afinal sou humano e quero sempre mais.

Mais saúde, mais amor, mais trabalho, mais suor, mais união fraterna, mais farra entre amigos, mais beijos & abraços sinceros, mais música, mais poesia, mais paisagens novas, horizontes mais belos e muita, muita esperança e fé – em qualquer coisa que me garanta mais uma, duas, três, quem sabe até quatro décadas.

Nada de projeções do tipo “e amanhã, e depois?”. Agradeço o momento presente. Meu balanço de 2009 terminou sem aquela coisa de planejar. Estava, e ainda estou, num clima meio bossa-nova: barquinho a deslizar. Mas também não vou soltar o leme: é preciso estar atento às revoltas da maré, às tempestades.

Ao comparar 2009 ao ano anterior percebi mudanças claras, profundas, coesas, satisfatórias. Escuridão e medo marcaram 2008. Feito larva no casulo ganhei luz em 2009 e não me hesitei a bater asas e voar. Voei e transcendi certas barreiras. Houve lamúrias, dores, medos, danos – é claro, nem tudo são flores. Amadureci e noto isso com muita clareza e orgulho.

Feliz e, até certo ponto, seguro, começo 2010 com otimismo e disposição para encarar as mudanças que se anunciam. Fim de década, algo muda – há de mudar – e torço para que mude para melhor (no meu umbigo e no resto do mundo!).

Desde a última semana de dezembro tenho ensaiado registrar esse momento de transição aqui. Não se trata de falta de inspiração, menos ainda de tempo. Sei lá o motivo da demora. O que importa é que agradeço, muito, por tudo e por todos que marcaram meu último ano, o penúltimo da década.

Desejo a todos muita folia. Eu quero mais, quero muita, quero hoje e quero agora!

17.11.09

Ácido

Não adianta desperdiçar sofrimento
Por quem não merece
É como escrever poemas no papel higiênico
E limpar o cu
Com os sentimentos mais nobres

Querido Diário [Tópicos Para Uma Semana Utópica] - Cazuza


Tive um sonho estranho hoje. Nem sei se foi um sonho ruim, porque não me recordo com clareza de nada. Lembro apenas que foi um sonho tenso, desgastante. Acordei cansado, com uma sensação desconfortável e com a estrofe do poema em epígrafe repetindo na memória (não sei se do sonho). Repetindo, o tempo todo: “Não adianta desperdiçar sofrimento por quem não merece. É como escrever poemas no papel higiênico e limpar o cu com os sentimentos mais nobres”.

Acho esse poema do Cazuza maravilhoso. De uma beleza extremamente bruta, crua, despudorada. Daí lembrei de outra estrofe: “Evitar mentiras meigas. Enfrentar taras obscuras. Amar de pau duro”. Extremamente poético e belo. A beleza, para mim, se sobressai no que é natural. Como o diamante: quanto mais puro, mais transparente, belo e valioso se torna.

Abri a janela e vi que o dia estava branco – tão propício à preguiça, à melancolia e ao saudosismo. Voltei pra cama, tentei dormir de novo. Tive um cochilo rápido, suficiente para ter um pesadelo. Envolvia minha filha e levantei assustado. Só então me dei conta que estava atrasado para levá-la na natação.

Beijos e abraços dela espantaram a sensação estranha com a qual acordei. Mas, ainda sobrou uma pontinha de sei-lá-o-quê – talvez um pouco de mau humor, um resto de amargura, certo desânimo, ou quem sabe algo mais grave como o tédio querendo dar as caras. Segui o dia mecanicamente.

Entre levar a filha na academia, buscá-la, depois levá-la para a escola e depois ir para a academia de novo, me peguei reparando muito as pessoas que por mim passavam. Percebi que tentava identificar no semblante delas os sentimentos que, por ventura, lhes arroubavam no momento. Impossível, claro. Mas, foi uma experiência interessante.

Os casais me chamavam mais atenção. Novos, velhos, gays – não importa. Uns me deixavam com a impressão nítida de estarem de saco cheio um do outro. Outros pareciam completamente apaixonados. De volta à minha casa, comecei a pensar nos casais que me são próximos: um amigo descobriu estar sendo traído; uma amiga jura estar sendo traída; outro amigo revela abertamente estar se beneficiando do namoro, e não amando; uma amiga se rebaixa por conta do ex-namorado que a humilha...

Olhei para mim e veio a constatação: ando ficando louco de amor não dado.

Cada vez mais aumenta minha descrença no ser humano (assunto recorrente em vários registros deste blog). O egoísmo se sobressai nas mínimas atitudes do homem. Nas minhas observações de hoje, por exemplo, via claramente como as pessoas em geral não têm a mínima noção do que é o coletivo – caminhando na rua, dirigindo, em filas, praças, ônibus... Reparando os casais, percebi como é difícil identificar aqueles que, de fato, vivem uma vida a dois.

O egoísmo, sem dúvida, é a antítese do amor. Acredito que grande parte do mal que as pessoas causam umas às outras é praticado de forma inconsciente, sem intenção, sem dolo. É intrínseco ao bicho gente agir mais em benefício próprio, em busca do auto prazer, da auto realização, em detrimento das expectativas e necessidades do outro. Freud, com certeza, explica!

O dia parecia caminhar nesse ritmo de introspecção, com esses pensamentos tristes, enfadonhos, desesperançosos. Mas, Carlos Lyra e Ronaldo Boscoli deram a dica e Cássia Eller me ajudou na catarse. Melhor aproveitar a rara noite de folga para rir entre amigos que me desgastar com essas inquietações. E dá-lhe cerveja!


Ouvindo:
Saudade Fez um Samba (Carlos Lyra e Ronaldo Boscoli)
Voz: Cássia Eller

Deixa que o meu samba
Sabe tudo sem você
Não acredito que o meu samba
Só dependa de você
A dor é minha, em mim doeu
A culpa é sua, o samba é meu
Então, não vamos mais brigar
Saudade fez um samba em seu lugar

22.10.09

Notícias particulares


Exclusivo

Um coração-ariano ficou ferido nesta primavera durante confronto com um coração-leviano em plena capital onde o horizonte é mais belo, no Mundo Real. Ele chegou a ser mantido em cárcere privado, mas conseguiu fugir. Segundo o proprietário da vítima, ele foi salvo, durante a perseguição psicológica, por um coração-oficial da Força do Acaso e, após superar alguns paradigmas, se recupera bem. O agressor está desaparecido.

Comportamento

Aos sete anos de idade, Biboca, uma linda princesa do condado Silveira, ameaça deixar seu pai-bobão-babão com pelo menos uma ponte de safena antes de completar 30 anos. Futura herdeira de um legado sentimentalista, a menina sapeca tem aterrorizado seu genitor expressando desejos que, para ele, não são compatíveis com uma criança desta idade. De acordo com Sigmund Freud, pai da psicanálise, isso é uma fase comum e passa. O pai-bobão-babão disse que, com muita dificuldade, se esforça para acreditar no psicanalista.

Esportes

Depois de ser condicionado a um estilo de vida semi-notívago, um sedentário-magrelo decidiu encarar, novamente, uma rotina de malhação em academia. Ele segue determinado em manter melhor qualidade de vida e confiante em deixar a magreza no passado. Seu instrutor afirma que ele está no ritmo certo. Entretanto, garante que se ele não abandonar o tabagismo terá dificuldade em obter bons resultados. Por conta de sua cara-de-pau, o pretenso atleta prefere não se pronunciar a respeito.

Saúde

Ao notar que seu funcionário estava, com frequencia, trocando letras ao escrever e que tais erros não eram de digitação, o chefe-atento sugeriu a ele que procurasse um especialista. Após ser submetido, pela primeira na vida, ao exame que faz a pupila parecer explodir, o troca-letras foi surpreendido pelo diagnóstico: astigmatismo e hipermetropia. O oftalmologista garantiu que o grau de incorreção ainda é leve, mas que se não providenciar óculos para leitura poderá sofrer mais no futuro. Embora assustado e sob forte pressão da chefia, o cegueta enrola para adquirir suas lentes.

Educação

Relapso ao extremo, um bacharel em comunicação social perdeu a oportunidade de se inscrever ao processo de seleção para o mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais deste ano. Embora tivesse marcado em agenda a data de inscrição, o comunicólogo ignorou o prazo e, ainda assim, lamentou não ter cumprido seu objetivo. De acordo com a universidade, nova oportunidade será aberta somente no segundo semestre de 2010. Até lá o candidato poderá aperfeiçoar seu projeto de pesquisa, além de adquirir mais conhecimentos em língua estrangeira – quesito em que tem maior déficit e que é fundamental na etapa eliminatória.

Economia/Editorial

O Banco Central acaba de lançar uma campanha para estimular o consumidor brasileiro a por em circulação as moedas que costuma manter em casa. O órgão estima que cerca de R$ 7 milhões em moedas deixam de circular no país para ficarem mantidas em cofrinhos, o que aumenta o gasto público para confecção de novas peças e prejudica os comerciantes na hora de fornecerem troco. Particularmente, lamento não ser atingido pela campanha, uma vez que o descontrole financeiro me impede de manter qualquer economia – seja em porquinhos, ou mesmo em cofres bancários.

Turismo

Quem deseja passar o réveillon deste ano em Paraty, Trindade ou Ilha Grande e não se programou deve ficar atento e, principalmente, contar com a sorte. Com a proximidade da data, os valores de hospedagem estão exorbitantes e as vagas cada vez mais limitadas. Para o turista solitário Mim Mesmo, a expectativa é conseguir barganhar o aluguel de uma casa e contar com companhia para dividi-lo. Embora seja mochileiro por natureza, ele teme passar a virada do ano mais uma vez acampado e, novamente, ser vítima de incêndio em sua bagagem, obrigando-o a comemorar a data cheirando à fumaça.

Cultura

Para quem se sente envolvido com a estação das flores, a dica é conferir o DVD da Vanessa da Mata Multishow ao Vivo. Gravado em Paraty e lançado no começo deste ano, o registro audiovisual apresenta os maiores sucessos dos três primeiros álbuns da cantora. Muitas flores compõem o cenário do palco que tem como fundo a linda e histórica cidade litorânea. O encanto é garantido pela inigualável voz e exótica beleza da matogrossense. Entre as músicas, o destaque para embalar a primavera fica por conta da faixa de número oito, com os sugestivos versos “O que há de mal / Poder brincar de amar / Sem pensar no amanhã / Sem nenhuma vergonha / Numa cara de pau / Aproveitar um samba / Numa tarde vazia / Ter um siricotico / Ter uma aventura".


3.9.09

Que seja doce




Ouvindo:
Casa Pré-Fabricada - (Marcelo Camelo)
Voz: Maria Rita

Abre os teus armários, eu estou a te esperar
Para ver deitar o sol sobre os teus braços, castos
Cobre a culpa vã, até amanhã eu vou ficar
E fazer do teu sorriso um abrigo

Canta que é no canto que eu vou chegar
Canta o teu encanto que é pra me encantar
Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais

Mais vale o meu pranto que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas
Abre essa janela, a primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota

Canto que é de canto que eu vou chegar
Canto e toco um tanto que é pra te encantar
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais



Que bom ter chegado setembro. Ótimo já ter passado Agosto – maiúsculo mesmo. Nem é coisa de superstição. No meu caso é empírico mesmo. Mês sujeito às trevas, nebuloso, misterioso – dentre outros adjetivos, por que não dizer, yang. Mas o bom é que passa. Aliás, ótimo que já tenha passado.

Caminhei lento em agosto. Segui meus próprios conselhos e estive tranquilo, quase sereno. Foi um mês de dias lindos. Na primeira quinzena muitos dias de céu azul sem nuvens (ou poucas), na segunda teve um pouco de chuva (e foi perfeito) e mais no fim fez dias brancos, pálidos (lindos).

Mas agosto é mês bravo e não me deixaria passar ileso, como não deixou. Entre os dois últimos dias ele mostrou à que vem sempre. Pelo menos ele só me atacou nas últimas (penosas) 48 horas. E o bom mesmo é que chegou setembro.

(Tanta vontade de fazer tanta coisa, mas tanta preguiça misturada a tanta nostalgia [“Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?” – Caio F.] que é tanta.)

Que a primavera seja doce pra todos nós.

P.S.: Faço minhas as palavras de Maria Rita: “Ouço essa música e tenho vontade de me apaixonar. De peito aberto. De peito não: de coração aberto”.