17.11.09

Ácido

Não adianta desperdiçar sofrimento
Por quem não merece
É como escrever poemas no papel higiênico
E limpar o cu
Com os sentimentos mais nobres

Querido Diário [Tópicos Para Uma Semana Utópica] - Cazuza


Tive um sonho estranho hoje. Nem sei se foi um sonho ruim, porque não me recordo com clareza de nada. Lembro apenas que foi um sonho tenso, desgastante. Acordei cansado, com uma sensação desconfortável e com a estrofe do poema em epígrafe repetindo na memória (não sei se do sonho). Repetindo, o tempo todo: “Não adianta desperdiçar sofrimento por quem não merece. É como escrever poemas no papel higiênico e limpar o cu com os sentimentos mais nobres”.

Acho esse poema do Cazuza maravilhoso. De uma beleza extremamente bruta, crua, despudorada. Daí lembrei de outra estrofe: “Evitar mentiras meigas. Enfrentar taras obscuras. Amar de pau duro”. Extremamente poético e belo. A beleza, para mim, se sobressai no que é natural. Como o diamante: quanto mais puro, mais transparente, belo e valioso se torna.

Abri a janela e vi que o dia estava branco – tão propício à preguiça, à melancolia e ao saudosismo. Voltei pra cama, tentei dormir de novo. Tive um cochilo rápido, suficiente para ter um pesadelo. Envolvia minha filha e levantei assustado. Só então me dei conta que estava atrasado para levá-la na natação.

Beijos e abraços dela espantaram a sensação estranha com a qual acordei. Mas, ainda sobrou uma pontinha de sei-lá-o-quê – talvez um pouco de mau humor, um resto de amargura, certo desânimo, ou quem sabe algo mais grave como o tédio querendo dar as caras. Segui o dia mecanicamente.

Entre levar a filha na academia, buscá-la, depois levá-la para a escola e depois ir para a academia de novo, me peguei reparando muito as pessoas que por mim passavam. Percebi que tentava identificar no semblante delas os sentimentos que, por ventura, lhes arroubavam no momento. Impossível, claro. Mas, foi uma experiência interessante.

Os casais me chamavam mais atenção. Novos, velhos, gays – não importa. Uns me deixavam com a impressão nítida de estarem de saco cheio um do outro. Outros pareciam completamente apaixonados. De volta à minha casa, comecei a pensar nos casais que me são próximos: um amigo descobriu estar sendo traído; uma amiga jura estar sendo traída; outro amigo revela abertamente estar se beneficiando do namoro, e não amando; uma amiga se rebaixa por conta do ex-namorado que a humilha...

Olhei para mim e veio a constatação: ando ficando louco de amor não dado.

Cada vez mais aumenta minha descrença no ser humano (assunto recorrente em vários registros deste blog). O egoísmo se sobressai nas mínimas atitudes do homem. Nas minhas observações de hoje, por exemplo, via claramente como as pessoas em geral não têm a mínima noção do que é o coletivo – caminhando na rua, dirigindo, em filas, praças, ônibus... Reparando os casais, percebi como é difícil identificar aqueles que, de fato, vivem uma vida a dois.

O egoísmo, sem dúvida, é a antítese do amor. Acredito que grande parte do mal que as pessoas causam umas às outras é praticado de forma inconsciente, sem intenção, sem dolo. É intrínseco ao bicho gente agir mais em benefício próprio, em busca do auto prazer, da auto realização, em detrimento das expectativas e necessidades do outro. Freud, com certeza, explica!

O dia parecia caminhar nesse ritmo de introspecção, com esses pensamentos tristes, enfadonhos, desesperançosos. Mas, Carlos Lyra e Ronaldo Boscoli deram a dica e Cássia Eller me ajudou na catarse. Melhor aproveitar a rara noite de folga para rir entre amigos que me desgastar com essas inquietações. E dá-lhe cerveja!


Ouvindo:
Saudade Fez um Samba (Carlos Lyra e Ronaldo Boscoli)
Voz: Cássia Eller

Deixa que o meu samba
Sabe tudo sem você
Não acredito que o meu samba
Só dependa de você
A dor é minha, em mim doeu
A culpa é sua, o samba é meu
Então, não vamos mais brigar
Saudade fez um samba em seu lugar

22.10.09

Notícias particulares


Exclusivo

Um coração-ariano ficou ferido nesta primavera durante confronto com um coração-leviano em plena capital onde o horizonte é mais belo, no Mundo Real. Ele chegou a ser mantido em cárcere privado, mas conseguiu fugir. Segundo o proprietário da vítima, ele foi salvo, durante a perseguição psicológica, por um coração-oficial da Força do Acaso e, após superar alguns paradigmas, se recupera bem. O agressor está desaparecido.

Comportamento

Aos sete anos de idade, Biboca, uma linda princesa do condado Silveira, ameaça deixar seu pai-bobão-babão com pelo menos uma ponte de safena antes de completar 30 anos. Futura herdeira de um legado sentimentalista, a menina sapeca tem aterrorizado seu genitor expressando desejos que, para ele, não são compatíveis com uma criança desta idade. De acordo com Sigmund Freud, pai da psicanálise, isso é uma fase comum e passa. O pai-bobão-babão disse que, com muita dificuldade, se esforça para acreditar no psicanalista.

Esportes

Depois de ser condicionado a um estilo de vida semi-notívago, um sedentário-magrelo decidiu encarar, novamente, uma rotina de malhação em academia. Ele segue determinado em manter melhor qualidade de vida e confiante em deixar a magreza no passado. Seu instrutor afirma que ele está no ritmo certo. Entretanto, garante que se ele não abandonar o tabagismo terá dificuldade em obter bons resultados. Por conta de sua cara-de-pau, o pretenso atleta prefere não se pronunciar a respeito.

Saúde

Ao notar que seu funcionário estava, com frequencia, trocando letras ao escrever e que tais erros não eram de digitação, o chefe-atento sugeriu a ele que procurasse um especialista. Após ser submetido, pela primeira na vida, ao exame que faz a pupila parecer explodir, o troca-letras foi surpreendido pelo diagnóstico: astigmatismo e hipermetropia. O oftalmologista garantiu que o grau de incorreção ainda é leve, mas que se não providenciar óculos para leitura poderá sofrer mais no futuro. Embora assustado e sob forte pressão da chefia, o cegueta enrola para adquirir suas lentes.

Educação

Relapso ao extremo, um bacharel em comunicação social perdeu a oportunidade de se inscrever ao processo de seleção para o mestrado na Universidade Federal de Minas Gerais deste ano. Embora tivesse marcado em agenda a data de inscrição, o comunicólogo ignorou o prazo e, ainda assim, lamentou não ter cumprido seu objetivo. De acordo com a universidade, nova oportunidade será aberta somente no segundo semestre de 2010. Até lá o candidato poderá aperfeiçoar seu projeto de pesquisa, além de adquirir mais conhecimentos em língua estrangeira – quesito em que tem maior déficit e que é fundamental na etapa eliminatória.

Economia/Editorial

O Banco Central acaba de lançar uma campanha para estimular o consumidor brasileiro a por em circulação as moedas que costuma manter em casa. O órgão estima que cerca de R$ 7 milhões em moedas deixam de circular no país para ficarem mantidas em cofrinhos, o que aumenta o gasto público para confecção de novas peças e prejudica os comerciantes na hora de fornecerem troco. Particularmente, lamento não ser atingido pela campanha, uma vez que o descontrole financeiro me impede de manter qualquer economia – seja em porquinhos, ou mesmo em cofres bancários.

Turismo

Quem deseja passar o réveillon deste ano em Paraty, Trindade ou Ilha Grande e não se programou deve ficar atento e, principalmente, contar com a sorte. Com a proximidade da data, os valores de hospedagem estão exorbitantes e as vagas cada vez mais limitadas. Para o turista solitário Mim Mesmo, a expectativa é conseguir barganhar o aluguel de uma casa e contar com companhia para dividi-lo. Embora seja mochileiro por natureza, ele teme passar a virada do ano mais uma vez acampado e, novamente, ser vítima de incêndio em sua bagagem, obrigando-o a comemorar a data cheirando à fumaça.

Cultura

Para quem se sente envolvido com a estação das flores, a dica é conferir o DVD da Vanessa da Mata Multishow ao Vivo. Gravado em Paraty e lançado no começo deste ano, o registro audiovisual apresenta os maiores sucessos dos três primeiros álbuns da cantora. Muitas flores compõem o cenário do palco que tem como fundo a linda e histórica cidade litorânea. O encanto é garantido pela inigualável voz e exótica beleza da matogrossense. Entre as músicas, o destaque para embalar a primavera fica por conta da faixa de número oito, com os sugestivos versos “O que há de mal / Poder brincar de amar / Sem pensar no amanhã / Sem nenhuma vergonha / Numa cara de pau / Aproveitar um samba / Numa tarde vazia / Ter um siricotico / Ter uma aventura".


3.9.09

Que seja doce




Ouvindo:
Casa Pré-Fabricada - (Marcelo Camelo)
Voz: Maria Rita

Abre os teus armários, eu estou a te esperar
Para ver deitar o sol sobre os teus braços, castos
Cobre a culpa vã, até amanhã eu vou ficar
E fazer do teu sorriso um abrigo

Canta que é no canto que eu vou chegar
Canta o teu encanto que é pra me encantar
Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais

Mais vale o meu pranto que esse canto em solidão
Nessa espera o mundo gira em linhas tortas
Abre essa janela, a primavera quer entrar
Pra fazer da nossa voz uma só nota

Canto que é de canto que eu vou chegar
Canto e toco um tanto que é pra te encantar
Canto para mim qualquer coisa assim sobre você
Que explique a minha paz
Tristeza nunca mais



Que bom ter chegado setembro. Ótimo já ter passado Agosto – maiúsculo mesmo. Nem é coisa de superstição. No meu caso é empírico mesmo. Mês sujeito às trevas, nebuloso, misterioso – dentre outros adjetivos, por que não dizer, yang. Mas o bom é que passa. Aliás, ótimo que já tenha passado.

Caminhei lento em agosto. Segui meus próprios conselhos e estive tranquilo, quase sereno. Foi um mês de dias lindos. Na primeira quinzena muitos dias de céu azul sem nuvens (ou poucas), na segunda teve um pouco de chuva (e foi perfeito) e mais no fim fez dias brancos, pálidos (lindos).

Mas agosto é mês bravo e não me deixaria passar ileso, como não deixou. Entre os dois últimos dias ele mostrou à que vem sempre. Pelo menos ele só me atacou nas últimas (penosas) 48 horas. E o bom mesmo é que chegou setembro.

(Tanta vontade de fazer tanta coisa, mas tanta preguiça misturada a tanta nostalgia [“Não-ter pode ser bonito, descobri. Mas pergunto inseguro, assustado: a que será que se destina?” – Caio F.] que é tanta.)

Que a primavera seja doce pra todos nós.

P.S.: Faço minhas as palavras de Maria Rita: “Ouço essa música e tenho vontade de me apaixonar. De peito aberto. De peito não: de coração aberto”.


12.8.09

Sobre a fé ou coisa que a valha

Sabe aquela piada-sem-graça-alguma que pergunta por que o cachorro entrou na igreja? Pois, ontem eu me senti o próprio cãozinho. Caminhava alheio pela praça quando vi a porta do templo aberta e resolvi entrar. Sem propósito algum, entrei simplesmente porque as portas estavam abertas.

Bonito lá dentro. Nada muito exuberante ou luxuoso. Belos vitrais discretos, muita luz natural, dois lindos jardins de inverno com fontes e peixes. Ambiente harmonioso, como na maioria dos templos religiosos. No centro do altar um Cristo sóbrio e discreto, talhado em concreto, sem sangue ou expressão de dor nem semblante Daquele que carrega todos os pecados do mundo, espalhava candura no ambiente.

Sentei-me em um dos bancos, ao fundo da Igreja, contemplei o local e lembrei-me que já estivera ali outra vez. Há cerca de três anos caminhava aflito pela mesma praça quando vi as portas abertas e entrei. Mas, daquela vez, entrei para encarar aquele mesmo Cristo (como se ele só existisse ali) e clamar por socorro, nao apenas porque as portas estavam abertas. Nada muito grave me ocorria à exceção de problemas financeiros e certa desesperança de um futuro melhor. Entrei para rezar e pedir auxílio.

Dessa vez foi diferente. Entrei apenas porque as portas estavam abertas e porque tinha tempo livre antes do trabalho. Uma vez lá dentro, aproveitei para agradecer – a vida, a família, o emprego, os amigos – a Deus, não à imagem do Cristo. Sempre há o que agradecermos. E agradeci muito.

Quando me preparava para sair da igreja, avistei alguns papéis sobre um móvel e peguei um para ler. Sempre é bom ler mensagens motivacionais e esperava que aquela folha de papel A4 reservasse alguma. Havia, no alto da página, a imagem de um santo que não soube identificar e, ao lado da imagem, os dizeres “Eu quero, eu posso, eu faço”, em negrito e caixa alta.

O santo em questão, a mensagem informava, era aquele que ajuda a ganhar na mega-sena, tira HIV do sangue de quem lhe é devoto e cura até enfermos com câncer em fase terminal. Tratava-se de São Judas Tadeu, cujos fiéis criaram aquela “corrente” que acabara de pegar.

Detesto essas correntes e sempre apago todas que chegam por e-mail antes mesmo de lê-las. Mas aquela estava impressa, dentro de uma igreja na qual entrei sem nenhum propósito e onde, certa vez, busquei auxílio divino. Supondo que tudo aquilo fosse algum “sinal” (sou apegado a essas circunstâncias do acaso), li atento até a última linha a mensagem.

A tal corrente de São Judas Tadeu consiste em fazer 81 cópias dela e espalhá-las em nove igrejas católicas (nove cópias em cada) num prazo máximo de 13 dias – tudo muito cabalístico. Se cumprir a tarefa, tem o milagre (o santo em questão trabalha com pedidos nada modestos) concedido em até nove dias. Caso não seja cumprida algo terrível pode acontecer e “em hipótese nenhuma deves se livrar dela”.

Esta última frase me assustou e guardei o papel, cuidadosamente, na mochila. Em 13 dias eu tenho tempo de pensar melhor na proposta do Santo e cumprir a tal missão – pensei. E deixei a igreja cogitando qual seria o meu pedido. Me vieram coisas pequenas na mente, como comprar um carro, um apê ou viajar pela Europa. Mas também me ocorreram coisas grandes como ver o vovô bem de novo, viver até meus netos ficarem adultos ou encontrar um amor-de-quatro-estações-para-a-vida-toda.

Senti medo, realmente, pela intimidação da corrente. Mas, também senti muita esperança de que tanto as coisas pequenas como as grandes acontecessem. Estes dois sentimentos (esperança e medo) são ou não são indissociáveis à fé? Creio que sejam quase sinônimos. Fato é que se eu me decidir por não quebrar a corrente e meu pedido for atendido dentro do prazo (trato é tato e se acontecer depois do 10º dia dou como inválido) São Judas Tadeu ganhará mais um devoto.


28.6.09

Frio

Muitas vezes sinto frio nos pés, mas raríssimas vezes calço meias. Você pode pensar que eu não tenha nada melhor para dizer e, somente por isso, escrevo tamanha bobagem. Se assim pensou, certamente não imagina que eu tenha me feito a mesma observação. Talvez tivesse algo melhor para contar caso não estivesse com os pés descalços e tão gelados. E de alguma forma a minha recusa em calçar meias se reflete na minha falta do que falar.

Sei que pareço confuso, mas não me preocupo que me perceba assim. Embora deseje imensamente que você acredite que estou mais sereno. Ouça: sinto frio nos pés, mas mantenho-os descalços. Não percebe a amplitude disso? Talvez eu mesmo não perceba. Mas, acredite, estou mais sereno. Reconheço o frio e dispenso o agasalho. Ato falho ou grande passo?

Enfim, escrevo só para dizer que tenho os pés frios agora e que ainda não calcei meias porque raríssimas são as vezes que as uso apenas por estar com frio. Se for capaz de compreender com que lealdade (lealdade, repito) lhe confesso tal intimidade me sentirei mais à vontade para lhe contar outras bobagens. Talvez lhe conte até mesmo sobre o frio que não me atinge os membros, mas o peito. Frio este que não cesso também por recusa, além de certa dor.

7.6.09

Conversa Vital



- O que houve, meu querido? Já quase não o reconheço mais. Onde está aquela pulsação juvenil, cheia de entusiasmo? O que ocorreu, coração, com sua agitação eufórica?

- Ora! Quem deveria saber isso é, evidentemente, o senhor, cérebro. Por que não me motiva mais?

- Confesso que já temia que o problema fosse motivacional. Mas não consigo explicar, não posso... Bata, coração, bata. Por favor, trabalhe por nós.


1.6.09

Para melhor aproveitar o fim do outono

Ouvindo:
Abra Palavra (Vitor Santana)
Voz: Vitor Santana e Mariana Nunes

Mas se eu não duro nesta sacra via,
busca de alegria para o meu olhar,
eu boto fé na nossa romaria,
asfalto e melodia nunca irão faltar.


Junho começa e o outono inicia sua despedida. As belas cores desta estação desbotam um pouco até a chegada do inverno. Em 21 dias ocorrerá o solstício, marcando a hora de recolhida do espírito da natureza em sua hibernação, que deve durar 93 dias até que acorde em uma radiante primavera.

Ainda há tempo de aproveitar o restante do outono. Caminhadas pelas manhãs de céu azul sem nuvens e de raios solares que nos atingem de forma suave é uma ótima pedida. Se for possível parar no fim da tarde para admirar o poente, é melhor não perder a oportunidade e permitir-se a tal contemplação.

Ao entardecer, o céu ainda azul e já com nuvens ganha tons diversos. No topo geralmente se concentra uma porção de um azul mais forte que vai ganhando tons mais leves até chegar ao lilás, quase na metade do céu. Do lilás seguem-se as cores do sol em dégradé até um vermelho, geralmente escuro, na margem do poente. As serras curiosamente ganham um tom de lilás também, um pouco escuro.

Ao cair a noite não se deve hesitar ao uso de um agasalho no caso de sair na rua. As temperaturas estão mais baixas e há muito sereno. O que não impede de caminhar um pouco também, respirar o denso ar frio e se admirar com as estrelas. E marque na agenda: dia 6 tem lua cheia.

Lembre-se que no inverno o organismo precisa de mais energia, então adquira-a desde já. Mas sem acúmulos. Gaste também. Exercite-se, movimente-se. Lubrifique os músculos, alongue-se. Vais precisar de disposição física.

Mantenha pensamentos positivos. Sempre é bom, ainda mais agora. Leia bons livros, assista bons filmes, ouça muitas músicas – de qualquer estilo, desde que lhe faça bem. Brinque com crianças. Beije bastante. Abrace o máximo que puder. Compartilhe calor. Compartilhe alegria. Sorria.

Reze bastante se for de rezar, ou ore. Peça ao santo ou à santa, sejam eles católicos ou da umbanda. Entoe mantras. Carregue seus patuás. Dê maçãs aos gnomos, converse com as fadas. Apegue-se às pequenas esperanças, elas são importantes. Acredite em sua fé.

Mantenha-se sereno e realista. Mas se a realidade estiver um pouco dura, ou mesmo um pouco triste, não hesite: fantasie. Dê asas à sua imaginação, enfeite um pouco a vida. Imagine sim que vai ganhar na loteria e ficar rico, por exemplo – faça o jogo. Mas tenha bom senso, previna-se das (des)ilusões.

Limpe sua casa, seu quarto. Retire todo o pó de sua vida. Jogue fora coisas velhas. Mexa em suas gavetas, relembre bons momentos. Revise fotos. Mas abstenha-se do saudosismo. Lembre-se que o hoje passa rápido, prepare-se para o futuro.

O inverno é o futuro mais próximo. Não tema-o. Ele representa a hora do renascimento. A natureza se aquieta para ganhar mais forças. Exercite até lá a capacidade de apreciar as belezas sutis – o inverno reserva bastante. Não se preocupe com agosto, todo mês é mês para se ter desgostos.

Em setembro virá a primavera, que lhe trará flores lindas. Haverá muitas cores, muitos perfumes. Haverá também muitos tons de verde. Quem sabe um romance? Terás mais energia, mais disposição, e logo logo será verão. Quem sabe o litoral, ou mesmo o Chile, por que não?

Sobremodo necessário é o bom emprego das palavras. Use-as a seu favor. Pronuncie as belas, as fortes, as afirmativas. Desde agora até o próximo outono, quando fará novas colheitas. Ele há de chegar!


14.5.09

Dá pra entender?????



Ando com uma vontade louca de ganhar um cão, filhote de preferência. Cachorro não é coisa que se compre, então quero ganhar um. Quero que ele seja branco com manchas marrons e pretas, e que tenha orelhas imensas, que se dobram no chão. É imprescindível que seja um daqueles cães preguiçosos, lerdos até para latir. Quero que seja dengoso sem ser meloso, e que saiba exatamente onde fica o banheiro dele. Aceito até dividir um pedaço da cama com meu cãozinho, desde que ele se lembre que não dá para compartilharmos muitas coisas, principalmente a comida. E quero que o nome dele seja Lupércio. Ora, se o cão é meu eu ponho o nome que quiser, e quero ter um cão chamado Lupércio. Encasquetei tanto com isso... vai entender...!

23.4.09

Eu, dialético?


"...Aliás, naquela noite ele não conseguia refletir por muito tempo, fixar o pensamento em um objeto qualquer, nem conseguia resolver qualquer questão que fosse; só conseguia sentir. No lugar da dialética surgira a vida, e na consciência devia elaborar-se algo inteiramente diferente.”

Crime e Castigo - Dostoiévski

Sempre me percebi como um cara completamente entregue às emoções. Controlar os meus impulsos é tarefa dificílima para minha razão. Mas desta certeza quanto à minha natureza emocional surge a seguinte contradição: porque reflito tanto sobre o meu sentir?

Talvez seja essa a verdade: eu nunca consegui deixar a dialética de lado, por isso não elaboro nada diferente. Apenas fico assim, parado, refletindo, ponderando ou calculando os meus sentimentos. Observo a minha ação, e não meu movimento (Me fiz entender? Eu entendi.).

Cabeça cheia nos últimos dias. Peito vazio. Ando taciturno, introspectivo, buscando a minha solidão como se dela dependece a minha sobrevivência. Queria estar longe dos olhares acusadores e/ou preocupados... longe.

Silêncio... por favor.

Preciso urgentemente listar prioridades. Colocar no papel mesmo, para me lembrar o que devo priorizar. Organizar a rotina, traçar metas, objetivos. Planejar. Nunca consegui fazer nada disso. E se digo nunca, essa palavra tão dura, é porque ela cabe nesta constatação.

Vivo do que tenho, não do que posso vir a ter. Sempre fui assim. Minha necessidade é imediata, para agora ou, no máximo, pra daqui a pouco. Médio ou longo prazo? Desisto. Arrumo algo mais urgente, sempre acho.

Eis aí outra grande contradição: anseio pelo o que pode ser perene, mas opto sempre pelo que é fugidio, efêmero. Engano-me? Certamente. Mas, em qual ponto exatamente? (lembrei do Renato: Nem foi tempo perdido, Somos tão jovens...)

Ah! A tal da dialética... basta (por agora, pelo menos.).

(Vontade de dizer palavras belas e de ganhar um beijo.)

Livro novo do Chico pra ler (Leite Derramado) e na lista da nostalgia musical, Paralamas do Sucesso!


16.4.09

Febre literária e outros subterfúgios poéticos



Da primeira vez foi a mesma coisa. Talvez até pior. Ou seria melhor dizer que foi mais grave. Não... nem pior, nem mais grave. Foi mais complexo, mais intenso, mais denso. Isso! Da primeira vez foi bem mais denso e intenso (e um pouco grave também) todo o processo de absorção. Justamente por saber como foi difícil digerir e superar tudo aquilo, eu deveria ter sido mais cauteloso desta vez, devia ter me armado. Mas fui ingênuo e, novamente, Dostoiévski pisa na minha alma.

A primeira vez foi com Os Irmãos Karamazovi. Em certos momentos do processo de leitura e de absorção das idéias eu cheguei a pensar que poderia estar entrando em um quadro de loucura. Juro. Dostoiévski deixa nua toda a humanidade no decorrer daquela trama, revelando as várias faces do sofrimento humano. E como dói.

Desta vez é com o Crime e Castigo. Rapá... a treta é sinistra! A leitura do livro está me levando a momentos reflexivos tensos. A catarse me provoca uma dor incomensurável, quase como da primeira vez que li Dostoiévski. Só que da outra vez... eu já disse isso, né?

Por que somos tão egoístas, tão cruéis? Por que tornamos a vida tão cruel?Por que somos tão alheios ao sofrimento do outro, e por que encaramos o sofrimento pessoal como o único real e legítimo? Por que julgamos ter poder sobre os outros? Por que não temos poder sobre a nossa mente?

São muitos os por quês... E para tentar distraí-los um pouco, fui à locadora de filmes... Peguei ao todo sete filmes. Dois eu já havia assistido, e entre os inéditos me apaixonei pelo O tempo que resta.


Nada de novo no enredo: uma pessoa que descobre uma doença incurável, em fase terminal, e que tem pouco tempo de vida. Mas o roteiro e a fotografia são surpreendentes. E o filme é lindo, emocionante. Não digo que é triste, mas também não afirmo que não o é. Me pergunto justamente isto: é triste descobrir quando se vai/deve morrer? Que se vai morrer, todo mundo sabe.

Caio Fernando Abreu, quando descobriu que tinha Aids, disse que se sentia privilegiado por vivenciar a própria morte de forma lúcida. Mas aparenta muita tristeza ao narrar sua expectativa de morte. Ele tinha esperanças e expectativas de viver muito ainda. Romain, personagem do filme, descobre que tem um tumor maligno no cérebro, e que o câncer já estava espalhado por todo o seu corpo, em metástase. Expectativa de vida: três meses, no máximo um ano.

É triste, sem dúvida. Mas o filme é belíssimo. E Romain toma atitudes nada clichês. Comparando ele com a Ann, do filme Minha vida sem mim, acho ele muito mais real, não personagem de um filme. Me parece mais natural. O ator, Melvin Poupaud, dá um verdadeiro show, e a fotografia... Vale a pena conferir o filme, eu indico!

Obviamente pensei em coisas como o que eu faria se descobrisse que estou morrendo. etc. Nada de muito concreto me ocorreu, exceto a necessidade de ler aGrande Sertão Veredas, do Guimarães Rosa, antes que a "indesejada das gentes " chegue perto de mim. Em três tentativas frustradas, apesar de toda a ânsia, não consegui ler este livro. Tenho que ler aquela história, e espero não ter pressa para concluí-la!

Já que falei de literatura e cinema, só pra constar, revelo que a sessão nostalgia do momento é marcada por Chico Buarque de Hollanda, o Grande! Ouvindo muita música dele, o que tem ajudado a amainar a minha febre dostoiévskiniana.

Para parecer que isso aqui é um blog multimídia, vai um clipe do Chico aê, com música inspirada em obra de Guimarães Rosa.


7.4.09

Maturidade



"Só choro às vezes porque a vida me parece bela (O sol. As cores. As coisas.). Mas é de emoção, não de dor. Tá tudo certo."
Caio Fernando Abreu



Queria chorar mais. De emoção e de dor também. Aliviar mais, pois sinto dor, sim. Porque me sinto vazio muitas vezes. Mas tá tudo certo, sempre.

Duros os últimos acontecimentos. Morte, doença, dores, traumas, ilusões e desilusões e tanta coisa mais... tudo junto e embolado. Mas, me sinto maduro e, então, tá tudo certo.

Exatamente uma semana após o meu aniversário, sinto que o inferno astral passou. Se leve ou pesado, eu não sei. Mas terminei o "tal balanço" e vi que é tudo muito positivo. Até demais.

Entre perdas e ganhos, acertos e erros e etc, etc, vejo tudo positivamente. Nas mínimas coisas da minha vida ao longo destes 25 outonos, vejo o resultado bem Ying.

Outonos... curioso: sempre gostei tanto desta estação e somente no começo deste outono, o vigésimo quinto que vejo, me dei conta de que nasci no momento em que a natureza começa a se resguardar para, no inverno, se recolher e nutrir forças para, na primavera, desabrochar radiante e ganhar mais resistência para, no verão... Bonito o outono. Muito bonito!

Neste exato momento em que escrevo estes registros, gozo de uma serenidade de velho. Sim, porque acredito que na velhice rememoramos os fatos passados com a mesma calma de espírito que experimento agora. Tudo bem que o clima da Praça do Papa sempre me acalenta. Mas, estou lúcido e percebo que minha serenidade é endócrina, não exócrina.

Há tempos precisava tanto parar para respirar um pouco. Qual lugar eu poderia escolher para ficar a sós e tentar ouvir o meu silêncio senão a Praça do Papa? E faz uma noite tão linda. Há pouco ainda havia sol e a Serra está tão verde... Desejei tanto ter uma mão gigante para acariciá-la! Agora já está escuro e a Serra é apenas um imenso e lindo vulto negro. E a lua quase-cheia resplandece entre nuvens avermelhadas.

Tão linda a lua. Tão linda a Serra. Tão linda a cidade tão brilhante lá embaixo. Tão linda a vida! Tão linda a minha vida! Tão...

Há fatos tristes, muito tristes, em minha vida. E há erros absurdos que trouxeram perdas irreparáveis... E me pergunto agora, mais uma vez, porque não seguimos conselhos de mãe? Anteciparíamos tanto aprendizado sem dor...

Mas o ontem já morreu e eu estou vivo. E preciso sobreviver ao hoje. Afinal, o amanhã não existe para ninguém.

Me sinto maduro e forte de espírito. Tá tudo certo.

29.3.09

Positivo ou negativo?




É... meu inferno astral demorou a bater, mas bateu. E forte. Talvez porque o mês de março tenha sido marcado por grandes eventos – podendo eu gozar de uma euforia quase adolescente – e não deixei que as terríveis contradições psicológicas desta época me afetassem. Mas elas vieram. Numerosas.

Ainda há pouco choveu. Forte. Novamente a chuva me levando para outras águas do pensamento. Deve haver um significado para que a chuva esteja agindo tanto assim sobre mim desde que chegou, em setembro do ano passado... Vá saber...

Pois enquanto chovia eu me peguei em mais um “balanço”. E me ocorreu pensamentos do tipo “o que eu fui, o que eu sou, o que eu quero ser”, nada de novo. E pensei também na minha filha, como “quem eu quero que minha filha seja”, assim mesmo: démodé.

Pois, daí, lembrei de uma entrevista da Maria Rita falando das lembranças que tem da mãe, Elis Regina. Ela falou da gravação que tem de uma entrevista da mãe, filmada pouco depois que ela nasceu. O repórter pergunta a Elis o que ela quer que Maria Rita seja. Emocionada, Elis diz que quer apenas que a filha dela seja “leve”. Tão pesada a Elis...

Daí lembrei do livro “A Insustentável Leveza do Ser”, do Milan Kundera. Logo na introdução ele cita o questionamento de Parmênides (não sei quem é, mas o Wikipedia indica que ele era filósofo). Ao invés de descrever, vou transcrever:


(...) Então, o que escolher? O peso ou a leveza?

Foi a pergunta que Parmênides fez a si mesmo nó século VI

antes de Cristo. Segundo ele, o universo está dividido em duplas

de contrários: a luz e a obscuridade, o grosso e o fino, o quente e

o frio, o ser e o não-ser. Ele considerava que um dos pólos da

contradição é positivo (o claro, o quente, o fino, o ser), o outro,

negativo. Essa divisão em pólos positivo e negativo pode nos

parecer de uma facilidade pueril. Menos em um dos casos: o que

é positivo, o peso ou a leveza?

Parmênides respondia: o leve é positivo, o pesado negativo.

Teria ou não razão? Essa é a questão. Uma coisa é certa. A

contradição pesado-leve é a mais misteriosa e a mais ambígua

de todas as contradições. (...)


E então: Parmênides estava certo ou não? Entre o leve e o pesado, qual é o Ying (positivo), e qual é o Yang (negativo)?

Entre a luz e a obscuridade, o próprio símbolo denota que o Ying é o claro e o Yang o escuro. Entre o quente e o frio, a gente pensa logo em céu e inferno e também parece óbvio que o quente seja o negativo. Mas e entre o fino e o grosso? Bizarro pensar isso! E entre o ser e o não-ser? Puts...

A lista de contradições é, sem dúvida, enorme. E concordo que a referente ao peso e a leveza seja a mais misteriosa de todas.

Mesmo sem saber qual é o positivo e qual o negativo, me questiono se sou leve, ou se sou pesado. Metade-metade, como no símbolo, há o equilíbrio e as forças se anulam. Para um ser humano, não vejo possibilidade deste equilíbrio. Ainda mais para mim, tão extremista.

E então: sou leve, ou sou pesado?

Ainda bem que o inferno astral já vai passar. Tomara!

25.3.09

Grave

Só então ele se deu conta da gravidade dos fatos. Será mesmo? De certo a complexidade do contexto em que se encontrava ainda não estava bem dimensionada. Mas era grave seu espírito, e ele sabia disso.

Sete meses, ele contara nos dedos em ordem crescente. Tempo em que foi recuando a cada hora arrastada por seus fatídicos minutos desprovidos de altivez. Sim, porque não havia nada de nobre em tanta renúncia.

Abrupto e aflito, ele deixou de lado todo o lirismo. Despercebido, desencontrou-se aos poucos do lúdico. Involuntário, passou a olhar os fatos de sua vida através de um prisma composto de ignorância e descrença.

Naquela noite desaguou forte chuva. Ela, sim, altiva. E grave, assim como ele que, só então, se deu conta da gravidade de seu espírito e da complexidade da situação em que se encontrava: ele não sabia onde, nem como, se encontrava.

27.1.09

Ausência

Is There Anybody Out There ?
Pink Floyd

Is there anybody out there?
Is there anybody out there?
Is there anybody out there?
Is there anybody out there?


Quando entrei naquele elevador, um ano e dois meses depois que você se foi (o período não é exatamente este, e a exatidão pouco importa neste caso, já que foi tempo de ausência), senti que teu cheiro ainda estava presente naquela caixa branca de luz amarelo-hepática, tão nauseante. O cheiro não era exatamente o teu, mas havia resto dele lá. Daquele cheiro forte – um pouco ácido, por conta de tua natureza selvagem; um pouco amadeirado, por conta de tua origem da terra; um pouco doce, reflexo de tua alma leve, branda.

Não sei definir exatamente o cheiro que tem teu corpo. Sei que é forte, e que quando entrei naquele nauseante elevador, tanto depois que você foi embora, eu senti o resto dele que ficou grudado naquela caixa branca de luz tão hepática. Antes de apertar o botão que me levaria até o quarto andar (que não é exatamente o quarto, mas o terceiro, talvez até mesmo o segundo, mas pouco importa já que nunca entendi bem a lógica daquele edifício, e de nenhum outro também) eu senti o resto do teu cheiro forte e fechei os olhos, e aspirei com delicadeza o ar para que pudesse destilá-lo bem em minhas narinas e, assim, encontrar com mais precisão o aroma que me faria ter a certeza de que era um rastro teu naquela nauseante caixa branca e hepática que há tanto tempo, assim como você, eu não entrava.

Quando confirmei que realmente pudesse ser aquele cheiro um resto de tua lembrança naquele velho edifício, eu senti meu corpo ser tomado pela tua presença. Com os dedos estendidos e as palmas das mãos abertas, nuas e trôpegas, tateei as paredes brancas em busca de algum outro rastro teu. Um resto teu. De repente, comecei a sentir-me levitando, e me dei conta de que havia apertado o botão – o mesmo que tantas vezes acionei para ir ao teu encontro.

A viagem entre o hall de entrada e o andar de número quatro durou trinta segundos, ou vinte, ou mesmo pouco mais dez – milionésimos de segundos que precisariam ser multiplicados sei lá quantas vezes para equivaler ao tempo de tua ausência ali, naquele elevador nauseante. Senti aquele solavanco leve e acordei do transe no qual ainda não havia mergulhado por completo. Sim, ainda. Porque bastou abrir a fria porta metálica daquela caixa branca para que a luz hepática fizesse reluzir logo na minha frente, ali, bem na altura de meus olhos, o 401. Não tremi nem senti pêlos arrepiando, mas algo tomou conta do meu corpo. Talvez fosse mais restos de tua lembrança ali.

O corredor estava todo escuro, e por segundos hesitei em sair daquela nauseante caixa. Soltei a gélida porta de metal, lentamente, e atrevi um passo tímido em direção à porta de madeira seca que tantas vezes vi você abrir sorrindo. A luz acendeu porque o sensor ainda consegue captar o pouco calor que me resta. Caminhei lento, denso, trôpego. Estendi os dedos, e cortando o ar, como que usasse uma lança, estiquei o braço em direção à porta. Mas, antes que pudesse tocá-la, girei o corpo e toquei a campainha ao lado, a do 402, onde sei que tantas vezes também esteve.

A porta me foi aberta. Entrei. Cumprimentei. Observei atento em volta e notei algo diferente. Faltavam restos de você ali. Rastros que já não mereciam mais estar ali, por isso foram tirados. Naquele momento percebi que estava realmente entorpecido pelo resto do teu cheiro que aspirei com delicadeza enquanto levitava na caixa nauseante que me levou até ali, o andar de número quatro, onde tantas vezes fui ao teu encontro. Disse qualquer trivialidade que me impedisse de pronunciar teu nome, agradeci o remédio que fora buscar, e despedi-me.

Caminhei lento e ainda mais trôpego até a porta gelada de metal que guarda a caixa branca de luz amarelo-hepática. Hesitei entrar. Poderia descer brusco demais, então preferi a escada. Desci lento, denso, tenso. Sem surpresa, já que no fundo sabia que tua lembrança me levaria até ali, adentrei no salão vazio, ausente de nós dois.

Caminhei ainda mais tenso, mais denso, lento. Encostei meu nariz no vidro úmido da janela que dá pra rua – tão densa, tão tensa. E aspirando lento o denso ar, pressenti mais restos do teu cheiro ali, vagando vagabundo à espreita de minha chegada.

Um som estranhamente conhecido rompeu o silêncio do salão vazio, ausente do teu respirar. Procurei no escuro e vi num canto a velha geladeira de porta vermelho-metálica, tão viva, que você abandonou ali fazia tanto tempo. Dei dois passos em direção a ela. Parei. Olhei em volta. Mais um passo. Parei. Olhei para a esquerda, e vi no canto, entre as duas janelas, como que num flashback daqueles que a TV tanto gosta de usar, nós dois, deitados. Tuas pernas cruzadas, balançando. As minhas estáticas, esticadas. Admirei teu sorriso, e lamentei o meu olhar triste de menino assustado.

Desfiz da mente o flashback mal feito e dei mais dois passos em direção à viva geladeira vermelha e velha. Parei novamente, perdido no labirinto imaginário que criei, e ouvi você dedilhar aquela canção do Pink Floyd, que tão lindamente sussurrava os poucos versos (e na minha fantasia ouvia meu nome ser pronunciado entre os curtos versos). Hesitei e não olhei para o lado, onde, temia, veria tua imagem com violão à tira colo sorrindo doce enquanto dedilhava as cordas.

De onde estava, bastava que esticasse um pouco o braço para abrir a velha e vermelha porta daquela geladeira que me parecia tão mais viva naquele salão repleto de tua ausência. Hesitei. Temi abri-la e encontrar entre as prateleiras frias mais restos teus. Temi encontrar ali, dentro daquela geladeira, mais vermelha e viva que eu, rastros teus que me fizessem trancar-me ali, para que nunca mais eu me perdesse dos teus rastros, dos teus restos.

Caminhei rápido. Sem olhar para trás, para a janela, para o chão, para a geladeira viva, e saí agudo do salão imensamente vazio de nós dois. Desci sôfrego os poucos degraus até o hall de entrada. Saí severo daquele prédio. Acendi um cigarro ao ganhar a rua, e sem voltar os olhos para teus rastros, caminhei brusco sem teus restos. Sem teu cheiro. Sem você.

21.12.08

Sobre o amor e outros crimes



Não há alegria que me basta
Enquanto julgo ser mera farsa
Tudo aquilo que resvala
Nesta minha alma opaca*
D.Silveira
(* da série Versos Bêbados em Guardanapos Sujos)


"Por que você a atacou?”, perguntou friamente o repórter. Com os braços pra trás e as mãos algemadas, o homem permaneceu imóvel, de cabeça baixa, e nada respondeu. “Por que você atacou a sua mulher, homem?”, insistiu ainda mais secamente o repórter. O silêncio daquele homem, aos olhos do jovem repórter, traduzia a frieza de um monstro perverso, capaz de golpear uma dama por puro capricho da macheza. “Por que...”, e antes mesmo do inexperiente repórter completar a insistente pergunta, já de forma acusadora, o homem levantou vagarosamente a cabeça e, em seguida, dirigiu o olhar trêmulo e perdido ao olhar acusador, embora temeroso, do jornalista, e perguntou: “É crime amar demais, moço?”. Nosso jovem e inexperiente representante da imprensa sentiu todo o corpo estremecer e um nó abruptamente migrou-lhe da boca do estômago para a glote, e seu olhar subitamente ganhou um ar mais perdido que de seu interlocutor. Manteve-se um silêncio curto, daqueles que parecem durar invernos, até que foi quebrado pela insistência do suspeito que, novamente, perguntou ao jovem “Por acaso, moço, é crime amar demais?”. O repórter se sentiu zonzo. Sua pele tomou um tom branco-amarelado como que sua bílis tivesse sido rompida e o azedume da hipocrisia lhe contaminasse as vísceras, fazendo-lhe regurgitar as mágoas de um amor antigo e mal correspondido. “Me responda, moço, é crime amar demais?”, insistiu, mais uma vez, o suspeito. Atônito o jovem repórter balbuciou algumas gagueiras até que conseguiu dizer, quase soletrando, “Ta-tal-vez-se-seja-pe-pecado”. E contou-lhe o suspeito que ainda menino viu a mãe deitar-se com o tio, aproveitando-se da ausência do pai que tanto duro dava capinando terra alheia para garantir em casa pão, farinha, fubá e, vez-em-quando, algumas rendas para o agrado da vaidosa esposa, e que naquela tarde o zeloso pai retornara mais cedo da labuta vindo a dar-se de frente com tamanha safadeza feita diante dos filhos ainda catarrentos. O pai não teria tido forças para gritar, nem maldizer baixinho tamanha heresia, mas a dor certamente lhe ceifava o peito de tal modo que para sanar a dor o grandioso pai, ainda com a foice em punho, rasgou o próprio ventre caindo ao chão de joelhos com sangue e tripa escorrendo-lhe pelas pernas. A mãe, desnorteada, pôs-se nua defronte o pai a blasfemar a má sorte de ter casado com homem tão frouxo. O tio, desesperado, gritou “Vão bora daqui mulher antes que os diabos venham” e, não sendo seguido, fugiu para longe daquelas terras e nunca mais se teve notícia de seu mau destino. As blasfêmias da mãe se transformaram num pranto convulso, e o suspeito, com seus parcos sete anos, tomou a irmã caçula, de quase dois anos, nos braços, e esperou até que os urros da mãe trouxessem à casa a vizinhança curiosa que cuidou de chamar a polícia e se encarregou de encomendar a alma do pobre pai a Deus, e da devassa mãe ao demo. Dias seguidos foram ele e a irmã morar com os avós em terra distante e ainda mais pobre, onde a caçula morreu em poucos meses por desnutrição e, coisa de sete anos ou menos depois, morreram os avós vítimas da mesma fome. Crescido e só no mundo, o suspeito foi tentar a sorte na cidade grande onde, com a graça de Deus, arrumou trabalho de servente e, com muito suor, conseguiu bater sua própria lajem sobre dois comodozinhos onde recolhia sua amargura e solidão. Até o dia em que, descansando em frente à obra em que trabalhava, viu passar uma linda flor graciosa e deslumbrante que, pela primeira vez em sua vida de homem, despertou-lhe o furor da carne. Veio ele a descobrir que o jardim onde vivia aquela flor era próximo de seu barraco, e ele não entendia como ainda não a havia notado. E disse o suspeito ao jovem repórter que ambos se notaram desde aquele dia, e que em pouco tempo teria ele caprichado um pouco mais o humilde barraco onde levou a flor para dar mais cor e cheiro ao ambiente. Mas a vida prega peças, dizia ele, e no dia em que ele comprara para a linda flor um belo par de brincos para lhe enfeitar, chegou mais cedo do trabalho e viu sair da casa um homem descamisado que partiu ligeiro beco acima. Ao entrar no primeiro dos dois cômodos viu a flor descomposta e transparecendo nos olhos a perversão das putas e o sangue lhe subiu à cabeça e sem pensar em nada e sem medir consequências tomou à mão o machado que estava próximo e, então, só se lembrava da hora em que o tacaram feio um cachorro no camburão e o levaram para aquele lugar onde nunca tinha estado e onde um moço ainda sem aprendizagem da vida lhe perguntava o por quê de algo que ele sequer teve tempo de entender. “E eu te pergunto, moço, é crime amar demais?”, perguntou mais uma vez. “É... talvez seja”, respondeu entre os dentes o repórter. O jovem e inexperiente jornalista deixou a delegacia com o bloco de anotações quase em branco, tendo escrito apenas o que lhe foi possível transcrever do Boletim de Ocorrência antes de lhe colocarem de frente ao suspeito. Ele entrou no carro de reportagem com o olhar ainda mais perdido, sentindo ter sido tomado por um vazio terrível. De volta à redação, sob a cobrança do grosseiro chefe, ele pediu ao apurador que checasse o possível óbito da mulher. Estranhamente desejou que ela tivesse morrido, mas como ela ainda estava cá no mundo dos vivos, informou antes das transcrições policiais o estado grave de saúde em que ela se encontrava, ocupando-se apenas em noticiar o crime, já que sobre amor ele não consegue mais falar.

18.12.08

FORMADO!

Foi algo assim: "Aos dezesseis dias do mês de dezembro de 2008, nas dependências do Centro Universitário Newton Paiva, às 19 horas, foi defendida pelo aluno Daniel Augusto Silveira a monografia intitulada "VELÓRIO À MODA MÍDIA: o homicídio enquanto notícia", de sua autoria, avaliada em caráter de regime formal, tendo recebido pela banca examinadora a nota de 40 pontos..."

Impossível lembrar o texto exato da Ata da Banca Examinadora... Puts! Não imaginava que a tensão fosse tanta na hora de defender a tese... Tinha no máximo 30 minutos para minha apresentação. Gaguejei horrores, me perdi várias vezes durante a explanação, e ainda extrapolei o tempo máximo. Na sequência, vieram as considerações e perguntas da banca. Tive muita segurança e jogo de cintura ao responder às complexas perguntas das duas avaliadoras. Meu trabalho não sofreu duras críticas, mas foram apontados pontos relevantes a serem melhor trabalhados. Difícil mesmo foi esconder meu peito estufando com tantos elogios rendidos ao meu trabalho e à minha trajetória acadêmica.

Devo dizer que não vou deixar a modéstia me furtar a oportunidade de me convencer que eu sou bom realmente em algo! Os 40 pontos da banca, somado aos 10 do orientador, acrescidos dos outros 50 pontos avaliados ao longo do desenvolvimento da pesquisa, correspondem à pontuação máxima da monografia, o que caracteriza a minha dissertação como a melhor!

Satisfeito e orgulhoso demais ao ver reconhecido o esforço que foi para mim a elaboração desta monografia.

Agora, enfim, FORMADO! Jornalista com MUITO orgulho. Foram quatro anos árduos, que valeram muito a pena!

E seja o que Deus quiser daqui pra frente!

P.S.: Por falar em "seja o que Deus quiser", confesso que gosto de consultar, vezenquando, algum tipo de oráculo, como a previsão do horóscopo, por exemplo, mesmo não acreditando muito nessas coisas. Mas só que tem coisas que encaixam tão certinho né? Através do blog da Cella Sing cheguei à Catarina, que é um realejo on-line. A consulta foi feita hoje, e fiquei impressionado com o "encaixe" da mensagem dela no contexto que vivo, pois reflete minhas atuais expectativas (profissionais e financeiras); meus receios, grilos ou seja lá o que for com as minhas amizades; além de uma certa aflição com o tal do "envelhecer". Fiquei de cara com a Catarina! Hehehe

"Dentro de pouco tempo terás uma grande mudança na tua vida, e será pelo teu próprio mérito. Poderás adquirir muitos bens com a nova fortuna, mas tudo com o trabalho. O teu talento te fará conseguir tudo que desejas. Terás obstáculos, mas poderás vence-los. Tenhas cuidado com uma pessoa na qual confias, ela pode não ser tão tua amiga quanto pensas. Criaste muitos inimigos por teres facilidade em expor tua maneira de pensar, que pode por vezes ser não muito convencional. Mas tens também amigos verdadeiros, amigos que te trarão largos benefícios, enquanto teus inimigos nenhum mal te poderão fazer. Dentro em breve uma pessoa há de mostrar muita amizade. Terás enfim uma velhice sem enfermidade. Terás sorte com o número ****." (obviamente eu suprimi os números... vai que alguém os use antes de mim né?! rssss!)

14.12.08

Estranheza


Versos Bêbados


Quisera eu ter o dom
De ser como Dom Quixote
Que não tinha nenhum dom
Senão o de ser Dom Quixote
D. Silveira



Estranho, muito estranho... O quê? Tudo! Ultimamente tudo anda muito estranho. Talvez seja por causa do final de curso... talvez seja porque, recentemente, Júpiter e Saturno tenham entrado em conjunção com a lua... talvez seja, como sempre, reflexos da lua minguante (mais agudos desta vez)... talvez tudo, talvez nada... ou talvez seja influência da Legião Urbana mesmo. Tanto tempo sem ouvir Legião, daí começa a bater “o mundo anda tão complicado”; "nestes dias tão estranho fica a poeira se escondendo pelos cantos”; “cadê os seus planos, cadê as meninas”; “quem é o inimigo? quem é você?”; e por aí vai...

Por falar em ir, finalmente 2008 se vai! Que ano difícil ­– além de muito estranho, claro! Coisas maravilhosas me aconteceram. Mas, em compensação...

Acho que eu nunca precisei tanto da companhia das pessoas, principalmente de agosto (o mês do desgosto?) para cá. E, certamente, por causa desta carência vieram tantas frustrações e decepções. Eu espero muito das pessoas, e isso é um grande erro. Pois, assim, por causa de simples coisas acabo me machucando bastante...

Estou longe de ser um exemplo de pessoa... mas sempre espero que as pessoas ajam comigo da forma como eu ajo (ou pelo menos me esforço) com elas.

A humanidade me pesa demais por conta do egoísmo que é inerente a ela. Obviamente, me incluo neste contexto, mas... Pro inferno a hipocrisia e demagogia dos outros. Todo mundo quer é se dar bem, mesmo que seja necessário passar por cima dos outros, dos sentimentos dos outros. E depois de ter atropelado, vêm com discursinho político de “não era minha intenção”; “mas eu gosto tanto de você”; “mas eu realmente me preocupo com você”; “eu faço tanta questão de você”; “você entendeu mal”... vá pra PUTA QUE O PARIU!

Tudo bem que eu estou muito ácido nos últimos dias... Também, cada uma que me aconteceu... Mas essa acidez vai secar. E eu vou parar de agir feito trouxa, sendo bonzinho demais aos outros. Afinal, uma coisa é ser bom, outra é ser bonzinho.

4.11.08

Sobre ficar sob a chuva

vírgula e novamente a chuva e a partir dela o desejo de metamorfosear-me liquefeito em palavras puras de sentimento bruto para na enxurrada espalhar meu sangue e contaminar o solo com a acidez que minhas células destilam sei lá qual veneno que me entorpece e me tonteia mais que qualquer barbitúrico ou erva-daninha que danificam-me o corpo mas que preservam-me incólume o espírito já desafeto pelas inverdades ditadas por aqueles que se julgam superiores já que não percebem a inferioridade que lhes confere a incapacidade de perceber o que significa metafísica e ponto

20.10.08

Enquanto chove

Deixo tudo assim.
Não me importo em ver a idade em mim,
Ouço o que convém.
Eu gosto é do gasto.

Sei do incômodo e ela tem razão quando vem dizer que eu preciso sim
De todo o cuidado.

E se eu fosse o primeiro a voltar pra mudar o que eu fiz? Quem então agora eu seria?

Ahh tanto faz! E o que não foi não é, eu sei que ainda vou voltar... Mas, eu quem será?

Deixo tudo assim, não me acanho em vervaidade em mim. Eu digo o que condiz. Eu gosto é do estrago.

Sei do escândalo e eles têm razão. Quando vêm dizer que eu não sei medir nem tempo e nem medo.

E se eu for o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado?
Ahhh, ora, se não sou eu quem mais vai decidir o que é bom pra mim? Dispenso a previsão.
Ahhh, se o que eu sou é também o que eu escolhi ser aceito a condição.

Vou levando assim. Que o acaso é amigo do meu coração.

Quando falo comigo, quando eu sei ouvir...

Letra de "O Velho e o Moço", dos Los Hermanos, que ao ler senti como se eu mesmo a tivesse escrita ainda agora, de madrugada, enquanto chove.

Enquanto...

15.9.08

Metafísica

A chuva tardou, mas chegou. Anunciada pelo cheiro único, caiu para deixar o solo úmido. O céu fez coro, e sem se fazer rogado, manteve-se alvo e claro. E no branco daquele céu chuvoso visualizei formas multicoloridas advindas do pensamento dos homens que também possuem múltiplas cores. E embalado pelo assobio do vento e pelo tilintar das gotas no chão, entreguei-me de braços abertos, peito nu e pés descalços àquele complexo líquido de força e mistério (de onde vêm estas águas?). De olhos fechados, senti próximo o calor de um corpo que, sabia, estaria em outro espaço (estaria sua alma próxima?). Permiti que chegasse mais perto e sussurrasse em meu ouvido qualquer verso. Reticente, não falou. Mas soprou-me o encanto da poesia metafísica (come chocolates, pois nada possui mais metafísica que chocolates – já bem disse Pessoa). Cantarolando qualquer dó-ré-mi, roguei aos céus por ti. Também não compreendi. Não sei de onde vieste, mas muito me interessa saber para onde segues (sabe quando o tom da pele te apetece?). Peço que releve a falta de métrica. A rima, sei que te implica. Mas por favor, peço não me a cobre em tréplica. Toda esta minha prosopopéia é apenas para dizer que enquanto chovia eu dançava e cantava e desejava junto a ti escrever uma história épica.

7.9.08

Tempo



Uma década. Dez anos. Dependendo da perspectiva , não é muita coisa não: são só 3.652 dias(contei com dois anos bissextos!) – é pouco. Mas os números podem ser bem maiores. Depende do valor que se dá ao tempo, que você dá ao seu tempo.

1 década – 10 anos – 120 meses – 3.652 dias – 87.648 horas – 5.258.880 minutos – 315.532.800 segundos ...

Se você tivesse que pagar, em dinheiro, uma diária para a vida, quanto você acharia justo pagar pelo seu dia? E se para ficar com a pessoa que você ama lhe fosse cobrado adicional por minuto, quanto valeria para você e quanto você pagaria a mais? Um segundo é um intervalo de tempo muito pequeno, não é? Mas, imagine quanto Richard Tompson, se lhe fosse possível, pagaria pelos 20 centésimos de segundo que o deixou atrás do ouro nos 100m das Olimpíadas de Pequim?

Terça-feira completam-se dez anos de um dos maiores marcos da minha vida. Não vou entrar em detalhes aqui, porque não carece. Mas no dia 9 de setembro de 1998, por volta das cinco horas da tarde, eu tomei uma decisão que mudou completamente o rumo da minha vida. Eu não tinha noção exata disso, mas a minha atitude naquele dia seria o meu grande divisor de águas.

Eu tinha quatorze anos. Era muito medroso, muito inseguro. E para vencer o medo, eu passei a assumir todos os riscos; a enfrentar meus demônios sem terço ou água-benta nas mãos; a encarar bandido sem colete nem arma; a me aventurar no escuro sem sequer uma faísca de luz...

Machuquei-me bastante neste percurso. Em alguns momentos, minha braveza não foi tão grande, e o medo cedeu lugar ao pânico. Estive tantas vezes cara-a-cara com a morte, como no dia em que fiquei preso por duas nas pedras da cachoeira, sozinho, há 30 metros do chão, sem nenhum apoio ou corda... ou como no dia do assalto, amarrado em um lote vago com um cara louco apontando revólver para mim...

Dez anos se passaram desde a tarde daquela quarta-feira... quanta coisa me aconteceu! E percebo que eu cresci, amadureci, e em certos quesitos até calejei-me. Mas certas coisas não mudaram tanto... E me lembro agora que à época eu era fã da Legião Urbana e que uma das minhas músicas preferidas era Teatro dos Vampiros, cujo verso Eu, homem feito, tive medo e não consegui dormir, faz muito mais sentido para mim hoje. Na verdade, a letra inteira, cada verso, cada termo, daquela música faz muito mais sentido para mim hoje.

Passei a madrugada de hoje sentado na praça da Liberdade, sozinho, e pensei tanto nos meus últimos dez anos. (todos sabem que eu sou nostálgico, e eu já me cansei de tentar lutar contra essa nostalgia toda...)




Quantas madrugas eu já virei naquele lugar desde os meus quatorze anos. Quantos porres, quantas turmas, quantos romances, quantos beijos. Aquela praça tem um significado muito forte para mim: LI-BER-DA-DE. Tão abstrato este conceito – já reclamei isso antes.
Ainda aos quatorze anos, me senti livre lá quando tomei uma garrafa de balalaika, sem passar mal. Aos quinze, gozei da minha liberdade lá ao ir sozinho, às sextas-feiras, sempre com violão à tira-colo, e voltar para casa a pé, sozinho e bêbado e corajoso e seguro e homem e protegido e livre... Aos dezesseis julguei-me ser o “homem” mais livre do mundo ao esticar uma canga no gramado, desrespeitando a plaquinha de “Não Pise Na Grama”, às três da manhã, acender incensos, liguar um walkman com som estereo e acender um baseado enorme – como se houvesse algo de esplêndido naquilo... aff... Agora com vinte e quatro me senti extremamente livre, há cerca de duas ou três semanas, quando passei pela praça à tarde, correndo, super apressado cheio de compromissos a cumprir, mas decidi-me sentar no banco e admirar os jardins e contemplar a beleza da vida, como se o mundo tivesse parado durante meia hora.

Como dez anos transformam a gente... felizmente! Acho que hoje há pouco daquele adolescente rebelde-sem-causa em mim. Continuo me achando livre para o que der e vier, mas a diferença é que hoje eu sei que se paga pela liberdade e que o preço às vezes é muito alto. Hoje eu sei o que é a aplicabilidade da lei de causa-e-efeito, ação e reação.

Hoje eu dou muito mais valor à minha vida. Se naquela época eu não tinha causa, hoje tenho razões – inúmeras delas. O que move o homem é a falta e, já disse, falta tanta coisa... Os próximos dez anos (se houver este tempo, quem pode prever) são um mistério que eu quero e ei de desvendar!

Ouvindo:
Teatro dos Vampiros – Legião Urbana

Sempre precisei
De um pouco de atenção
Acho que não sei quem sou
Só sei do que não gosto...

E nesses dias tão estranhos
Fica a poeira se escondendo pelos cantos

Esse é o nosso mundo
O que é demais
Nunca é o bastante
E a primeira vez
É sempre a última chance
Ninguém vê onde chegamos
Os assassinos estão livres
Nós não estamos...

Vamos sair!
Mas não temos mais dinheiro
Os meus amigos todos
Estão procurando emprego...

Voltamos a viver
Como há dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...

Vamos lá, tudo bem!
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E esperamos que um dia
Nossas vidas
Possam se encontrar...

Quando me vi
Tendo de viver
Comigo apenas
E com o mundo
Você me veio
Como um sonho bom
E me assustei
Não sou perfeito...

Eu não esqueço
A riqueza que nós temos
Ninguém consegue perceber

E de pensar nisso tudo
Eu, homem feito
Tive medo e não consegui dormir...

Vamos sair!
Mas estamos sem dinheiro
Os meus amigos todos
Estão, procurando emprego...

Voltamos a viver
Como a dez anos atrás
E a cada hora que passa
Envelhecemos dez semanas...

Vamos lá, tudo bem
Eu só quero me divertir
Esquecer dessa noite
Ter um lugar legal prá ir...

Já entregamos o alvo
E a artilharia
Comparamos nossas vidas
E mesmo assim
Não tenho pena de ninguém...

14.8.08

No Banheiro


Na semana passada tive o privilégio de conferir a pré-estréia do primeiro filme de uma amiga queridíssima! Ela, que é um poema em prosa em verso personificado, me orgulha por demais – agora que é cineasta então!!! Acompanho já há algum tempo o desejo dela de estudar cinema, objetivo este que ela vem concretizando na Escola Livre de Cinema.

Ao final da exibição do filme, ela foi logo cobrar dos amigos as críticas... Estava ansiosíssima, coitada! Disse a ela que só me pronunciaria, por e-mail, no dia seguinte. Cheguei a pedir que me enviasse o cartaz para que eu pudesse publicar uma resenha crítica AQUI. E não é que ela mandou, cedinho, o cartaz?! Porém, a correria da última semana foi tanta, que eu desisti de redigir a resenha crítica, pois precisaria ser mais criterioso na redação. Assim, enviei a crítica por e-mail mesmo, em tom bem informal. E ela não me deu retorno algum... Ah! Fiquei tão chateado com ela... Até que, ontem, descubro que quem ficou chateada nessa história foi ela, que NÃO RECEBEU o e-mail. Garanti reenviá-lo hoje, pois utilizei o e-mail do trabalho para enviá-lo. MAS, na correria da manhã, acabei esquecendo de reenviá-lo... ai que vergonha.

Para não protelar mais minhas considerações sobre o NO BANHEIRO, vamos lá! ANTES, devo ressaltar que me é bastante complicado ficar isento ao redigir uma crítica sobre o filme. Primeiro, porque eu AMO a diretora! Segundo, porque eu AMO banheiro!

De acordo com a sinopse, NO BANHEIRO é um “Drama bem-humorado que apresenta a relação peculiar de um homem comum com seu banheiro.”. Quanto a ser bem-humorado, ratifico de imediato a informação! DIVERTIDÍSSIMO!!!! Já em relação ao homem comum... bem, tenho certeza que a maioria das pessoas que conferirem o curta, dirão que o cara é louco! Particularmente, acho ele mais do que comum MESMO. Temos preconceitos mesquinhos em relação ao comportamento e manias do outro... isso porque somos, muitas vezes, incapazes de nos observar.

Protagonizando a trama, um cara que gosta de futebol, que trabalha, que gosta de mulher (isso não é mais tão comum hoje em dia (rss!) e que tem uma relação peculiar com o seu banheiro. Peculiar porque ele GOSTA do banheiro dele. É onde ele se sente mais ele, mais próximo de si mesmo. Sua saga é comprar uma nova privada. Nessa busca, ele acaba se apaixonando por uma mulher que também tem uma relação peculiar com banheiros.

Nada melhor que a sua cara-metade ter os mesmos gostos que você, não é? QUE NADA... dependendo, esse gosto pode gerar uma relação de disputa... e é o que acontece com o casal que se ama NO BANHEIRO! E a relação dos dois quase acaba quando ela resolve construir a própria “casinha” (quem me conhece sabe que eu chamo banheiro de casinha!).

Achei que foi uma sacada incrível a construção do roteiro. Escolherem um “detalhe” (o banheiro) para narrar a relação de um jovem com ele mesmo e com uma segunda pessoa. Poderia ser qualquer outro objeto, ou local. Mas o banheiro remete à idéia da INTIMIDADE, algo tão pouco respeitado e valorizado nos dias de hoje.

Tenho que me conter um pouco aqui... rsss... Também tenho uma relação muito peculiar com banheiros, e acabei me identificando bastante com o protagonista. Assim, corro o risco de revelar neste espaço virtual detalhes da minha intimidade que só são reveladas lá NO BANHEIRO!

Achei de muito bom gosto o curta! O humor é leve e natural. As locações foram bem escolhidas. O elenco é ótimo, a trilha sonora pertinente (tem curtas cuja trilha sonora parece ter sido incluída “só pra constar”. A fotografia é PERFEITA – e não estou puxando o saco não! Conseguiram ângulos perfeitos em várias cenas, como em uma na qual a câmera é colocada dentro da privada, além de outra que flagra o momento exato do corte na pele do cara ao se barbear.

Minha querida diretora, antes da exibição, fez questão de ressaltar que o filme foi terminado às pressas para a exibição e que havia cenas que foram incluídas somente para “tapar buracos”. DUVIDO! Não senti falta de NADA. Tudo estava muito bem amarrado, do início ao fim dos créditos. O único ponto fraco foi a qualidade do áudio – única observação que fiz a ela no dia.

Para não dizerem que sou muito piegas falando apenas bem do filme, teve algo que achei PÉSSIMO. Mas que não é “defeito” de NO BANHEIRO, mas sim da maioria dos filmes (curtas ou longas) produzidos hoje. Assim, não é exatamente uma crítica ao NO BANHEIRO, mas um desabafo em relação à sétima arte contemporânea. Há um close GIGANTE da fachada da loja que patrocina o filme. Isso me brocha TANTO. MAS, fazer o quê. É o preço que se tem que pagar, para reduzir um pouco o gasto com outras tantas coisas (mais caras) que se precisa pagar para produzir um filme.

Enfim, NO BANHEIRO é FANTÁSTICO. Com uma sensibilidade incrível consegue levar à tela detalhes do cotidiano humano que se são sufocados pela correria e estresse do dia-a-dia. Toda equipe está de PARABÉNS pela produção. E tenho a considerar ainda que, se esse foi o primeiro, mal posso esperar pela próxima produção de minha queridíssima cineasta REBECA DE PAULA!

P.S.: Ainda vou redigir uma resenha decente para que seja publicada no blog do NO BANHEIRO!

6.8.08

O Homem Sensual

"Satanas sum et nihil humani
a me alienum puto"*

Há pouco tempo, publiquei um texto em que comentava o exemplo do “Homem Bom”, descrito por Dostoiévski no livro Os Irmãos Karamazovi. Como disse, este foi o romance que mais me inquietou. Exatas 747 páginas que foram lidas, compulsivamente, em apenas cinco dias. Chegava ao cúmulo de dormir lendo o livro, sonhar com a continuidade do capítulo onde parei a leitura, e acordar com ele já em mãos. E devo dizer que não foi uma leitura superficial. O li com um bloquinho de post-it ao lado, fazia pequenas anotações referentes a trechos que me despertavam maior interesse, e afixava na margem da respectiva página.

Dostoiévski faz um retrato muito cru do comportamento humano neste livro. Cada personagem é descrito, no aspecto psicológico, minuciosamente. E eu fazia associações entre os personagens e as pessoas que conheço. Obviamente, me identificava bastante com vários deles também.

Como já registrei no post sobre “O Homem Bom”, o filósofo deixa claro que o comportamento humano se finda no egoísmo. Mas esse egoísmo se manifesta de formas diferentes em cada ser humano. Naquele texto, falei de Aliócha, que é o diminutivo de Alieksiéi Fiódorovich, caçula entre os Karamazovi. Hoje, vou falar do irmão do meio: Ivã Fiódorovich Karamazov. (apenas a título de curiosidade, no russo se acrescenta a letra “i” em alguns plurais)

Sem dúvida, Ivã é “o mais sensual entre os Karamazovi”, como afirmado pelo próprio autor. Mais até que o próprio pai, Fiódor Pávlovich Karamazov, que era um completo devasso, entregue a todo tipo de viciosidade e lascívia. Dostoiévski usa várias vezes o termo “sensual” ao se referir a Ivã e ao pai, mas não no sentido da sensualidade física. Até porque, pela descrição, Fiódor Pávlovich de bonito ele não tinha nada. Já Ivã parecia provocar certo furor nas mulheres. Porém, o “sensual” se refere, no contexto, ao caráter lascivo de ambos e à libertinagem a qual ambos se entregam (Ivã não era tão libertino, mas ainda assim era o mais sensual...)

Ivã era dotado de um ego imenso. Extremamente inteligente, era o mais culto entre os três irmãos. Sabia outros idiomas, fez curso superior, era autodidata e muito meticuloso... Sua condição o tornara num homem extremamente vaidoso, e se julgava superior a todos. Conhecimento é poder e ele sabia disso – e se aproveitava muito bem do poder que o conhecimento lhe conferia.

Por causa do ego gigante, não se dava muito bem com o pai. E a certa altura, traiu o velho tirano roubando-lhe uma boa parte da fortuna. Com medo de ser castigado, Ivã foge. Sabia os extremos da ira do pai, e jamais esperaria pela punição.

Nesse ponto chega uma das partes mais excitantes da trama! Para fugir do castigo, Ivã decide partir para Moscou. Porém, antes se refugia numa choupana. Lá, ele tem uma grande alucinação. Ele vê o demônio sentar-se na cama, e trava um longo diálogo com ele. Ivã, que era ateu, se vê desesperado. Ora! Para se crer no diabo, é necessário se crer em Deus – isso é uma condição sine qua non. Mas é aí que está o X da questão. O demônio era apenas uma imagem figurativa, já que a briga verbal era travada entre Ivã e sua própria consciência.

De certa forma, Ivã acreditava que era lícito o roubo ao pai, pois a fortuna do velho lhe seria de direito. Mas ele não conseguiu se manter ileso ao sentimento de culpa. Sua alucinação dura uma noite inteira, em meio a uma febre altíssima. E o diabo (sua consciência) continua lhe atormentando nos dias que se seguem. Ele acaba por ficar completamente louco.

Salvo engano, no livro Crime e Castigo (que AINDA não li), anterior ao Os Irmãos Karamazovi, Dostoiévski já faz menção a esse exemplo de Ivã: o pior castigo a um grande erro é sempre o que é imposto pela própria consciência.

* Em latin, no original: "Sou satanás e nada do que é humano reputo alheio a mim"

5.8.08

Marcas


Voltei ontem de uma viagem inesquecível. Levei uma mala pesada, repleta de ansiedade e expectativa. Trouxe de volta uma alma leve e feliz. Fui marcado por sentimentos nobres, que sempre almejei experimentar. Voltei com a certeza de que se é possível sim conhecer alguém que seja capaz de lhe completar de alguma forma.

Cicatriz

De volta ao mundo (sur)real, tive um dia tenso. Marcado por encontros e desencontros, permeados por longas conversas e insuportáveis silêncios. Nada pior que o sentimento de culpa, que deixa cicatriz difícil de desaparecer. A culpa culminou em uma angústia sufocante. Várias vezes, inclusive na manhã de hoje, tentei dizer FODA-SE, mas não consigo ignorar os meus sentimentos, menos ainda desconsiderar os de quem tanto quero bem. Espero aprender a lidar melhor com essas situações...

Autógrafo

A caminho do trabalho hoje, um pedreiro, bêbado, sentou-se ao meu lado no ônibus e logo veio puxando papo. Eu não estava muito disposto à prosa, mas meus pensamentos me consumiam tanto que resolvi dar atenção ao pobre coitado, para tentar me distrair um pouco. Ele reclamava as mãos calejadas após dezoito anos de trabalho pesado na construção civil. Disse-me sonhar que seus filhos tenham melhores oportunidades que ele, e que jamais trabalhem com o mesmo ofício. Nisso, toca meu celular. Era a âncora da emissora onde trabalho. A cumprimentei pelo nome (que é exótico e bem conhecido) e logo avisei ter acabado de ver um taxista sendo preso no centro, fato que deveria ser checado. Encerrada a ligação, o pedreiro, afoito, me pergunta quase aos gritos "Você é da imprensa? Caaara... Eu nunca conheci ninguém da imprensa". Tentei dizer a ele que ainda não sou formado, que sou apenas um aspira, mas o cara tava emocionadíssimo! Começou a falar ainda mais dos filhos, e que vai tentar fazer com que um deles seja jornalista. E começou a me encher de perguntas, inclusive em qual emissora eu trabalho... No final das contas, o cara me IMPLOROU um autógrafo. Eu dizia "meu amigo, eu não sou famoso, ninguém me conhece, meu nome é comum... Não faz sentido eu te dar autógrafo". Nisso meu interlocutor retruca. "Por favor... eu quero muito mostrar para meus filhos que conheci um jornalista. Escreve aí qualquer palavra de incentivo pra eles, por favor". Atendi ao pedido: "Para os filhos de José desejo que voem longe usando as asas da leitura. Daniel Silveira". Espero que, realmente, meu autógrafo (aHAUhaUhauAHuaHauhA) possa inspirar os pequenos a ter melhores perspectivas de vida!

21.7.08

O Homem Bom

"...Cordeiro de Deus,
Que tirai os pecados do mundo,
Tende piedade de nós..."




Estive mergulhado na sétima arte nos últimos dias. Tenho a sensação de que isso não me fez muito bem... Fui submetido a um processo catártico de forma muito intensa e complexa. Para quem não conhece o termo, tendo elucidá-lo de forma um pouco objetiva e superficial: Aristóteles, ao estudar a tragédia (entenda-se contemporaneamente como qualquer forma de expressão artística) definiu a catarse, ou a “purificação das paixões”, como o efeito provocado no público em contato com dramatização do sentimento humano. Freud, séculos à frente, também iria se apropriar do termo em sua teoria psicanalítica. Em outras palavras, a catarse funciona da seguinte forma (tomarei como exemplo o cinema): ao assistir um filme, o espectador inicialmente se identifica com determinada personagem, em seguida ele vivencia o mesmo sentimento da personagem, e depois ele julga a atitude daquele personagem, momento do qual ele “volta a si”, distanciado da trama. Aí, tem-se início um novo ciclo do processo catártico.

No “Tropa de Elite”, por exemplo, ao acompanhar o drama do Nascimento, quantas vezes o espectador se sente empático ao sofrimento dele, e quantas vezes ele repudia as atitudes do soldado? Os elos de identificação (e de julgamento) com a personagem são os sentimentos que partilhamos com ela. E o sentimento expresso através da arte é capaz de nos permitir “purificar” os nossos sentimentos. Muitas vezes, nos valemos da atitude de vingança tomada por uma personagem, por exemplo. Nos apropriamos daquele sentimento de vingança e torcemos para que a personagem a sacie. E nos sentimos ótimos quando ela consegue!!! “Panis et circenses”, já dizia um sábio Rei!

Dentre os filmes que me imergiram em profunda catarse, destaco Manderlay, do dinamarquês Lars Von Trier. É o segundo filme da trilogia referente ao Dogma 95, movimento proposto pelo diretor. De forma bem sucinta, o Dogma 95 é um movimento cinematográfico contemporâneo, proposto através de um manifesto assinado em 1995, que pretende o resgate da sétima arte tal como ela era concebida no seu início, e prevê regras rígidas na produção de um longa-metragem. Manderlay, e seu antecessor Dogville, não seguem à risca todos os dez postulados do manifesto, mas são impecáveis quanto à valorização da dramatização cênica e na riqueza do minimalismo.

Não gosto de comentar muito os filmes, pois acabo entregando o final da trama. E ambos os filmes do Lars Von Trier eu indico a qualquer pessoa. É necessário assistir primeiro Dogville, pois Manderlay é a continuação da saga de Grace (no primeiro quem a interpreta é a incontestável Nicole Kidman; já no segundo é Bryce Dallas Howard, que o faz bem, mas sem o mesmo charme da Nicole).

O que me interessa comentar é que Von Trier é FANTÁSTICO! Ele consegue transmitir de forma muito crua a essência do comportamento humano. A trilogia procura fazer um retrato da sociedade norte-americana. E o que ele consegue é traçar um perfil de toda a humanidade. Ainda não assisti ao útlimo da trilogia, Wasington (sem o “h” mesmo, lançado em 2007) e estou ansioso agora.

Não adianta. Somos muito mesquinhos e hipócritas ao julgarmos as atitudes alheias. Todos nós, sem exceção, somos dotados de amor, compaixão, ternura, carinho... Mas também de ira, raiva, vingança, ódio, preguiça, ganância... Relutamos muito em assumir que valemos tão pouco quanto aquele para quem apontamos o dedo, ousando qualquer tipo de julgamento. Mas dificilmente reconhecemos isso. Grace, personagem chave da trilogia, representa essa nossa condição de forma muito crua mesmo.

Por causa das reflexões pós Manderlay, lembrei-me muito de um dos romances que mais me inquietou: Os Irmãos Karamazovi, do Dostoiévski, devorado compulsivamente em apenas cinco dias. O filósofo retrata, assim como o cineasta dinamarquês, a essência do comportamento humano, mas usando como objeto de estudo a sociedade russa de meados do século XIX. Através de todos os personagens, que são meticulosamente detalhados por Dostoiévski, vê-se nitidamente o quanto a raça humana pode ser considerada a escória da criação divina. (Sim, eu realmente estou em um estado de ligeira (!) revolta.) Em suma, compreendo que a essência do homem se concretiza em um único sentimento: o egoísmo.

No romance de Dostoiévski, ele aponta Aliekisiei Fiódorovich, o caçula Aliócha da família Karamazov, como o grande herói da trama. Ele representa o exemplo do “homem bom”, que se resigna dos próprios prazeres para sofrer a dor alheia. Ele almeja se tornar um monge, e tenta exasperadamente basear sua conduta na caridade, no amor e no respeito ao próximo. É linda a história do jovem Aliócha! Mas, basta um olhar um pouco mais atento para se perceber que também o “grande herói” do nosso filósofo age de acordo com sua essência: egoisticamente. Talvez seja uma visão muito intransigente e pessimista da minha parte, mas para mim é claro que ele pratica o bem em benefício de seu próprio ego. A caridade para ele, assim como para tantos iguais a ele, é uma forma de satisfação pessoal ou de percurso para atingir um objetivo próprio, não uma atitude espontânea e explícita de solidariedade.

P.S.: Acho que ficou claro que tanta catarse não me fez bem, não é?!

13.7.08

Brusco

Relendo:
Dois ou três almoços: uns silêncios – Caio Fernando Abreu

"Há alguns dias, Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou isso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro...”




Se fosse uma receita, seria assim:

* Pegue o estado de espírito em carência aguda;
* Acrescente resto de paixonite mal resolvida;
* Bata bem com a sensação de que nada acontece e de que nada vai acontecer;
* Surpeenda-se com uma pessoa interessante que surge do nada;
* Adicione encanto;
* Idealize o romance à gosto;
* Misture lentamente as características positivas (e idealizadas) da pessoa interessante;
* Acrescente a essa mistura certa necessidade desenfreada de satisfazer a libido;
* Use música, cinema e literatura para confeitar;
* Acrescente fermento;
* Deixe a massa descansar;
* Saboreie ainda quente.

Para garantir o sucesso da receita, cuidado com o encanto: se utilizado em grande proporção, pode fazer com que a massa fique muito fina e se quebre facilmente. Se a idealização também for excessiva, corre-se o risco de que fique cru. Fermento é fundamental e precisa ser acrescentado, aos poucos, por ambos. Do contrário, você vai saborear o prato sozinho. Se saborear.

10.7.08

Caminhando...



Novamente venho falar das escolhas. Difícil, muito difícil tomar decisões. Você pode ganhar por um lado, perder pelo outro, ganhar nos dois e também perder de vez. E cada escolha pode ter desdobramentos diversos, que novamente vão requisitar novas tomadas de decisão. Possível saber qual a escolha certa? O que é certo e o que é errado?

Paradoxal o conceito de certo e errado, que se finda na Lei de Murphy: se uma coisa tem que dar certo e dá certo, ela deu certo; se tem que dar certo e dá errado, ela deu errado. E se essa coisa tem que dar errado e dá certo? Ela deu errado. E se tem que dar errado e dá errado, ela deu certo! (aí que entra o filho-da-puta do Murphy: se tem que dar errado, dará errado dá pior forma possível...)

Fiz muitas escolhas erradas, após ter acertado em tantas outras. Isso foi no ano passado. As primeiras, deram certo. As segundas, deram MUITO errado. Fiquei mal, sofri demais, cheguei a não ver mais caminho. Não encontrava lugar firme para apoiar meus pés. Estava perdido e sem muitas esperanças das coisas darem certo de novo.

É impossível voltarmos atrás em nossas escolhas. Mas nos é permitido, sempre, fazer novas escolhas. E essa é uma das grandes mágicas da vida! Para isso temos o livre-arbítrio.

Parei de reclamar as decisões erradas que tomei e quebrei muitos paradigmas. Me enchi de coragem e comecei a mudar as minhas atitudes. Tudo estava tão bagunçado na minha vida... equilíbrio ZERO entre minhas partes física, psicológica e espiritual. Comecei a abrir mão de muitas coisas para conseguir conquistar novos objetivos – não se pode ter tudo sempre, por isso ceder é fundamental.

Sinto-me mais forte, mais confiante. Reconheço minhas limitações, mas potencializo minhas habilidades. Procuro a voz divina no silêncio interior e me enterneço. Me encaro no espelho e reconheço o brilho nos olhos. Sorrio, muito!

Sei que ainda há muito tropeços pelo caminho afora. Mas o que importa é que agora, no HOJE, estou seguro para pisar no chão firmando bem o corpo, e para caminhar nas nuvens sem que minha idéias se espalhem com o vento...

Estou muito feliz, como há tempos não me sentia. E devo esse estado de espírito, em grande parte, às pessoas maravilhosas que Deus colocou no meu caminho, seja há anos, ou há meses!



Relendo:
Para Ser Grande (Ricardo Reis)

Para ser grande, sê inteiro:
Nada Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
Porque alta vive


3.7.08

Jornalisticamente falando

Tenho uma revelação a fazer que poderá frustrar muitos leitores: jornalismo não é feito por jornalistas, mas por empresas jornalísticas. Com isso quero dizer que não é o profissional que seleciona e define o que é ou não notícia. É inerente à profissão ser um serviço público que se presta a uma função social: informar, denunciar e cobrar interesses sociais. Mas na prática as coisas, infelizmente, não funcionam bem assim, sinto dizer. Há mais coisas entre a redação e o comercial do que a graduação consegue explicar.

O eixo teórico-humanístico do curso é lindo! A propósito, sabiam que o jornalismo é a única profissão que tem seu código deontológico alicerçado sobre os princípios iluministas? Nosso código de ética foi inspirado por grandes filósofos como John Locke, Montesquieu, Voltaire, Rousseau... é lindo mesmo! Daí a gente se empolga e acha que vai mudar a humanidade! Desculpem-me a frieza, mas é bom que saibam (principalmente os que querem se arriscar no ramo) que no mercado, a cabeça do jornalista fica na redação, mas seu pescoço no departamento comercial. E lá ninguém nunca ouviu falar em social.

Esse registro não significa necessariamente uma revolta, apenas um desabafo. Aproveitando o ensejo, vou ponderar algumas coisas que têm me incomodado bastante na imprensa atualmente. Já que na emissora eu não posso opinar, vou rasgar o verbo aqui! Vamos às editorias de maior destaque:

Política
Será que ninguém percebe que essa putaria, digo, polêmica dobradinha PT/PSDB para sucessão municipal de Beagá é uma grande jogada em prol de uma campanha eleitoral gratuita e massificada? Ou seria muito radicalismo da minha parte? Já ultrapassou o nível da palhaçada toda essa história... A máxima do “falem bem ou falem mal, mas falem de mim” já não vale. Pela lei leitoral, não se pode mais falar nem bem nem mal de candidato algum antes do dia 5 de julho (por isso, nem ouso citar nomes porque ainda estamos no dia 3!). Porém, no caso da putaria, digo, da proposta de aliança entre os partidos a lei não considera que se esteja fazendo pré-campanha alguma. Mas os nomes dos possíveis pré-candidatos estão aparecendo, e muito. A máxima agora é “não falem de mim, mas citem meu nome, please!”. Minha antipatia ao tema é tamanha, que indago até a possibilidade do Duda Mendonça estar por trás dessa jogada de marketing...!

Economia
Taxa de juros, IPC-A, Dow Jones e bla bla bla. Economia é isso: índices, números, siglas, taxas, especulações, etc. Mas o cidadão comum pouco entende disso. Interessa a ele saber do que tem no bolso. Então o repórter atencioso tangibiliza essa confusão toda para tornar a informação mais prática. Lá na emissora, usamos muitas pesquisas de preços, dos mais diversos segmentos de produtos e serviços. Isso é muito bacana, porque o público fica sabendo que no Posto A a gasolina é mais barata que no B, ou que salões de beleza da região X cobram dez vezes mais que aqueles localizados na região Y. Porém, nunca essa pesquisa é feita nas ruas. Usamos a de um site, especializado no assunto, que realiza no mínimo duas pesquisas por semana. Bem mais prático, porque ela já chega mastigada e o próprio dono do site a digere para nós. Curioso é que em todas as pesquisas desse site, os estabelecimentos consultados são sempre os mesmos... e o site tem pouquíssimo espaço publicitário... mas ainda assim eles têm receita para manter o volume de pesquisas, a hospedagem do site... De forma alguma estou sugerindo que tais pesquisas sejam compradas... imagine! Talvez, apenas um pouquinho tendenciosas... bem pouquinho! Mas gostaria muito de poder sugerir que a emissora, ao menos, fosse mais honesta com o público que tem e assumisse a fonte não como pesquisador, mas como colunista.

Cidade/Gerais
A tal da Lei Seca tem gerado muita discussão. Particularmente, acho que realmente já passava da hora de o Brasil ter uma legislação mais severa quanto à questão álcool x trânsito. Veículos automotores são armas poderosíssimas... Mas o que não concordo, de forma alguma, é que no afã dessa polêmica, em que há tanto o que se analisar e ponderar, a imprensa local fique no pé da Polícia Militar cobrando maior fiscalização. Belo Horizonte tem mais roubos e furtos per capita que o Rio de Janeiro. A capital mineira também ganha da carioca quanto à percepção de insegurança. De acordo com a minha pesquisa, ainda em andamento (Velório à Moda Mídia: a cobertura de homicídios na Região Metropolitana de Belo Horizonte), a cada semana pelo menos sessenta pessoas são assassinadas na Região Metropolitana. Esse número é bem maior que o de vítimas de acidentes de trânsito. Não deveria a PM estar mais empenhada em coibir e punir esses crimes que em flagrar motoristas alcoolizados? Por que não colocar nossos agentes de trânsito para fiscalização? Afinal, agora que a meta de multas diárias deles foi suspensa, eles têm mais tempo para realizar blits!
P.S. Comentário irônico: a Lei Seca pode ser a solução para o caos no trânsito de BH. Em uma semana de intensas blitz na capital nacional dos bares, pelo menos metade dos motoristas habilitados teriam a carteira suspensa. Resultado: menos veículos nas ruas, o que elimina a necessidade do rodízio!!!!!

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COMENTÁRIOS RELATIVOS AO ÚLTIMO POST

Para os desinformados e/ou desatentos, abaixo de cada texto publicado no Solilóquios há um link chamado COMENTÁRIOS. Ele serve para que os leitores registrem suas opiniões, críticas, sugestões, dúvidas... Não que eu me importe de receber os comentários via MSN, e-mail, telefone ou pessoalmente. Mas, se há o espaço específico, porque não usá-lo, gente?! Faço até um acordo com vocês: passo a registrar tréplica aos comentários... que me dizem????

Percebi que a última frase do post causou certo desconforto em muita gente... rs. Três pessoas me questionaram qual a relação entre o casamento e a coca-cola. NENHUMA, esclareço então. Foi apenas uma singela alusão à letra da música “Alegria, Alegria”, do Caetano Veloso, precisamente ao verso em que ele diz: “Eu tomo uma coca-cola, ela pensa em casamento, e uma canção me consola”. Eu nunca pensei em me casar, sempre relutei a conceber essa idéia. Mas, de um tempo para cá, tenho concordado com o Tom: “É IMPOSSÍVEL ser feliz sozinho”. Com receio dos pensamentos matrimoniais, quis sugerir que a coca-cola pode me ajudar a afastá-los. Preciso colorir, ou me fiz entender?!

Por fim, acalmem-se meus amigos: eu não estou apaixonado. Acreditem, agora mantenho um pé firme no chão. Só um, o que já é um mega progresso. O outro eu deixo suspenso porque, afinal, aquela certa insanidade até que me faz bem, vocês sabem!

2.7.08

Post aromatizado

Relendo:
Fragmentos – Caio Fernando Abreu

"E se realmente gostarem? Se o toque do outro de repente for bom? Bom, a palavra é essa. Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons, normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro, bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros.”



Que cheiro teria aquele corpo? Essa dúvida me aflige. Aflição não é exatamente o termo que deveria usar, pois não há tormento algum, pelo contrário. Há desejo – e muito. Mas, sob certa ótica, desejo pode significar aflição a partir do momento que ele surge da falta – no caso, da falta do outro. Fato é que saber qual o cheiro teria aquele corpo me ajudaria a “colorir” melhor o esboço ainda mal traçado. Cheiro é tão importante para mim...

Inspiração para escrever não me falta. Difícil é organizar tudo em palavras – puro sentimento disforme!

Ainda tenho pensado muito no “tal do amor”. Sou um libertino confesso (já registrei isso aqui antes), mas a libertinagem não tem me despertado tanto interesse mais. Hoje me interesso por atenção, por carinho. Quero poder planejar o meu dia pensando em alguém. Incluir esse alguém no meu dia, na minha tarde, na minha noite. Acordar pela manhã e dizer “Bom dia, meu amor”. Parar no meio da manhã e ligar para dizer qualquer saudade. Almoçar e ganhar um beijo, mesmo que telefônico (hã?!), de sobremesa! Ligar novamente no meio da tarde e dizer mais qualquer saudade. Chegar em casa e preparar um bom jantar (a louça eu não lavo, deixo avisado, mas ajudo secar!). Dormir abraçadinho e acordar pela madrugada só para ter certeza de não estar sonhando.

Bem... sou patético enquanto romântico, mas puritano jamais. Então, depois do "Bom dia, meu amor", corpos roçando ainda quentes da cama e... sexo para acordar todos os músculos! Nos telefonemas para dizer qualquer saudade, me excitar e dizer que não vejo a hora de novamente lubrificar todos os músculos. Ao chegar em casa, suado e cansado, um banho a dois para manter a resistência sob a água. Depois do jantar, lavar a louça ajuda a fazer a digestão, o que elimina o risco de uma constipação. Na hora de dormir, algo parecido com "papai e mamãe", só para esquentar melhor a cama.... Bom pra dormir, melhor para acordar...aff...!!!

Ressalvo que essa programação é para os dias úteis, em que a labuta nos consome. Para os fins de semana e feriados, a programação é beeem mais intensa e diversificada!!!!

(Estou muito receoso... de uns meses para cá já começo a considerar a possibilidade de casar um dia... Vou tomar uma coca-cola...!!!)

Ouvindo:
Soneto do Teu Corpo (Leoni)
Voz: Martnália

Juro beijar teu corpo sem descanso
Como quem sai sem rumo prá viagem.
Vou te cruzar sem mapa nem bagagem,
Quero inventar a estrada enquanto avanço.

Beijo teus pés, me perco entre teus dedos.
Luzes ao norte, pernas são estradas
Onde meus lábios correm a madrugada
Pra de manhã chegar aos teus segredos.

Como em teus bosques. bebo nos teus rios.
Entre teus montes, vales escondidos.
Faço fogueiras, choro, canto e danço.

Línguas de lua varrem tua nuca.
Línguas de sol percorrem tuas ruas.
Juro beijar teu corpo sem descanso

29.6.08

Ah, Daniel...

São 5h25 da manhã... (não sei por que comecei o texto assim...!) Bem, agora já são 5h26 da manhã (não, eu não demorei um minuto pra escrever aquela frase, é que o relógio do computador não marca os segundos!) e minha cabeça deve explodir em pouquíssimo tempo... Para ganhar tempo antes que meus miolos saltem, não vou me preocupar com qualquer coerência e/ou coesão.

O frio dos últimos dias não me incomoda tanto quanto o gelo no coração.

Querer me afastar de todo mundo é uma grande farsa. Quero todo mundo bem pertinho (exagero... tem muita gente que quero é ter distância mesmo!)

Quando quis ter um diário pela primeira vez, usei a parede no meu quarto. Quando decidi criar o blog, opitei por não transformá-lo em um diário.

Se eu tivesse um diário, escreveria que ontem (na verdade hoje, porque eu ainda não dormi, então hoje ainda é ontem pra mim!) eu:

- acordei com sono e dormi de novo;
- fui acordado em seguida e fiquei de mau humor;
- recebi um telefonema de uma figura cuja voz eu não queria ouvir;
- fui mesquinho com ela;
- estava louco de vontade de ver minha filhota, e preocupado porque ela está dodói, mas não tive coragem de sair do quarto;
- me sinto um bosta quando faço isso;
- suspirei um bocado batendo papo no msn;
- ouvi If You're Feeling Sinister milhões de vezes;
- Não consegui continuar uma linha do "Amor e outros crimes" (pré-título do romance que ouso tentar escrever!);
- comi creme de abacate com granola (puts! tava muito bom!!!);
- não resisti e comprei mais chocolate meio amargo (resisti ao vinho!);
- fiz sala para parentes (dispensa comentários, né?!);
- comi muita broa de fubá com queijo, saindo do forno, acompanhada de um puta café bem forte;
- resolvi me mexer, tomar um banho e sair pra ver o céu;
- queria ter ido para o FIT, mas lembrei do show do (tinha ganhado ingresso dos caras... era gravação do primeiro DVD e eu fiz assessoria de imprensa pra eles no lançamento do 1º CD... e os caras são muito brothers, não podia deixar de ir!!);
- me senti vivo quando saí de casa;
- encontrei com uma das pessoas mais fantásticas que surgiram na minha vida;
- comemos filé com fritas com muito queijo;
- tomamos chopp;
- descobrimos que no shopping tem wireless free;
- meu amigo descobriu que dar ctrl+v sem ter certeza de qual foi o último arquivo que recebeu ctrl+c pode ser perigoso;
- sofri uma "paixão à primeira vista"(nem tanto, mas me controlei pra não sentar na mesa em frente a nossa!);
- fui a pé até o lugar do show, e foi a melhor coisa que fiz! A noite estava linda e BH fica muito mais charmosa com o FIT!
- descobri que o show iria começar duas horas depois do horário de abertura da casa (no convite o horário era 21h30... pensei que fosse a hora do show, porra!);
- pensei seriamente em voltar pra casa e comer mais chocolate;
- tive a sensação de ter uma parada cardiorespiratória - surgiu na minha frente, como mágica, a única pessoa que eu jamais imaginaria encontrar lá e que, definitivamente, eu não deveria ter encontrado;
- pensei em ir embora mesmo, mas aquele olhar, aquela voz... quase tive a segunda parada...
- encontrei MUITA gente conhecida. MUITA gente que há muito eu não via. MUITA gente que me fazia MUITA falta;
- revivi 4 meses em dez segundos (flash-back mais completo e rápido que já tive);
- me senti mal, muito mal;
- me senti bem, muito bem;
- fiquei constrangido por amigos que jamais imaginei pudessem me constranger;
- curti MUITO o show ("O MEU CABELO É VERDE AMARELO, VIOLETA E TRANSPARENTE, A MINHA CASPA É DE PURPURINA, MINHA BARBA AZUL ANIL" - ROCK'N ROLL ZÉ!!!!);
- fiquei louco de verdade por causa de um solo de batera...! (e olha que eu, definitivamente, não tenho muito espírito Rock'N Roll na veia);
- me senti, enfim, relaxado;
- tentei evitar, mas não conseguia desviar meus olhos o tempo todo;
- me senti um bosta;
- pensei novamente no tal do "fazer escolhas";
- aplaudi de pé no final do show! (Esses caras vão longe!!!!!)
- combinei teatro para próxima sexta - me senti ainda mais bosta por isso;
- voltei para casa sóbrio(acreditem, estava sóbrio!);
- voltei para casa seco, tenso, ácido;
- comecei a beber quando cheguei em casa;
- disse FODA-SE pelo menos dez vezes e consegui me distrair;
- li um blog quase inteiro (que, certamente, influenciou esse post);
- ouvi If You're Feeling Sinister sem parar um segundo sequer;
- desejei jamais ter me apaixonado um dia;
- desejei jamais me apaixonar novamente;
- desejei fazer alguém se apaixonar por mim;
- desejei não estar com tanto frio e com o coração tão gelado;
- lembrei mais uma vez do Caio ("Não, meu bem, não adianta bancar o distante: lá vem o amor nos dilacerar de novo");
- repeti meu nome milhões de vezes (não, isso não é TOC);
- resolvi escrever - olhei as horas;
- pensei no tempo - olhei as paredes e lembrei do meu antigo diário;
- tenho certeza que em cinco minutos ela vai explodir...
- quero colo;
- vou (tentar) dormir;
- são 5h52.

21.6.08

Lembranças

Você lembra? Não... não lembra. Na época nem supúnhamos nos conhecer um dia. E mesmo se nos conhecêssemos, não sei se você lembraria. Na verdade, acho que ninguém lembra, ou pelo menos nunca comentaram nada. Mas eu lembro e é exatamente isso que dói: eu. Ser verdadeiro consigo próprio é quase um exercício de tortura. E me torturo demais lembrando o brilho que meus olhos tinham. Você não lembra.

Desde bem pequeno, digo, bem novinho, eu criei o hábito de me encarar no espelho e conversar comigo. Sim, con-ver-sar, nada de falar sozinho. É uma daquelas técnicas que você escuta em qualquer conversa de gente grande, ou então que dá na TV mesmo, e então você chega em casa faz o exercício e o recria como se fosse seu. Foi assim que criei esse hábito de conversar comigo mesmo de frente ao espelho. Sim, con-ver-sar. Mantive esse costume por anos, até que o brilho começou a se ofuscar enquanto eu me afastava de mim.

Sabe que hoje eu acordei e vi que faz uma manhã linda, a primeira do inverno deste ano. Adoro as manhãs de inverno! Assim como as da primavera. Já as tardes, prefiro as de outono, e as noites, as de verão. Pois bem, lembrei que era inverno e me veio à mente algo que eu ouvi, certa vez, sobre o inverno ser a época do renascimento. Salvo engano tem a ver com a tradição wicca, (quando te conheci você era fã disso!), e que para eles esta estação representaria o período fértil, e que seria nessa época a comemoração do ano novo. Não sei ao certo. Mas lembrei disso e olhei pro céu e pensei por que não agora e depois pensei por que não antes e depois voltei pra cama e pensei mais em por que não antes.

A cabeça meio zuada e um gosto forte de cerveja na boca me fizeram pensar se eu não estaria bêbado ainda. Mas não. É apenas reflexo de mais uma noite de intenso vazio, dor travada na garganta. Lembrei da noite que não teve nada demais, mas que poderia ter sido mais que especial. Faltava alguma coisa. Várias coisas faltavam. Porque o vazio, como os buracos negros, sugam tudo o que está próximo e as coisas que você tem passam a parecer faltar também.

Lembrei das coisas que me faltam. E me vieram tantas coisas na cabeça. Coisas como um amigo de infância, como colegas de trabalho, amigos da escola, da faculdade, sem falar de outras coisas que conheci em lugares por onde passei. Sem contar aquele pôr-do-sol no alto da serra, ou o riacho cantando baixinho durante um estonteante amanhecer de primavera. Coisas. Lembrei das coisas que me faltam e pensei que as que mais doem não são aquelas que nunca tive, mas as que perdi. E concluí que perdi por que coisifiquei demais, e que coisas se perdem facilmente.

Lembrei das coisas que me faltam e depois me lembrei das escolhas que fiz. Escolhas são tão importantes. E inevitáveis. Escolher é arriscar e ter cinqüenta por cento de chance para o sucesso ou para o fracasso. Lembrei que poucas coisas comportam o meio-termo, é oito-ou-oitenta. Mas pensei que o equilibro é possível, apesar de difícil. Difícil, muito difícil fazer escolhas. Daí lembrei dos conselhos que pedi, dos que recebi sem pedir, dos conselhos que dei. E lembrei daquela senhora que aconselha o uso do filtro-solar. Procurei o vídeo e o revi. Lembrei de como pode ser proveitoso ouvir palavras de auto-ajuda.

“Não seja leviano com o coração dos outros, não ature gente de coração leviano.” Queria conhecer essa tal senhora, gosto dos conselhos dela e me admira sua experiência de vida. Queria não conhecer gente de coração leviano. Queria saber ao certo quem é leviano comigo e se disfarça, ou disfarço. Queria me antecipar à minha leviandade também. Lembrei dos amigos, dos colegas, dos companheiros, dos oportunistas, dos falsos e lembrei de novo das coisas que me faltam. Faltam tantas.

Lembrei que fazia uma linda manhã de inverno, a primeira do ano, e que merecia caminhar um pouco, respirar um pouco, sentar ao sol. Apanhei o cigarro e, pouco me importando com a minha cara amassada ou com o bafo de noite com dor travada na garganta, saí. O cachorro me acompanhou até o portão e com um leve gemido me fez lembrar que ele foi meu grande companheiro e eu o abandonei. Uma coisa que não perdi, mas esqueci ao meu lado. Apanhei também a coleira e saí com meu grande companheiro, hoje velho, cego, fedorento, mas ainda companheiro, carinhoso, honesto e leal.

De muitas coisas lembrei enquanto caminhava ao sol, fumando, e segurando meu velho companheiro pela coleira. Lembrei de antigos sonhos, de músicas, poemas, de cheiros e sabores. Lembrei do mar. Quanta saudade sinto do mar. Lembrei novamente das coisas que me faltam e que são tantas. Lembrei de você. Lembrei ainda de como pequenos hábitos são importantes. Bons e simples hábitos, como o de passear com seu cachorro ou como aquele de se sentar de frente ao espelho e conversar consigo próprio. Lembrei que falo muito sozinho e que há tempos não converso comigo. E foi então que lembrei do brilho que meus olhos tinham. Lembra?

11.6.08

Curtas





"Ah insensatez
que você fez”

Tom Jobim



"Não cante o humano coração com mais verdade" sentenciou Vinícius de Morais em um de seus mais belos poemas. O coração humano é fraco, embora saibamos todos que há quem o tenha duro e frio como uma rocha (ele certamente pensava assim!). Amar como amigo, como bicho, sem mistério, sem virtude, com desejo, com saudade, com calma e com isso tudo sendo real. Este deve ser, realmente, o Amor Total (imperdível o clip acima! ao final Vinícius declama o Soneto do Amor Total).

Versos bêbados

Andei pensando muito no amor ultimamente. Coisa louca deve ser esse tal de amor! Digo deve ser porque acho que nunca experimentei o tal do amor, não o fraterno, de pai, que mais perene não há. Falo do tal do amor mesmo. Já experimentei vários tipos de amor, sabe como, amor de amigo, amor de infância, amor de verão, de outono, de primavera, de inverno, amor bossa nova, amor rock'n roll, amor de uma noite só, de um beijo só, amor pra sempre e amor pra nunca mais também. Já sei: vai dizer que amor é só um, que o resto é paixão, é tesão, é carência e tal. Se disser, eu vou concordar com você. Mas prefiro pensar em tipos de amor, porque me conforta mais, porque me faz acreditar que já amei várias vezes, algumas vezes. Não quero pensar que o que carrego sejam apenas migalhas de amor. Lembranças.

Dia dos namorados

Nesta semana uma amiga, que é louca pelo namorado que também é louco por ela, reclamou que estão duros e, que apesar de terem programado uma comemoração bem especial para a data, vão ficar os dois em casa. Disse isso com um ar de tanto pesar... Parei para pensar em como são as coisas: nunca estamos satisfeitos com o que temos. Enquanto ela queria jantar, motel, presentes, tudo o que eu queria era alguém. Queria apenas o cafuné, o calor da pele, o brilho dos olhos, o cheiro, a voz...

Lendo Caio Fernando Abreu mais uma vez

"Não compreendo como querer o outro posso tornar-se mais forte que querer a si próprio"

7.5.08

Soltando a Voz




"Um sentir é o do sentente,
mas o outro é o do sentidor”

Guimarães Rosa




Nada mais difícil que dar nome às emoções. Vivemos num mundo no qual se valoriza o ter, não o ser. Valores como simplicidade, honestidade, companheirismo, respeito, entre tantos outros, são postos de lado por valores que atribuem poder (status?). E no meio dessa inversão de valores, surge a hipocrisia dos homens.

Caio Fernando Abreu narra em um de seus melhores contos a angústia de dois rapazes que são condenados pela hipocrisia daqueles que lhes são próximos. Aparentemente reprimidos, os dois são envolvidos por um sentimento que não conseguem compreender. Mas outras pessoas julgam entender que sentimento é esse...

Ouça o conto Aqueles Dois. Depois reflita se você é medíocre como os outros, ou se é capaz de perceber a amizade como um sentimento sublime. Perceba se você, como nas palavras de Guimarães Rosa, é um “sentente”, ou um “sentidor”.


E.T.: Há tempos tenho vontade de postar aqui no Solilóquios arquivos de áudio. Muita gente não tem paciência para ler, ou não tem tempo para desprender à leitura de um texto, então resolvi gravar o texto do Caio e divulgá-lo aqui. Confesso que é também uma forma de soltar minha voz no mundo virtual!!! O blogspot não aceita arquivos de áudio, e por isso publiquei o áudio no acidplanet.com. Se preferir, acompanhe o áudio lendo o texto na íntegra.

25.4.08

Intangibilidade

Relendo:
Fragmentos – Caio Fernando Abreu

"Chorar por tudo que se perdeu, por tudo que apenas ameaçou e não chegou a ser, pelo que perdi de mim, pelo ontem morto, pelo hoje sujo, pelo amanhã que não existe, pelo muito que amei e não me amaram, pelo que tentei ser correto e não foram comigo. Meu coração sangra com uma dor que não consigo comunicar a ninguém, recuso todos os toques e ignoro todas tentativas de aproximação. Tenho vergonha de gritar que esta dor é só minha, de pedir que me deixem em paz e só com ela, como um cão com seu osso. A única magia que existe é estarmos vivos e não entendermos nada disso. A única magia que existe é a nossa incompreensão.”




Não compreendo o que se passa e já estou farto dessa procura inútil por razões que justifiquem o meu agir, o meu pensar, o meu sentir. Trago da infância certa carência afetiva que tento disfarçar hora com drops de menta forte, hora com um copo de aguardente. Por isso essa sede é tão insaciável - não há parâmetro. Não tenho ponto de equilíbrio, meios termos, ou qualquer outra coisa que possibilite o controle dessa disritmia.

Diz que saturno não anda muito bento e que por isso as chamas dos que são de fogo estão mais intensas e instáveis. Que me importa saturno? Se ele tem anéis tão lindos e ainda assim não se sente belo - ou se gosta mesmo é de implicar com seres menores - que tenho eu haver?

Fragilidade. Vontade de chorar, de gritar, de sumir. De assumir não ter força. Vontade de viajar pra longe, bem longe, sem data de volta, sem destino, sem avisar, sem despedir, sem olhar pra trás, sem lembrar de ninguém. Sem importar com quem fica, com quem se importa com onde e como fico.

E no auge desse egoísmo ainda querer ser lembrado, desejado, querido. E no limite desse mesmo egoísmo querer que alguém me entenda; que compreenda que parti aos poucos para não ter que deixar recado e ainda assim querer ser lembrado ou, mais ainda, respeitado.

26.3.08

Da Redação

Relendo:
Carta ao Zézim – Caio Fernando Abreu

“...Quem procura não acha. É preciso estar distraído e não esperando absolutamente nada. Não há nada a ser esperado. Nem desesperado. Tudo é maya / ilusão. Ou samsara / Círculo vicioso...”




Um gosto amargo de melancolia e desamor se mistura ao gosto azedo do tabaco e à acidez da cafeína. Muitos cigarros e muitos cafés em meio à agitação obsessiva em busca de alguma tal verdade qualquer. Fatos, notas, boletins. Politiquices, politicagens, sangue, desastres, tragédias, desigualdades, impunidades, injustiças. Deus, salvai o vosso povo!

O tempo que não pára corre lento junto ao gosto amargo que comprime a glote. Ansiedade por fatos pessoais que não se concretizam. A manhã é branca, mas das vidraças vê-se o amarelo sutil de um sol tímido por trás do resto de serra ainda verde. Lá em baixo — reflito — muitos escutam minhas palavras. Lá em cima — pressinto — alguém me observa sem se pronunciar.

Dentre algumas horas ganho novamente a rua. Sairei a esmo em meio ao pó seco e cinza do asfalto. Nelson à tira-colo e Caio, certamente, me repetindo sua prosa impura. Como de praxe, uma canção se fará trilha sonora da memória triste. Talvez Betânia com sua versão daquela música do Herbert ou, quem sabe, aquela antiga da Rô Rô, ou qualquer outra que trate de eufemismos.

Os dedos estarão, como há tempos, compridos como que tentando espremer o tempo numa ânsia de que tudo mude em poucos minutos como na manhã de gosto amargo. E a ansiedade se fará ainda mais presente a cada ameaça de toque do telefone, esperando ouvir aquela voz que não fala, que não mente, nem tampouco diz verdades. Esperando ouvir qualquer “saudade”. Esperando... desesperado.

10.3.08

A desordem (das coisas), na (quase) ordem dos fatos



“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma", já dizia Lavoisier. Somos parte de um processo contínuo. Dependendo da perspectiva, somos um processo em si. Entendo que todo processo é desordenado. E é justamente na desordem que as partes distantes podem se juntar, e que outras partes podem se separar. E assim se forma um corpus mais coeso, mais uniforme, e o processo se conclui para, então, gerar um novo processo, novamente em desordem.

Já virou pleonasmo Solilóquios e desatualização! Mas eu não o abandono. Esse cantinho guarda registros da desordem dos meus processos. É aqui que registros grandes momentos de desordem e, assim, tento ordenar o pensamento.

Há um bom tempo tudo se apresenta a mim em grande desordem. O ritmo de vida parece aumentar ainda mais as turbulências. Daí vem uma mistura de sentimentos díspares e o alarme soa emergência. E se nesse a instante piso o acelerador com maior ânsia de corrida, em seguida o freio não funciona e os impactos são muito mais pesados.

O “bom tempo” ao qual me refiro não carece de data inicial, menos ainda data limite. Não é um todo, é apenas parte de um processo que começou lá atrás, e que termina lá na frente.

Os que me conhecem já devem estar prevendo um post looooongo e melancólico. Adianto, aos que se aventurarem a prosseguir, que dividirei o relato em “pílulas”, pequenos registros, para parecer menor (!). Já quanto ao teor melancólico, se for notado, é apenas reflexo do estilo de linguagem!

E para ninguém dizer que não falei das flores ao narrar a desordem...

Das Flores

Num certo dia da primavera passada, caminhava pelas ruas quando uma flor chamou-me atenção em um canteiro. Havia muitas flores, mas ela se destacava pelo tamanho e pelas cores. Achei muito estranho, mas ela era furta-cor. Combinava muitas cores que jamais vi em uma da espécie. Tratava-se de uma azaléia. Em sua volta, outras azaléias pequenas nas cores rosa, branca, vermelha e violeta. Todas belas. Mas, em meio à desordem genética, aquela flor, com grande sensibilidade, soube organizar aquele caos e configurar-se a maior e mais bela azaléia do canteiro.

Das coisas “quase”

Tão pior que o “se” ou o “será” é o “quase”. “Quase” não significa nada, ou “quase” nada, a não ser uma negativa. Quase conseguir é não conseguir. Quase terminar é não terminar. Quase esquecer é não esquecer. Quase vencer é perder. Do contrário, poderia dizer que pensar assim é ser quase relativista.

Das escolhas

Amadurecer é fazer escolhas. Percebo assim. A vida nos cobra atitude a todo tempo. Temos o livre arbítrio para agir, não para ficarmos inertes. Mas fazer escolhas não é um processo simples, mecânico, automático. Ao contrário. Lei da ação e reação: cada possibilidade representa resultados desconhecidos. Na inconseqüência da puberdade escolher é tão natural quanto acordar. Mas chega um ponto que a vida pede prudência.

Do dinheiro

É vendaval: a falta ou a fartura das tais verdinhas (no nosso caso oncinhas, peixinhos... rs!). Como uma sociedade que teve suas relações comerciais originadas na base do escambo pode hoje ser tão obcecada pelo acúmulo de riquezas? Como podem as pessoas serem tão escravas de um poder simbólico? Respostas simples: dinheiro. Obra que o “coisa ruim” deixou quando passou por aqui, por volta do século XV...

Dos vícios

Li um livro que me inquietou por demais: Os Irmãos Karamazovi, do Dostoiévski (recomendo!). Se fosse citar todas as partes que mais me impressionaram, gastaria no mínimo oito laudas (já escrevi algumas considerações sobre o livro e foi este o tamanho do texto.). Logo no início há uma passagem em que um ancião discursa para algumas pessoas em seu aposento. Dirigindo-se especificamente a um homem em especial, o ancião fala do poder destrutivo da mentira. Dizia o ancião que a mentira leva o homem ao pior estado da alma. Acrescentava ele que da mentira ao próximo, o homem passa a mentir para si mesmo. E que da mentira a si próprio o homem se entrega aos vícios e passa a viver em profunda lascívia. Passado algum tempo após essa leitura, compreendi o que dizia o sábio ancião. E foi muito triste tal descoberta. É triste ver alguém que lhe é querido se desmoralizar. É muito triste ver alguém que você tanto preza perdido, pedindo ajuda, mas negando auxílio. É muito triste você ver alguém que você ama sofrendo, enxergando apenas trevas sem se interessar mais pela luz. É muito triste...

Das frustrações

Uma alma muito iluminada, a quem tenho a honra de ser amigo, traduziu perfeitamente o modo como conduzo minhas relações pessoais. Disse-me ela o seguinte:
“Dani. Você sabe que eu nunca me entrego de cabeça em nenhuma relação. Nunca espero nada de sublime em ninguém. Sou resistente em me tornar íntima. Ao contrário de você, que se entrega completamente a qualquer pessoa. E veja só: as pessoas acabam me surpreendendo. Já você, sempre se decepciona. Daí fica frustrado, e nem pode dizer que a ‘culpa’ é da outra pessoa.”

Da saudade

Dentre as várias decepções e frustrações recentes, uma tem maior peso que todas. Pesa mais porque pesa em dobro, já que ambos nos decepcionamos. Um mais que o outro, talvez. Toda decepção dói bastante, e essa também doeu em dobro. Decepcionar implica, necessariamente, em perder: a confiança, o carinho, o respeito, a companhia... De fato, é somente quando perdemos algo que lhe damos o devido valor. E somente depois de perder descobri que amava. Mas acabou. Os cheiros voltam, as músicas sempre tocam, as fotos não desbotam. Mas, acabou. Enfim, de tudo descobri algo que, certamente, mudou (está mudando) a forma com a qual me relaciono com as pessoas e, principalmente, com o passado. Descobri que cada pessoa tem o lugar que merece em nossa vida. E se esse lugar for o passado, que seja o passado. Isso não diminui, de forma alguma, o valor que ela tem na nossa vida. Pelo contrário.

Do sistema

O “furacão” Tropa de Elite passou e deixou no país uma ideologia de que é a classe média, digo, o maconheiro da classe média, que financia o tráfico de drogas e todo o terror que este acarreta. Particularmente, acho que trata-se de uma conclusão absolutamente reducionista de um problema que tem causas inúmeras, de origem histórica e que envolve todas as classes sociais do país, incluindo usuários e não usuários de droga. Vivi recentemente uma situação que jamais imaginei viver. Fui vítima do sistema em duas vertentes: a dos bandidos e a da polícia. Vivi momentos de terror, sob ameaça de morte. O sentimento de impotência e a humilhação foram superados pelo alívio de permanecer vivo. Passado o terror, vivi o pânico de ter que recorrer à uma polícia hipócrita, mesquinha, corrupta, preconceituosa, que privilegia classes em detrimento do cidadão. E os culpados são os maconheiros?

Do pensamento

“Cuidado com o que você pensa”, me alertava um amigo. Como se fosse fácil controlar o pensamento. Razão e emoção não se equilibram – ao menos para mim. E no meio daquela certa insanidade, literatura, música e cinema catalisam meus desatinos. Não abro mão das artes e não me furto o pensar. Então, de nada posso reclamar. Mas peço calma ao tempo: pára mundo que eu quero descer!

Do inferno astral

Não tem jeito, ele sempre vem. No mês que antecede o aniversário o chamado “inferno astral” me incomoda a alma. Percebo-o como um momento de maior introspecção, no qual começo a julgar com maior sinceridade os meus próprios atos. É doloroso e confuso porque implica no julgamento de valores pessoais que balizam nossa conduta. A verdade dói, todos dizem. Mas, percebo que a evolução existe. Neste ano sinto-me mais seguro, mais homem. Balanço, mas tremo. Tropeço, mas não caio. Hesito, mas não paro. Em breve comemorarei meu ano novo, com a certeza de algo sempre muda, que alguma coisa sempre acontece, e que depois da tempestade, sempre vem a abonança.

3.1.08

Intempérie



“A vida é a arte do encontro,
embora aja tanto desencontro pela vida”
Vinícius de Morais




De fato havia em mim certo desconcerto que não procedia de qualquer desventura que não a insólita experiência do não viver. Era como se, de algum modo, a vida me soprasse lembranças de terra não vista. Começo pedante — eu sei — embora me achando prosaico, as reverberações desse conjunto bizarro o qual, impensadamente, chamo de eu. São desconsolos em fala escrita de quem jamais soube o que é um verdadeiro encontro.

Sentado à mesa, roto, observava a vida tola, sua gente escrota, e maldizia o vento quente, a hipocrisia dos fortes, a arrogância dos fracos, o bêbado insano da mesa ao lado. Inquietude a cada trago, desilusão a cada gole. Em um momento de maior excitação e blasfêmia, desejei assumir o lugar do bêbado e bradar aos quatro ventos a náusea que, naquele momento, me afligia.

A vida me é, às vezes, pesada demais. Dói, arranha, machuca, incomoda, sei lá. É tanto querer suprimido pelo não pedir, pelo não dizer, pelo não tentar. E especialmente naquela noite eu me sentia extremamente só, vazio, perdido e desprotegido. Queria falar e, talvez por isso, invejava o bêbado que falava sem parar, desprendido de formalidades ou de qualquer preocupação hipócrita daquelas que temos quando em público.

O acaso (ou isso que ao acaso chamamos de acaso) resolveu pregar-me uma peça. Já que queria eu falar, enviou-me uma pessoa ouvinte. Existem pessoas falantes, como eu, que falam. Há também pessoas ouvintes, como ela, que ouvem, ou escutam — tanto faz. E falei muito naquela noite. Assim como nas várias noites que se seguiriam, eu falei muito e fui ouvido (ou escutado). E daquele fortuito encontro surgiria em mim um sentimento que viria a me servir, ao mesmo tempo, de antídoto e veneno.

É sabido que em certa região da Espanha o alto índice de insanidade mental é causado pelos fortes ventos quentes — tão violentos que chegam a espalhar fogo em vilas e plantações. Talvez o mesmo tenha me ocorrido... Os ventos quentes de outubro trouxeram à tona minha insanidade adormecida. E outras tantas violências primaveris vieram catalisar meus desatinos.

Sempre em busca de um tipo "ideal" , vejo-me ridículo em meu romantismo. Patético, não hesito dizer. Mas, no fundo eu gosto dessa fuga. Sim. Porque querer apenas o "ideal" é fugir de tudo que pareça palpável, sólido e real. Medo? Deixo-me a dúvida.

Sem me dar conta (ou, quem sabe, disfarçando o que já percebia) minha vida foi se misturando à daquela pessoa que me ouvia. Ou talvez fosse eu mesmo quem misturava a vida dela à minha. Não sei. Percebo apenas que não pude evitar. Ir ou não ir, querer ou não querer, ligar ou não ligar, dizer ou não dizer, pensar ou não pensar, sentir ou não sentir... Nada. Tudo parecia tão natural e seguro que eu, simplesmente, ia.

Fui sem saber aonde poderia chegar. Era tão agradável a caminhada... Não valia a pena - eu pensava - perder tempo com qualquer neurose, pseudo-moralismo ou coisa do tipo. A vida é tão curta, eu dizia, que se não a agarramos com força, ela nos escapa por entre os dedos.

São os momentos que dão significado à vida. E são os atributos dos instantes que compõem estes delicados momentos que determinam a intensidade de cada experiência. Experimentava eu o contato com o outro, de forma muito peculiar se comparada a experiências por mim já vividas. Talvez em função da singularidade daquele contato, como que involuntariamente, eu utilizava artifícios vis para prolongar e intensificar, simbolicamente, aqueles instantes nos quais por ela eu era ouvido.

Utilizo o termo "involuntário" para designar um estado em que o impulso se torna mais forte que a razão. E, honestamente, demorei a perceber que agia impulsivamente. A "coisa" (para não perder tempo procurando nomear esta minha intempérie) me era tão bruta que, de repente, me peguei escrevendo versos cujos significados não conseguia compreender — nem sequer percebia ao quê, nem a quem, me referia. Durante o trabalho, ou mesmo compenetrado nos estudos, rascunhava frases como "Socorro, eu não sinto nada além de desejo." "Quero aquele, quero aquilo, quero tudo isso." "Sonho que estou dormindo e acordo com a certeza de estar sonhando." "E Teu cheiro... cheiro forte, cheiro de quero hoje, quero agora, quero.".

Afinal, o que (ou quem) eu queria? Sempre procurei paixões como força propulsora de minha motivação pessoal, embora preservasse a lúcida consciência de que o objeto do desejo é sempre maior do que o próprio desejo. Contudo, jamais reconheci em mim este "real" e latente desejo. Nem o seu tipo "ideal" fui capaz de rascunhar de forma mais verosímil. Por isso, objetos criei inúmeros. E aquela pessoa ouvinte, vim a perceber, era mais um objeto de paixão por mim personificado.

Chama-se de amor platônico aquele em que o simbólico é o lugar de despejo das punções. É unilateral, já que é experimentado em silenciosa solidão. E é traiçoeiro, pois transfigura o ser amado em um objeto sublime. Ao refletir sobre essa visão do amor platônico, senti-me tranqüilizado por perceber que não enxerguei, em momento algum, qualquer característica esplêndida naquela pessoa. Nem mesmo sua condição de ouvinte me parecia majestosa. Então, por que tamanho encanto? Talvez porque a atenção que demonstrava a mim alegrava-me profundamente, e o seu silêncio, guardado pelo olhar indecifrável, inspirava-me por demais.

Quando, enfim, me julguei apaixonado, em retórica questionei "será que dessa vez será diferente?". Sinceramente, pouco me importava, àquela altura, as semelhanças ou diferenças com qualquer experiência já vivida. Me via estúpido por ter consciência da minha estupidez ao entregar-me, mais uma vez, às ciladas do desejo. Mas, repito, tudo fora tão natural que eu, simplesmente, ia.

Foi através de um simples recibo de cinema que percebi a paixão que me envolvia. A expressão "kit casal" nele impressa desencadeou a rememoração de uma semana de encontros diários — digna de casais em início de romance. O filme em questão era uma comédia romântica, com direito a muito mamão com açúcar, pipoca e refrigerante. Houve também encontros ainda mais bucólicos em praças, exposição artística, Café com clima "cult" e longas madrugadas à som ambiente e meia-luz.

Recordei-me agora que na mesma noite em que fomos ao cinema, ao encontrarmos com pessoas que não sabiam o que fazíamos antes de encontrá-las, nos foi questionado se éramos namorados. Outras pessoas, em situações distintas, também me fizeram a mesma pergunta. Será que havia algo em nosso olhar ou, quem sabe, formávamos um campo magnético em torno de nós capaz de despertar tal desconfiança?

Já consciente do simulacro de romance que havia eu criado, pude distanciar-me de mim mesmo e julgar-me como quem observa um desconhecido. Esse distanciamento foi providencial para conter aquele sentimento que, se alimentado ainda mais, inevitavelmente se consolidaria em angústia. Fui sincero e honesto comigo mesmo. Percebi que havia muitos atributos que diferenciavam essa paixão das que vivi anteriormente e que, assim, talvez não se configurasse paixão. Não recordo-me de nenhum instante em que tivesse sido arroubado por qualquer desejo libidinoso em relação àquela pessoa. Para um libertino confesso, a ausência do desejo carnal revela um sentimento muito mais fraterno que apaixonado, acredito. Vale lembrar que o desejo do toque, mesmo quando desperto pelo cheiro da pele, não se refere obrigatoriamente a um desejo sexual.

Todavia, se considerados os questionamentos despertos pela análise daquele contato, todo aquele sentimento se assemelhava às antigas paixonites. A impossibilidade de interpretação de inúmeros gestos, palavras, expressões e até demonstrações diretas de afeto, chegaram a me fazer confundir "platonice" com reciprocidade daquele desejo disforme.

Houve sinergia entre nós? Não tenho dúvidas que sim. Comunhão, houve? Talvez. Reciprocidade? Quem sabe... Em algum instante, teria ela indagado a possibilidade de também estar envolvida como eu? Acho pouco provável. E se eu tivesse revelado a dúvida, qual seria a sua reação? Perguntas que se extinguem no "será?", "e se", "mas, se", "se".

Lembrei-me que em uma daquelas madrugadas em que era ouvido, confidenciei ter percebido, na libertinagem, que o gozo é fugidio, dado o seu caráter efêmero, e que o calor do toque é mais perene que o calor do ato. Analogamente, ao final de todo o processo catártico daquela paixão amorfa, percebi que buscava naquela pessoa não a efemeridade de um romance, mas a perenidade de um relacionamento em que o interesse mútuo fosse a partilha de idéias. Estas, capazes de auxiliar ambos a conhecerem a si próprios. Por isso, senti-me imensamente feliz e realizado ao ser chamado de amigo.

Apesar de julgar pouco provável que ela venha a ler este texto um dia, tenho certo receio de qual poderá ser a sua reação. Sentir-se-á ultrajada? Espero, sinceramente, que não. Menos ainda desejo que se compadeça por mim. Ao contrário, quero que sinta-se lisonjeada por ser capaz de despertar no outro sentimentos tão sublimes. E, principalmente, que se orgulhe por ter contribuído sobremaneira com o processo de amadurecimento de um homem cujo espírito adolescente age desenfreado como o de um menino afoito. Acima de tudo, que lhe desperte, ou aumente, o desejo de consolidar uma bela e sincera amizade.

Por fim, julgo pertinente tecer mais uma consideração sobre a paixão que, sei, está à espreita de qualquer deslize meu. Paixão é sempre um falso encontro. É aquela velha história: João que encontrou Maria que encontrou José que encontrou Sofia que encontrou Joaquim que encontrou Tereza que encontrou Cecília que encontrou Pedro que encontrou Fernando que, lúcido, foi o único a perceber que, em verdade, todos aqueles não haviam encontrado ninguém — ao contrário, estavam apenas perdidos de si próprios...

2.9.07

Percepções


“A beleza do mundo está na cara do feio!” Foi assim que Patrícia Amaral, cantora belo-horizontina, relatou em uma de suas músicas a percepção que tem em relação à beleza humana. Concordo plenamente com o argumento de Patrícia. A beleza de uma pessoa reside em um sorriso alegre, não naquele esteticamente perfeito; é refletida por um olhar radiante, cujos olhos não carecem de tons azuis ou verdes; é emanada por uma aura contagiante, que jamais é esboço de um corpo perfeito.

Declaro sempre minha paixão por gente. Apesar de muitas vezes frustrado por atitudes que me deixam descrente da pessoa humana – que é cheia de defeitos e age sempre por interesses – insisto em buscar no cerne da alma a divindade que nos caracteriza homo sapiens sapiens. É a essa busca que atribuo minha paixão pelo jornalismo. Muito além de reportar fatos, acumulo em meu ofício histórias de gente. Inclusive, já declarei aqui que é o humano que me inspira. Cada um carrega em sua história de vida um ponto comum a todos os seres, mas que é apreendido e compartilhado de forma particular.

Prega o cristianismo que somos feitos do mesmo barro e que também é único o nosso destino. Talvez por isso sejamos tão semelhantes em nossas aflições e angústias, anseios e desejos. Pouco importa o local onde nascemos, a família com a qual nos criamos, os amigos que cultivamos, se somos pobres ou abastados, cultos ou analfabetos, homem ou mulher... nossa busca é sempre a mesma.

Mas, afinal, o que buscamos? Liberdade? O paraíso? Um amor? Ou seria simplesmente paz de espírito? É isso o que almejo compreender. É essa curiosidade que me faz sentar ao lado de um mendigo e tragar com ele alguns cigarros que desencadeiam certa prosa, ou me faz reunir crianças em uma pracinha de interior e com elas conversar brincando. É com a mesma curiosidade que converso trivialidades com um artista famoso; que assisto a filmes; que leio livros. Qualquer oportunidade de conhecer gente é por mim aproveitada.

Em verdade, não é qualquer pessoa que me interessa conhecer (assim como não é qualquer filme que me atrai em uma locadora, ou qualquer obra que adquiro em uma livraria). É preciso muito mais que um rosto bonito para me despertar qualquer interesse de aproximação. É necessária uma capacidade de render assunto por mais de uma cerveja; uma fresta de sinceridade no olhar; certa sutileza de gestos; e uma empatia que, sinceramente, não esteja associada à afetividade ou à sexualidade.

Minha busca, marcada por encontros e desencontros, não é sempre voluntária. Em diversas situações o acaso (existe mesmo esse tal de acaso?) coloca em meu caminho pessoas que jamais imaginaria conhecer e que, de alguma forma e por algum motivo, se tornam singulares.

Há pouco tempo vivi um momento de fossa, daqueles “pára mundo que eu quero descer”. Para distorcer tal estado de espírito, me vali da volúpia ao exaltar os símbolos máximos da luxúria (quem já leu A Casa dos Budas Ditosos, saberá do que estou falando). Seria um fim de noite ainda mais imundo se não cruzasse meu caminho uma pessoa completamente diferente das que poderia encontrar naquela situação. Houve um bom diálogo, certa troca de experiências de vida e grande interesse, de minha parte, em conhecê-la melhor. Identifiquei-me muito com a história de vida dela. Apesar de conter fatos, ambientes e personagens diferentes, as experiências nos são muito semelhantes.

A princípio, não haveria qualquer possibilidade de um reencontro. Mas, algumas casualidades proporcionaram sim outros contatos. Não posso, de forma alguma, fazer qualquer juízo de valor em relação a ela, pois, infelizmente, tais contatos não foram suficientes para conhecê-la. Todavia, mais essa experiência serviu-me para fortalecer a única certeza que pude, até hoje, definir quanto às relações humanas (e que contraria o jargão popular): a primeira impressão, definitivamente, é a que NÃO fica.

20.8.07

Carpe Diem

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria; aperta e depois afrouxa e depois desinquieta. O que a vida quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a sorrir no meio da tristeza. Todo caminho da gente é resvaloso, mas cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta” – Guimarães Rosa

Voltei. Com certeza ainda não foi para ficar. Mas, cá estou: projetando, divagando, construindo, cantando e, principalmente, sorrindo. Observando a vida como quem assiste a um filme. Não se trata de encarar a vida como ficção, não é isso. Mas de sentir as emoções com a mesma naturalidade com a qual a retina capta a luz; de perceber o movimento do dia e da noite através dos sons; de oferecer ao paladar sabores que remetem à infância; de sorrir e chorar com a certeza de que há sempre mais surpresas.

Retirei da gaveta o (auto) roteiro inacabado. A experiência na escrita me ensinou que sempre vale a pena reescrever um texto. Aproveita-se as boas idéias e novos sentimentos melhoram o tom da narrativa. Diria que antes o foco era o teatro. Agora almejo a sétima arte! No tablado há um centro em torno do qual acontecem os fatos. Há superficialidade no trato com os personagens (por vezes até com o próprio enredo). Já no cinema há possibilidade de captar o todo; de dar destaque a um gesto que o mereça ou de pôr em extra campo algo que crie mais expectativas.

Quando pintado de romance, um roteiro ganha muito mais charme. Assim como ir ao cinema é mais gostoso quando bem acompanhado! Mas, isso é matéria de tempo (ou de vento, já disse algo semelhante aqui). Enquanto isso, “carpe diem”!

P.S.: A epígrafe já foi usada antes, mas pediu para ser repetida! E aos pouquíssimos leitores que ainda visitam o Solilóquios, agora acho que enfim conseguirei atualizar como pretendo!

9.7.07

Borboletas



Existe aquela velha teoria, relatada em filme, que demonstra que o simples bater de asas de uma borboleta no extremo norte do planeta pode resultar em um tufão no outro lado do mundo. Na verdade, tal teoria não procura necessariamente explicar um fenômeno físico, mas acrescentar artifícios à teoria do caos. O efeito borboleta, segundo o teórico que a definiu, pode influenciar o curso natural das coisas... (aqui, neste momento, só cabem reticências).

Algumas borboletas bateram suas asas anos antes do meu nascimento, e os efeitos pude perceber, multisensorialmente, no último dia 5. Psicodelia não se relata em palavras brutas, portanto me reservo ao direito de dizer somente que ouvir Panis Et Circenses ao vivo não tem preço.

Assistir ao show dos Mutantes foi metafísico, pelo complexo fato de ser Mutantes. E as borboletas no palco não têm explicação!

10.6.07

(Auto) Releitura

Relendo:
Água Viva – Clarice Lispector

“O risco – estou arriscando descobrir terra nova. Onde jamais passos humanos houve. (...) Meu número é 9. É 7. É 8. Tudo atrás do pensamento. Se tudo isso existe, então eu sou. Mas por que esse mal-estar? É porque não estou vivendo do único modo que existe para cada um de se viver e nem sei qual é. Desconfortável. Não me sinto bem. Não sei o que é que há. Mas alguma coisa está errada e dá mal-estar. (...) Abro o jogo. (...) Eu me aprofundei mas não acredito em mim porque meu pensamento é inventado.
(...)
Terei que de novo morrer para de novo nascer? Aceito.”




Não existem mentiras. Há verdades inventadas. Já fatos são fatos, não há discussão. É fato que algo está errado e é também fato o mal-estar. Arriscar é preciso. Assim como é urgente caminhar em nova terra ao próprio passo – e relatar a viagem com palavras também próprias. Autoconfiança é diferente de crença em si próprio. O jogo sempre esteve aberto esperando ser jogado. Aceitar a morte é metáfora para o recomeço.
Aceito.

22.5.07

Ao Vento


Explicar o que não se traduz em palavras?
Confortar quando não há consolo?
Falar de primavera em pleno outono?
Como?

Não houve tristeza, injúria ou blasfêmia.
Engano também não existiu.
O saldo é positivo, a beleza e doçura se destacam.
Medo?

Insegurança e incertezas.
Egoísmo acima da paixão.
Se não é para ser inteiro, que não seja apenas metade.
Zelo.

Resta o “se” depois do silêncio.
Sobra saudade depois do “se”.
Entendimento agora é matéria de tempo.
Ou de vento.





Relendo:
Soneto da Separação - (Vinícius de Morais)

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente

9.5.07

Do Quarto Azul


Em meio ao já comum (nem por isso aceitável) cotidiano caótico, me peguei dialogando com Cazuza novamente. Dentre várias confidências trocadas, percebi que ele estava certo: terapia faz perder a inspiração.

Uma pausa na madrugada para rever fotografias, reler anotações e buscar no cerne da alma algo que me inspire. Adormeci olhando fixamente o teto azul. Sonhei em azul.

Do azul surgiam projeções ilimitadas que em sua descontinuidade traduziam coerentemente meu caos interior: ânsia por compreensão. “Por quê? Para quê? Quem? Por quem? Para onde? Como?”

Ao despertar, de súbito meu olhar buscou o teto. E me ocorreu a dúvida: por que o azul? Não poderia deixar de haver pergunta, digo, perguntas. Inúmeras indagações que se projetavam na cor do teto e paredes e até na blusa, de mesma cor, que trajava.

A manhã era de um céu estonteantemente azul. Sem nuvens. Apenas questionamentos. Não dispunha de tempo, mas permite-me sentar no passeio e observar o vento. Sem perceber, abstraí-me do azul ao reparar as pessoas que por mim passavam.

Quando dei por mim, diversas pessoas que passaram pela minha vida retornavam em pensamento naquele instante. Marcas, sinais, e cicatrizes reapareceram em meu corpo.

Pegadas de gente que me fizeram descobrir o quanto dependo de gente. É o humano que me inspira. É a humanidade que me completa, ou me reduz.

Ainda não retornei ao quarto azul como naquela madrugada, para somente dentro dele estar - em corpo e mente.

Estou estando lá, não aqui. Redundante em tudo: no azul ou nas pessoas, nas lembranças ou nas expectativas. À exceção das dúvidas, que já são pleonasmo em mim!





Ouvindo:
Nature Boy (Eden Ahbez)
Voz: Caetano Veloso

There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Ovel land and sea
A litte shy and sad fo eye
But very wise was he

And then onde day
A magic day he passed my way
And while we spoke of many things
Fools and kings
This he said to me
"The greatest things you'll ever learn Is just to love and be loved in return "


3.4.07

Registros do Ano (ainda) Novo

Eterno retorno


“O teu amor é uma mentira
Que a minha realidade quer...”
- O Nosso Amor a Gente inventa



Conheci uma pessoa encantadora, como outras - igualmente encantadoras – que conheci recentemente. Porém, esta encanta pelo sorriso que tem, pelo brilho nos olhos quando fala, pela atenciosidade que demonstra e, sobretudo, pelas coincidências que representa. Conhecê-la foi mais que “dejá vú” e levou-me a ter certeza plena da “Lei do Eterno Retorno”. Tudo se repete sempre. Vivencio novamente o mesmo encantamento; os mesmos desejos e anseios; a mesma necessidade de estar ao lado, de ouvir e de ver; o mesmo não saber agir; as mesmas angústias; e, principalmente, os mesmos receios. Esse filme eu já vi diversas vezes. Sei qual é a próxima cena. Mas, não me canso de rever. Na verdade, é latente e incontrolável o pensamento de que “dessa vez vai ser diferente”; que a próxima cena será outra; que o final não será frustrante... Só espero não descobrir com o passar do tempo que, mais uma vez, seja o encanto maior do que a pessoa.

Encantamento



“...E as paredes do meu quarto
Vão assistir comigo a versão nova de uma velha história...”
- Down em Mim


Como já relatado em “Lindos Instantes, Doces Sentires”, o ano de dois mil e sete iniciou-se, para mim, imerso em poesia. Em tudo vejo o poético, o lírico e o lúdico. A palavra “encantamento” entrou em meu vocabulário para designar um estado de espírito feliz e profundo. Encanto-me a cada dia com tudo e com todos. Não vejo apenas flores e não sinto apenas cheiros suaves. Mas preservo maior o encantamento pela vida que as dúvidas da existência.

Pensar e sentir


“...Como pode alguém ser tão demende
Porra-louca, inconseqüente e ainda amar...”
- Bilhetinho Azul



“Nem à terra, nem ao mar”. Disseram-me ser este o segredo da longevidade e sabedoria: ter equilíbrio. A tartaruga marinha vive anos porque divide seu tempo entre a água e o solo. Inquieto, intenso e insano que sou, não consigo encontrar equilíbrio entre razão e emoção. Em verdade, duvido que exista. Almejo, ao menos, ter controle sobre minhas ações. Se penso, não ajo; se sinto, ajo torto, desenfreado. É aquela tal insanidade...

Para o oeste



“Meus heróis morreram de over-dose
E meus inimigos estão no poder...”
- Ideologia



Para o norte - dizem - devemos seguir. É para lá que me direciono há anos. Hoje, me vejo no caminho certo que me fora ditado. Colho bons frutos cultivados ao longo deste caminho. Porém, os sabores que gostaria de experimentar são outros. Minha bússula oscila muito e meu peito aciona alarme: é para o oeste que quero seguir, pois é lá que tem os frutos que me aguçam o paladar. Saudade dos 17 anos... Conseguia vislumbrar com mais coragem a possibilidade da colheita rara.

E se eu pudesse...



“...Será que existe prazer mais egoísta que o de cuidar de um outro ser?
E é por isso que eu te chamo: minha flor, meu bebê..”
- Minha flor, meu bebê



Não há maior encanto em minha vida que minha princesa Beatriz. É espantoso o seu desenvolvimento, o seu carisma, a sua beleza, o seu carinho e ternura. É egoísta o meu amor por ela a ponto de olhar para minhas mãos e ver somente as dela.


Entre amigos



“...Magia acima de tudo (...)
O irracional como aceitação do universo...”
- Querido Diário (Tópicos Para Uma Semana Utópica)



O ano novo chegou de verdade para mim. Mais um aniversário. Novo ciclo de vida que espero ser bem aproveitado. A comemoração foi em grande estilo: cercado de amigos e (re)vivendo experiências que diria serem, no mínimo, metafísicas (reitero a saudade dos 17 anos...)! Nunca tinha reparado, mas tenho amigos lindos. Senti-me imensamente feliz pela companhia de todos os - velhos e novos - amigos.

Solilóquios



“...Medo de voar, medo de amar (...)
Medo de fazer análise e perder inspiração...”
- Carta Dani



Cada dia que passa percebo com mais clareza a importância que este espaço virtual tem para mim. Não publico apenas meros registros de fatos. Não faço dele meu diário. É minha válvula de escape. É aqui que materializo meus sentimentos. Tenho escrito pouco aqui. Escrevo diariamente, mas não publico. Ainda tento compreender a “linha editorial” que traço no Solilóquios. Por enquanto, mantenho a premissa de que há sentimentos que não se pode, ou não se deve, compartilhar.


“Na bateria, no baixo e na guitarra... CAZUZA”



“...Pra poesia que a gente não vive
Transformar o tédio em melodia ...”
- Todo Amor que Houver Nessa Vida



Ariano, como eu, Cazuza completaria amanhã 49 anos. Me impressiono cada vez mais com a superioridade poética deste que foi, como apontado por Caetano Veloso, um dos maiores poetas do último século. Me identifico demais com a poesia dele; com seus sentimentos; com seus desejos; com a voracidade com a qual encarava a vida; com a sua “insanidade”. Não é por acaso que utilizei trechos de poesias do Cazuza como epígrafes destes registros. Cazuza compõe minha trilha sonora, sempre.




"Olhar o mundo com a coragem do cego
Ler da tua boca as palavras com a atenção do surdo
Falar com os olhos e as mãos como fazem os mudos"

Cazuza

1.3.07

Valores morais x maioridade penal

Quanto vale uma vida? Qual é o tempo de uma vida? Qual deve ser o trajeto da vida? Uma tragédia em sete quilômetros não é capaz de responder a estas perguntas. Mas, sugere outros inúmeros questionamentos. Em meio a estes, surge a pergunta: “E aí, nós não vamos fazer nada?”

Na última terça-feira, o Brasil inteiro ansiava pela dissolução do triângulo amoroso do BBB-7. Toda a ansiedade foi anestesiada quando os pais de João Hélio contaram, minutos antes do reality show entrar no ar, a triste página que marcou suas vidas.

“Você não vai fazer nada?”, perguntou-me a mãe do garoto. Ela se dirigiu a mim, transparecendo toda a dor de uma mãe que acaba de perder o filho, e perguntou-me se eu não iria fazer nada. Pensei na integridade da vida de minha filha. Contive as lágrimas e perguntei a mim mesmo: E então, eu não vou fazer nada?

Ouço o rádio e o locutor pergunta: “E aí, nós não vamos fazer nada?”. Caminho pelas ruas e um outdoor me chama atenção com a pergunta: “E aí, nós não vamos fazer nada?”. Folheio jornais e revistas e deparo-me com a pergunta: “E aí, nós não vamos fazer nada?” Entro no MSN, acesso orkut, visito blogs, portais de notícias e em todos os lugares virtuais alguém também me pergunta: “E aí, nós não vamos fazer nada?”.

Fazer o que? Repetir mais uma vez a pergunta “E aí, nós não vamos fazer nada?”?

Compreendi o que querem que eu faça: que cobre das autoridades a redução da maioridade penal. Aliás, percebi que, mais do que pedir por justiça, querem que eu participe da discussão quanto à maioridade penal.

É tudo muito repetitivo. A pergunta, o termo “maioridade penal” e, sobretudo, a banalização da vida.

O sofrimento dos pais do garoto assassinado no Rio de Janeiro é um sentimento que desejo nunca experimentar. Tento ser empático, mas chego a ter medo de me colocar no lugar daquele pai. A aflição e a dor da mãe desta criança, ao vê-la ser arrastada até a morte, são imensuráveis e inimagináveis.

Mas, questiono: será o sofrimento desta família, que perdeu uma criança de forma tão selvagem – para não dizer demoníaca – maior que o de um pai que perde o filho vítima de uma bala perdida? E da mãe que perde o filho nos braços, esperando por atendimento médico? E da tia que perde o sobrinho, já órfão, vítima de acerto de contas do tráfico?

O Brasil precisa repensar o tratamento dado aos criminosos menores de dezoito anos. É preciso que algo seja feito para que tragédias como essas não ocorram novamente. Mas, será que é disso mesmo que o país precisa? Dar aos menores o mesmo tratamento dado aos bandidos adultos? Sem dúvida isso precisa mudar. Se um jovem de dezesseis anos já tem autonomia para decidir o futuro político do país, ele é autônomo suficiente para responder civilmente pelos seus atos.

E quanto aos meninos de quatorze, treze ou doze anos? Devem ser tratados da mesma forma que os de dezesseis? Se o desvio de conduta é uma questão de ausência de valores morais, pergunto o que fazer com uma criança de cinco anos que se espelha no pai ou no irmão e diz que quando crescer quer ser bandido. É possível, nas condições em que essa criança vive, ensinar-lhe valores diferentes? Tem o Estado interesse em ampará-la? Acho que esta criança deve ser presa imediatamente ao revelar que quer ser bandido. Ela é um transgressor em potencial, e talvez antes dos dezesseis mate diversos coleguinhas do bairro.

Estou sendo muito radical. Ater-me-ei novamente à problemática da redução da maioridade penal para dezesseis anos. Afinal, é um absurdo que um jovem que comete um assassinato nesta idade, seja solto após dois anos.

E aí, Legislativo? Não farão nada? Não reduzirão a maioridade penal? Não escutam o apelo dos pais de João Hélio Fernandes, 6, arrastado por sete quilômetros? Já estão fazendo, eu sei. Já está em pauta essa discussão.

Então, mudo a pergunta: findo o debate, seja qual for o resultado, ouvirão também o apelo de outros pais? Será que, ao menos, na próxima eliminação do BBB, com audiência nas alturas, será veiculado o apelo de uma mãe que não tem condições de mandar o filho para a escola porque não tem como vesti-lo? Ou será dada voz ao pai que não consegue alimentar sua família? E àqueles que sofrem nas longas - e infrutíferas – filas dos hospitais públicos, daremos razão aos seus clamores? E mais: faremos alguma coisa se os ouvirmos?

“Calma”, me dizem. Tudo isso faz parte de um processo salutar. Vamos primeiro decidir se um adolescente deve ou não cumprir pena pelo crime que comete, assim como a um adulto. Isto é urgente. É para ontem. Depois tratemos as raízes da violência.

Por falar em violência, foi bárbaro o assassinato daqueles franceses, também na belíssima Rio de Janeiro. Mais um crime bárbaro. Mais um monstro criado em nossa sociedade democraticamente desigual. O assassino, desta vez, não estava totalmente à mercê dos governantes. Não sofreu tanto as mazelas que cabem aos excluídos. Ele fora acolhido pelo casal quando ainda não possuía a maioridade penal. Recebeu acesso à saúde e à educação. Faz parte hoje da elite cultural que tem acesso ao ensino superior. Ao casal que lhe deu tudo, retribuiu com a morte. Mas, felizmente, nossa legislação garante que pague pela atrocidade que cometeu, já que possui mais de dezoito anos.

O caso “João Hélio” ganha manchetes diárias. Os franceses também estão ganhando. Guido Mantega, presente na mídia devido aos assuntos relacionados ao Ministério que representa, também ganhou alguns “abres de página” ao ser vítima da violência urbana. E quanto aos mortos anônimos? E às vítimas da violência banal, corriqueira? E quanto aos bandidos adultos, especializados e impunes? Nós não vamos fazer nada?

15.2.07

Cabeça Ativa

Poesia é uma droga. Corrompe a gente. No primeiro contato você nem gosta tanto. Mas, sem que você planeje ou procure, a poesia te encontra de novo. E lá está você, se entorpecendo. Começa a curtir a onda, percebe que dá barato... e pronto. Ela te corrompe até te dominar.

Você acha que ela é inofensiva, mas não é. Ela te corrompe até te dominar, escute bem isso. Para fazer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, você precisa dela – poesia maldita. Chega um ponto que você pira. Você consome tanto, mas quer sempre mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e mais e começa a ver poesia em tudo: em bunda, em poste, em madeira, em nuvem e até em gente morta. Qualquer coisa só faz sentido para você por causa da droga. Tem que ter poesia para você curtir a vida.

Você chega ao ponto de xingar Deus. E ainda acha bonito: “É barroco!” Também pudera. Quem começa com alguns versinhos, dia ou outro, logo, logo salta para alguns sonetos “só nos fins de semana”. Ledo engano. O próximo final de semana demora, maluco. “Segunda-feira é sagrado”, eu sei. Já na terça, que mal há uma trovinha, ou uma odesinha?! Coisa pouca. Bobagem.

Vicia neguinho. Escuta o que eu estou te falando: droga vicia e mata. Aposto que você acha que poesia não mata. É assim mesmo. Depois, você mesmo chama pela morte. A poesia transborda tanto na sua vida, que você começa a achar que as belezas daqui não têm mais mistério. E você quer mais, sempre mais. E vai buscar nos enigmas da morte outras belezas que encantem mais o seu torpor. Conheço muitos que morreram assim: over-dose de poesia. Não acredita? Sá Carneiro, conhece? Nem procure saber. Não se aproxime de gente assim. Poesia corrompe a gente, eu já te disse.

Escute o que eu estou falando: poesia é droga. Quer ficar de boa? Fuma um baseadinho e vai ver a vida passar. Mas fuja da poesia. É droga pesada, cara, sai dessa. Se não, quando você se der conta, estará ouvindo vozes. É impossível controlar. Elas formulam palavras que te confundem e que lhe pesam como chumbo. Reproduzem som ritmado que te envolve e repetem rimas para te manter atento.

Escuta o que eu estou te falando: poesia é droga. Poesia libera enzimas que afetam todos os seus sensores, e estimulam todos os seus hormônios. A adrenalina vai a mil e o coração dispara. As pupilas se dilatam para captar mais luz, ao extremo de você se julgar capaz de enxergar no escuro. Se misturar poesia a álcool então... é bomba! E o que é pior: nem te dá ressaca.

Poesia te engana e você nem percebe. Vicia, neguinho. E quando ela te falta, você passa noite em claro tentando encontrar ao menos uma linhasinha para saciar teu vício. E se você não a encontra, o peito dói. A garganta fica seca e você quer apenas chorar. E nem derramar lágrimas você pode mais, porque seu corpo também depende dela - droga maldita.

Então, escuta o que eu estou te falando. Mexe com poesia não, cara. Fica de boa. Fuma um baseadinho e vai ver a vida passar.


Ouvindo:
O Outro - (Mário de Sá Carneiro)
Voz: Adriana Calcanhoto

Eu não sou eu
Nem sou o outro,
Sou qualquer coisa
De intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim
Para o outro.

16.1.07

Lindos instantes, doces sentires

Faltava tanta poesia.

O peito vazio. As mãos pareciam perder, lentamente, o tato. O olfato percebia apenas cheiros ácidos. Os ouvidos já não ouviam, apenas escutavam. A visão estava torpe. A alma opaca.

Tinha que haver mais poesia.

Inquieto áspero e desesperançado perdia-me na busca por mim mesmo. Mas, uma estrada indicou-me a possibilidade do reencontro . De passagem nas mãos e bagagens nas costas, segui trecho da Estrada Real rumo a Itambé do Mato Dentro/MG. E, novamente, perdi-me.

Encontrei muita poesia.

Cores, formas, aromas, sabores, sons e magia em excesso. A sensibilidade de meus (seis ou sete, quem sabe) sentidos foi estimulada de uma só vez - e em demasia. Como não ficar perdido? Para quê conter tanta emoção?

Pessoas lindas me eram poesia bruta - e viva. Cella (sempre) Sing, Jay Jay e DD, Luan de Paula e Paula de Luan. Seres belíssimos. Apaixonantes.

Paisagens bucólicas. Serras - inúmeras serras - verdejantes. Finas garoas. Águas abundantes, que brotam por todo o solo, coloridas pelas rochas. Banhos em rio para limpar o corpo e em cachoeiras para lavar a alma.

Reveillon místico. Nada de balanços ou projeções. Apenas poesias - carícias para corpo, mente e espírito. Lágrimas de alegria banharam-me na madrugada. Na manhã do novo ano, mais brilho nos sorrisos que no céu.

A matemática (que já ouvi dizer é a loucura do raciocínio) fora curiosa: no início eram dois aos quais somou-se um. Aos três somaram-se mais dois. Agrupou-se mais um junto aos cinco e éramos, enfim, seis. Quatro dias. Três casais. Nenhuma incógnita. Logo, dois se separaram, ficaram quatro. Mais dois se retiraram e restamos dois.

Em dupla, seguimos rumo a outras viagens incríveis, inesquecíveis e, quase, indescritíveis. Permitimos que os instantes se fizessem acontecer por si. Não interferimos no acaso. E o universo inteiro conspirou a nosso favor.

No início havia um certo vazio entre nós. O perfume das flores que nos entorpecia nos primeiros quatro dias já não estava no ar. Mulheres... mais que o aconchego da pele na pele, oferecem-nos conforto. E fazem-nos muita falta.

Mas lá estava ela. Imponente. Forte. Belíssima. Carinhosamente apelidada por nós de Cataratassa, tamanha sua força e exuberância. Acampamos atrás da queda da cachoeira, a cerca de um metro e meio da água. Fomos envolvidos pela força da natureza que se manifesta bruta no atrito das águas com as rochas.

“Sonho que se sonha junto é realidade”. Sinergia. Houve entre nós um companheirismo cuja sintonia não carece de explicação. Ganhei um irmão. Nossa parceria há de dar certo. Abençoada já está.

Sentindo a vida pulsar e o sangue correr cada vez mais veloz, compusemos um linda canção. Incompleta, talvez porque não mereça fim. Talvez deva ser como o som daquelas águas: contínua.

Se nos primeiros dias havia muita poesia, nos dias em que ficamos reclusos junto à cachoeira era poesia o que respirávamos. Poesias em prosas. Poesias em versos. Poesias musicadas. Silêncios poéticos.

Permitimo-nos não contar o tempo. Apenas senti-lo. Contemplávamos o “é” das coisas e, assim, sentíamos a beleza da vida.

Contemplação. Esta é a palavra. Observar com admiração. Contemplar se torna ainda mais completo quando se percebe que são os instantes que dão significado à vida.

Todos os instantes foram marcados pela contemplação. E no instante em que observávamos o belo, vi o mais lindo de todos os girassóis.

Em um outro instante, recaíram sobre minha cabeça todas as dúvidas da humanidade. Na razão, apenas uma certeza. Mas, esta não fora, de forma alguma, mais importante que as dúvidas.

Foi tanto sentir. Tanto encantamento. Tentei agarrar todos os instantes a fim de que as sensações se tornassem permanentes. Mas cada instante guarda a sua magia. Os sentimentos lá despertos são perenes. Estão enraizados na memória, para jamais esquecer.

Faltam-me palavras. Minto. Sobram-me palavras. O que aqui registro é apenas o excesso, o que me transborda. Há sentimentos que não se pode, ou não se deve, dividir.

Tinha eu uma sensação plena de felicidade. Não estava alegre, mas sentia-me imensamente feliz e sereno. Talvez fosse um estado de transe ou, de fato, tenha sido envolvido por uma energia cósmica que me foi benéfica e transformadora.

Aprendi muito. Apreendi muito. Sobretudo com os bois. Animais grandes, fortes. Nada hostis. Vivem em grupos. Têm comportamento delicado. Caminham lentamente. Comem com calma. Comunicam-se com os olhos. Mas não sabem cantar. Se cantassem, ganhariam asas. E como dito por Chico, boi voador não pode.

Mas nós podemos cantar. E cantamos muito. E embalados pelas músicas, voamos alto. Voamos além. Ultrapassamos as montanhas de Itambé. Flutuamos sobre os campos. E para o descanso, cá na terra, deixamos a correnteza do rio nos levar.

Mas, é chegada a hora de voltar. E no dia de nosso regresso o céu, finalmente, se abriu. E para despedir, mais banho de cachoeira.

Voltei sereno. Feliz. Otimista. Foi lindo. Foi tudo muito lindo. 2007, que promete, começou lindo!

Penso logo existo, é a máxima. Se existo, logo penso. E pensando assim pensei que penso pouco frente a tudo que se deve pensar. Por isso sinto. E assim, sentindo, me encontrei perdido. É aquela certa insanidade - que sempre me faz bem.

Para minha vida, quero sempre poesia.

28.11.06

Sonetos

Tem que haver mais poesia
Se não tudo perde a graça
Nada mais tem rima
E a vida se esvazia

Não dá para olhar o mar e só ver água
Observar o céu e só contar estrelas
Tem que haver liga na matéria
Tem que haver mais poesia

É preciso ter mais luz nos olhos
Mais sensibilidade nas mãos
Mais acústica nos ouvidos

Para sobreviver não é preciso poesia
Mas eu quero é viver
Eu preciso de mais poesia

*

Sinto fome
Tenho estado insone
O pensamento sempre longe
Parece que o mundo me consome

Ideologia perdi
Com Deuses rompi
Rezas esqueci
Em nome de Santos – confesso - menti

O peito dói
Algo dentro, bem ao centro, corrói
E a mente desconstrói

Sem poesia não dá
Sem poesia não pode
Poesia é a própria vida

Ouvindo:
Que o Deus Venha – (Cazuza - Frejat - Clarice Lispector)
Voz: Cássia Eller

Sou inquieto, áspero
E desesperançado
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha
Feito farpa

Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho, mas no entanto
Continuo inquieto
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais

Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É o inesperado
Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida

9.10.06

Enquanto escrevo

“Ninguém sabe quem sou eu
Também já não sei quem sou
Eu sei bem que o sofrimento de mim até se cansou
Na imitação da vida, ninguém vai me superar”
Batatinha


Garanto que se pudesse, voltaria no tempo. Não para mudar algo, mas para viver tudo novamente. O passado guarda sabores incomparáveis. Tantas descobertas, tantos encontros, tantos sonhos... Únicos pela novidade, e pelo entusiasmo.

[Um dia, a saudade me tocou e desejei telefonar-lhe. Era tarde. Passavam das dez e não queria incomodar. Meses depois, quando o desejo de ouvir-te voltou, tomei às mãos o telefone, mas exitei. Chovia muito, o céu estava cinza e talvez, de mau humor, não me recebesse bem.]

Imagino que reviver o passado seja uma forma de manter viva a criança que fui. Lembro do brilho que meus olhos tinham e toda avidez com que enxergava o mundo. Esse mesmo brilho, hoje, perdeu parte da essência. Então, olho para trás e o recrio na lembrança.

[“Lembra-se daquela tarde em que lhe confiei um segredo?” Seria essa a pergunta que faria se tivesse telefonado. Não me recordo da confidência que fiz, mas lembro perfeitamente da sombra das árvores, do cheiro de menta e do seu sorriso. Tive medo que me respondesse com desdém, e novamente exitei em ligar.]

Habituo-me com o novo facilmente. Mesmo inseguro, gosto do desafio. Mas percebo que antes encarava a novidade com um encantamento indescritível e imensurável. Não havia, em mim, o receio pelo desacerto. A aventura era sempre a melhor parte da viagem. Agora crescido, me intimido pela incerteza e, muitas vezes, recuo.

[Encontrei uma foto que registra algo que comemorávamos. Ative-me apenas à ternura com a qual nos abraçávamos. Tínhamos uma cumplicidade mútua e pouco importaria saber, hoje, o que era comemorado. Quis muito lhe enviar a foto, mas julguei que não me reconheceria. Guardei-a com carinho.]

Recordo com uma clareza incrível as sensações de todas as descobertas de outrora. O frio na barriga, as pernas trêmulas, as mãos suadas. Até os cheiros e sabores meus sentidos são capazes de recriar. O prazer que tenho por essas lembranças é imenso, por isso sempre as busco.

[Mais uma vez apanhei o telefone. Encontrei um bilhete com a sua letra e tomei coragem de ligar. Mas se eu falasse do bilhete você zombaria de mim. Exitei. Talvez, num próximo ímpeto, eu ligue e consiga dizer o quanto você ainda é presente em minha vida.]

Encontro no tempo já vivido respostas para o caminho que percorro hoje. Percebo que minha dependência do passado é, na verdade, fruto da intensidade com que vivo o meu presente. No futuro, eu sei, ao reler estes textos direi - com lágrimas nos olhos: “Garanto que se pudesse, voltaria a esse tempo”.

27.9.06

Epígrafe

"Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime." Álvaro de Campos

18.9.06

"About Me"

Está no Orkut:


Desde criança, tomo o cuidado de NÃO andar sempre na linha.
Por quê?
Porque chega uma hora em que o trem passa, então não corro o risco de ser atropelado. Mas jamais me
afasto muito dos trilhos, pois tenho receio de perder o rumo certo.
Sou
mais lírico que lúdico;
mais homem que menino;
mais pai que filho;
mais sensato que insano;
mais eu que você.

Prefiro
o profano que o sagrado;
o campo que a praia;
a aurora que o alvorecer;
o cinema que o teatro;
a música que a dança;
o livro que a TV.


Não é só isso. Ou melhor: não sou apenas isso. Toda vez que releio esta minha auto-descrição tenho certeza que falta alguma coisa. Na verdade, falta muita coisa.

No primeiro post do Solilóquios, no qual revelo o objetivo da criação deste espaço, cito um trecho do texto “Passagem das Horas”, do Fernando Pessoa. Esse texto me descreve completamente. Ouso dizer que Pessoa o escreveu pensando em mim, de tão fidedigno que é. Ele apenas inventou a viagem à África porque, de resto, sou exatamente como descrito.

Sempre que penso nessa questão (“quem sou eu?”), relembro os meus 17 anos. Que saudade daquela época... As vezes acho que naquela idade eu era realmente o que sou. Noutras, porém, sinto que eu era o que queria (e ainda quero) ser.

Toda essa “viagem” rende um post muito minucioso. Ainda quero fazê-lo, não para que os leitores (pouquíssimos, por sinal) deste blog me conheçam, mas para que me sirva como peça - ou instrução - do quebra cabeça que é a minha cabeça (quanta redundância, meu Deus!).

Vida corrida; um certo “frisson” pelas perspectivas próximas; muito receio pelos mudanças vindouras; saudade dos tempos felizes – o passado é sempre melhor; e aquela certa insanidade (que até que me faz bem) também.

Ouvindo:
Insensatez – Vinícius de Morais e Tom Jobim
Voz: Mônica Salmaso

Ah, insensatez que você fez
Coração mais sem cuidado
Fez chorar de dor o seu amor
Um amor tão delicado
Ah, por que você foi tão fraco assim
Assim tão desalmado
Ah, meu coração, quem nunca amou
Não merece ser amado

Vai, meu coração, ouve a razão
Usa só sinceridade
Quem semeia vento, diz a razão
Colhe sempre tempestade
Vai, meu coração, pede perdão
Perdão apaixonado
Vai, porque quem não pede perdão
Não é nunca perdoado

30.8.06

Se Sobrar Tempo...


Ah... essa falta de tempo. Estou estressado, estafado, desorientado, desesperado, inconsolável e... sem tempo. Sequer posso curtir meu estresse sossegado (contraditório, não?!), porque a todo instante tenho algum compromisso, algo urgente para fazer, etc. Filha, trabalho, estudo, família, namoro, amigos... impossível estabelecer prioridades em função do ritmo que tenho vivido.

Preciso decretar feriado. Estou pensando em criar o “Dia D’eu”. Isso mesmo: DIA D’EU - de eu; de mim para comigo mesmo; ME MIM COMIGO. Uma data, necessariamente flexível (poderei decretá-la quando melhor me convier), em que EU possa ME curtir. Nada de curtir alguém ou alguma coisa. Curtir a mim mesmo, mesmo. Ficar massageando meu dedão do pé ou fazendo cócegas em meu umbigo. Não importa, o imprescindível é que seja um dia exclusivamente MEU. E foda-se o mundo porque meu nome não é Raimundo (e não critica não, porque no MEU dia eu poderei dizer quantas piadas velhas e amareladas quiser)!

No MEU dia eu não vou querer saber de nada, de ninguém, só de mim. E não vou passar nem perto de televisão, rádio, internet ou banca de revista. Não me importará se encontraram mais sanguessugas sugando sangue alheio em UTI’s móveis; se houve homicídio assim ou assado aqui ou acolá; se o Cruzeiro caiu de vez do céu; se o Galo está cantando realmente forte; quem é parente próximo da UB313 ou quantos planetas tem o sistema solar; se o PCC é quem manda; se o Lula sabe ou não sabe alguma coisa nessa vida... NADA, não vou querer saber de NADA. Só de mim.

Também não farei absolutamente nada no dia “D’eu”. Nada, ouviu? E não adianta telefonar porque eu não vou atender, estarei muito ocupado (exatamente, quero o "Dia D'eu" para ficar ocupado COMIGO) massageando meu dedão do pé e fazendo cócegas em meu umbigo. Só espero que até lá – o dia em que sobrar tempo para decretar o “Dia D’eu” – eu consiga, ao menos, dormir um pouco. Isso se sobrar tempo...

22.8.06

Mais Louco é Quem me Diz


Dizem que sou louco. De fato, tenho a impressão que realmente o sou. “De médico, poeta e louco, todo mundo tem um pouco”, já diz o provérbio. Mas, afinal, o que é ser louco?

Os dicionários apresentam que louco é aquele que perdeu a razão. Sob essa perspectiva, que atire a primeira pedra aquele que jamais tenha sido acometido por impulsos que lhe fugissem à racionalidade. Paixão, ira, vingança, entre outros, são sentimentos que nos fazem, diversas vezes, agir sem pensar.

Mas a loucura é isso? É simplesmente “agir sem pensar”? É claro que essa discussão exige embasamento teórico profundo. Inúmeros são os estudiosos que se dedicaram – e ainda dedicam – a compreender os mecanismos da psique humana e não devem, de forma alguma, serem ignorados. Mas não pretendo, aqui, escrever um artigo sobre o tema.

Venho me dedicando há algumas semanas a produzir uma reportagem sobre a luta antimanicomial, movimento que objetiva acabar com os manicômios no Brasil. Tive a oportunidade de visitar o Hospital Colônia de Barbacena, o “lendário” manicômio do Estado onde milhares de pessoas sofreram os horrores de um sistema psiquiátrico ineficaz, autoritário e desumano. Em Barbacena, pude conhecer vários portadores de sofrimento mental, mais conhecidos como “loucos”.

Como leigo no assunto, posso afirmar que a doença mental é algo assustador. Ao contrário do “poetismo” ou “humorismo” empregado diversas vezes à figura do louco, percebi, durante o tempo em que estive nos manicômios da cidade de Barbacena, uma realidade dura, e difícil de ser compreendida.

Observei em meu contato com os pacientes dos hospitais psiquiátricos que cada um deles vive em seu próprio mundo, em sua própria realidade. Seria essa a ausência de razão? A resposta, ao que tudo indica, não é tão simples. São inúmeros os distúrbios mentais – psicopatia, esquizofrenia, psicoses, entre outros – e para cada um há um tipo de comportamento, de sintoma, de sofrimento.

Profissionais da área da saúde mental relataram-me algumas “ausências de razão” às quais os loucos são acometidos, e fiquei impressionado. Vai muito além de uma pessoa afirmar ser Napoleão Bonaparte, ou escutar vozes. Já imaginou o que é ter seu corpo desmembrado? Imagine então que de uma hora para outra você vê seus braços serem descolados dos ombros, suas pernas se dissolverem no ar... Loucura isso? Sim, é uma loucura. Com a ressalva de que o doente mental não “acha”, por exemplo, que seu corpo está sendo desmembrado, ele tem certeza que isso acontece. Ele não só vê, como sente. Essa é a realidade para ele. (OBS: como disse, são inúmeros os distúrbios mentais e a cada um se associa um tipo de comportamento, sintoma, sofrimento, etc)

Com o pouco (que não é tão pouco assim!) que tenho lido, escutado, discutido e observado sobre a loucura nos últimos dias poderia discorrer linhas e mais linhas de textos (principalmente de questionamentos). O assunto é muito amplo, muito complexo e, particularmente, fascinante.

Em afirmativa pessoal (e filosófica!), concluo minhas observações em relação à loucura da seguinte forma: a insanidade dos loucos possui razão que a justifique, já a insanidade de nós, “normais”, essa não tem a mínima razão, não se explica.

Do Pombal

Deus sabe que, entre gatos e pombos, eu sou francamente pela primeira espécie. Acho os pombos um povo horrivelmente burguês, com o seu ar bem disposto e contente da vida, sem falar na baixeza de certas características de sua condição, qual seja de, eventualmente, se entredevorarem quando engaiolados.

Vinícius de Morais

28.7.06

Déjá Vu


A festa estava linda. Muita bebida, comida e diversão. A música embalava paixões, selava amizades, potencializava a alegria. Ninguém esperava a chegada dos bárbaros. Intrusos atrozes que acabaram com a alegria dos que festejavam e mudaram, drasticamente, a vida daquelas pessoas.

Após a invasão, restaram apenas cinzas do vilarejo. E destroços das almas.

Porém, daquelas almas, os bárbaros não conseguiram furtar a esperança. Da coragem surgiu a força propulsora para se reerguerem e, em terra distante, retomarem o rumo de suas vidas. Os bárbaros venceram, mas não foram vitoriosos.

Uma belíssima carreira como professor universitário, filhos bem sucedidos, bem estar e status social. Resultado de uma vida de dedicação ao trabalho e aos estudos. O que mais poderia ele querer? Até a invasão, esse foi o sentido de sua vida.

Com a descoberta da doença, que determinava o fim próximo de sua vida, ele percebeu que jamais dedicou-se, como deveria, aos seus verdadeiros e valiosos bens: esposa e filhos. Precisou receber o decreto da morte para refletir sobre o rumo que dera à sua vida.

Já era tarde. Não havia mais tempo. Para evitar o sofrimento dos dias que se passavam lentos, ele antecipou a morte. Os bárbaros venceram. Ninguém foi vitorioso.

Inúmeras são as invasões bárbaras em nossa vida. Umas mais fortes, outras mais violentas, outras mais brandas. Seja como for, têm o poder de desconstrução. Derrubam valores, reformulam ideologias, abalam alicerces.

Vence o mais forte, sempre. Sai vitorioso aquele que não sucumbe, que não se desespera. Que é capaz de enxergar nas chamas o combustível para prosseguir. Que percebe na mudança forçada a oportunidade de progresso.

A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Creio que seja a primeira alternativa. Se a vida imitasse a arte, a poética perderia o seu sentido. A arte sempre me faz pensar na vida, não o contrário.

"Déjá vu" ou “eterno retorno”? Não estou certo. Sei apenas que ambas experiências me assustam muito, tanto quanto as invasões bárbaras.

24.7.06

No samba, na bossa, na fossa

Tudo bem, eu concordo. Por mais que diga o contrário, sempre estou em busca de certa tristeza, certa melancolia. Hora por necessidade de chorar, hora por precisar de atenção, hora para valorizar mais a vida.

Fazer o que se gosto de samba? Caetano mesmo disse: “a tristeza é senhora, desde que o samba é samba é assim”. Para fazer samba é preciso um pouco de tristeza. Para gostar do samba, é necessário um pouco de dor.

Fazer o que se gosto de bossa? Bossa-nova é nostalgia, e é também esperança. E, assim como o samba, “é preciso um bocado de tristeza” e de “amor numa cadência” para que a grande magia da bossa-nova aconteça.

Fazer o que se estou na fossa? Reler poemas, relembrar textos, lembrar do passado e sonhar com o futuro. E, claro, ouvir ainda mais samba e ainda mais bossa, porque “cantando eu mando a tristeza embora”.



Ouvindo:
Samba a Dois (Marcelo Camelo - Los Hermanos)
Voz: Marcelo Camelo
Quem se atreve a me dizer
do que é feito o samba?
Quem se atreve a me dizer?

Não, eu não sambo mais em vão
O meu samba tem cordão
O meu bloco tem sem ter e ainda assim
Sambo bem a dois por mim
Bambo e só, mas sambo sim
Sambo por gostar de alguém gostar de

Me lavra a alma, me leva embora
Deixa haver samba no peito de quem chora

Quem se atreve a me dizer
do que é feito o samba ?
Quem se atreve a me dizer?

Quem me ensinou a te dizer
Vem que passa o teu sofrer
Foi mais um que deu as mãos entre nós dois
Eu entendo o seu depois
Não me entenda aqui por mal
Mas pro samba foi vital falar em

Me laça a alma, me leva agora
Já que um bom samba não tem lugar nem chora

Nem se atreva a me dizer
Do que é feito o samba
Nem se atreva a me dizer

10.7.06

A Canção de um Sonho

Lugar qualquer, violão, talvez uma bebida. Tu e eu entre beijos e carícias; sonhos e confidências. Nenhuma jura, nada de promessas. Apenas o desejo de sermos, um para o outro, como uma canção, uma doce e suave melodia a embalar nossas almas no momento tácito da paixão.

Um olhar. Não foi necessário mais que um simples piscar de olhos - sem intenções, sem nada dizer. E o encanto se fez. Logo percebi o tom da pele clara; o cheiro suave dos cabelos; as mãos e os pés; nuca e ombros. Vi-me, assim, descobrindo seu corpo em pensamento. Sem pudor, acredite. Como um bebê descobre o conforto do calor da mãe, ou a segurança da posse física do pai, ousei sentir-te. Repito: em pensamento.

Ainda que pareça loucura, ou mesmo que me acusem insano, te guardarei em meu peito. E velarei teu sono. E sorrirei com teu riso. E me derreterei em sua lágrima. O mundo que nos separa alimenta ainda mais o meu desejo. E, pobre que sou, me basto com a tua lembrança.

No verde suave dos teus olhos a minha esperança se reflete. Expectativas de que um dia eu possa confessar-lhe a paixão que me arrebate e arrefece
. Se confidenciar-me o mesmo, usarei do lugar comum e direi “que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. Caso me pergunte o que conduz meus versos, ou o que me faz lembrar Vinícius, em resposta pedirei: cante mais um pouco.

Ouvindo:
Paula e Bebeto (Milton Nascimento e Caetano Veloso)
Voz: Milton Nascimento

Ê vida vida que amor brincadeira, a vera
Eles amaram de qualquer maneira, a vera
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor vale amar

Pena que pena que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor vale amar
Qualquer maneira de amor vale a pena
Qualquer maneira de amor valera

Eles partiram por outros assuntos, muitos
Mas no meu canto estarao sempre juntos, muito
Qualquer maneira que eu cante esse canto
Qualquer maneira me vale cantar

Eles se amam de qualquer maneira, a vera
Eles se amam e e pra vida inteira, a vera
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valera

Pena que pena que coisa bonita, diga
Qual a palavra que nunca foi dita, diga
Qualquer maneira de amor vale o canto
Qualquer maneira me vale cantar
Qualquer maneira de amor vale aquela
Qualquer maneira de amor valera

28.6.06

Sobre viagens e terrorismo

Que vontade de viajar... Em janeiro, durante minhas férias, viajei para Belo Horizonte (vide alguns posts abaixo). Foi bacana, mas faltaram algumas coisas básicas, como pegar estrada e ficar hospedado em algum lugar (que não minha casa!).

Semana que vem entro de férias novamente (Não, eu não sou deputado. Tenho férias coletivas na empresa duas vezes por ano: 20 dias em janeiro e 10 em julho, ou seja, TRINTA DIAS como manda o CLT). E, assim como em janeiro, ficarei em BH.

Acho que nada me proporciona tanto prazer quanto viajar. Amo estrada; adoro parada de ônibus em BR às 3 da manhã; sou apaixonado pela paisagem das estradas de Minas; me fascina conhecer pessoas de outros lugares; me sinto muito mais eu quando estou fora de minha cidade.

Uma das coisas que faço sempre quando viajo é puxar conversa com as pessoas. Mineiro, sabe como é né?! É curioso como minha timidez desaparece fora de Belo Horizonte. Chego em qualquer grupo e vou logo puxando assunto. Além, é claro, de ficar íntimo do dono do buteco e da dona da pensão!

Semana passada fiz algo, para mim, inusitado a não ser em minhas viagens! Passando de ônibus na Afonso Pena, por volta das 8 da noite, vi um carinha sentado embaixo de uma árvore na Praça 7 tocando violão. Achei a cena o máximo! Dei sinal e saltei do ônibus. Cheguei próximo do carinha, disse “colé!” e me sentei ao lado dele. Acompanhei três músicas e fui embora. Se estivesse viajando, com certeza ficaria horas sentado ali, e chamaria outros transeuntes para se juntarem a nós.

Segui meu caminho sem saber o nome do maluco, de onde vinha ou para onde pretendia ir. Me ative apenas à situação: um cara sentado sozinho, àquela hora, em plena Praça 7, tocando violão.

Lembrei-me do ocorrido após ler um texto enviado pela Mah sobre “Terrorismo Poético – TP”, de Hakim Bey. Resumindo um pouco, o TP consiste em praticar atos capazes de provocar reações tão fortes quanto o terror, por meio de choques estéticos, poéticos, líricos e lúdicos.

O que me chamou a atenção no carinha da Praça 7 foi justamente o choque estético. O cara estava no meio da Praça mais movimentada da capital, fazendo música apenas. Bem diferente daqueles “artistas de rua” que ganham a vida com a “arte da praça”.

Acredito que um bom representante do TP seja o poeta Gentileza. José Datrino, o Gentileza, nasceu em São Paulo e foi morar no Rio de Janeiro. Por motivos que desconheço, na década de 70 começou a “pregar” a gentileza nas ruas cariocas. Nos anos 80 ele pintou seus escritos embaixo do viaduto do Caju, mas a pintura foi apagada com cal.

Como ficarei, novamente, em Belo Horizonte durante minhas férias, acho que irei aceitar o convite da Mah e sair pelas ruas praticando um pouco de TP. Sei lá, vou escrever poesias em vidros de carros ou, quem sabe, levar uma TV e um aparelho DVD para a Praça 7 a fim de exibir o documentário do Vinícius de Moraes!

Alguém disposto a formar um grupo Terrorista-Poético?!

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A imagem acima foi retirada do blog do Guilherme Carvalho, um conhecido meu que se dedica à pintura. O nome deste quadro é “Nota Sol p/a Lua Nova”. O cara tem quadros lindos! Se alguém quiser me presentear, entre em contato com o Guilherme!

26.6.06

Letargia

Um estranho desconforto
É isso
Uma mistura de angústia e aflição
Um querer ver o mar,
Respirar maresia,
Observar o bater das ondas.

E não pensar em nada.
Não lembrar de nada.
Não dizer nada.
Apenas ouvir.
Sem perguntas,
Não quero respostas.
Apenas ouvir.
O mar

12.6.06

Namorados


Tão boas quanto piadas de loiras são as piadas sobre bichas. Eu, particularmente, adoro piadas sobre gays. E faço muitas piadinhas também. Na faculdade, por exemplo, vê-se cada peça rara que chega a ser impossível não soltar um comentário maldoso seguido de uma risada!

Quem me conhece sabe que, apesar das piadas, não tenho muitos preconceitos. Ora, quem não tiver um preconceito, que atire a primeira pedra. Mas contra homossexuais, definitivamente não tenho. Pelo contrário, tenho vários amigos gays e não me importo, de forma alguma, com a opção sexual deles.

Ops. Tenho que colocar uma ressalva aqui. Tenho preconceito contra alguns gays sim. Me incomoda profundamente a presença daquelas bichinhas que fazem questão de marcar presença, de chamar atenção e levantar bandeira homossexual. Esse tipo de comportamento agride e, acredito, homossexuais como estes são os grandes responsáveis pela disseminação do preconceito. São as típicas caricaturas que fazem marcar o estereótipo do “veado”. E isso vale para as lésbicas também.

Ao contrário do que se imagina – graças ao preconceito – homens que gostam de homens não são “seres de outro mundo”; não pensam apenas em sexo; não falam apenas de “membros” dos homens; não te cantam só porque você usa barba. Assim, a não ser que você tenha uma certa queda, não representam ameaça alguma.

Desde que comecei a visitar blogs, sempre me deparei com “diários” de homossexuais. Alguns faço questão de visitar constantemente. Os blogs que visito não apresentam relatos sexuais em forma de contos eróticos nem fazem apologia ao movimento GLBT. Seus proprietários revelam todo universo interior de uma pessoa comum que tem sensibilidade suficiente para exteriorizar seus sentimentos de forma natural.

Observo entre heterossexuais tanta promiscuidade, tanta falta de respeito por suas parceiras, tanta efemeridade nos relacionamentos que me admiro ao perceber gays que em seus blogs descrevem o carinho, a atenção, a resignação, o respeito e a renúncia da vida social em função do amor que sentem pelos companheiros.

Hoje, Dia dos Namorados, faço questão de registrar aqui minha menção honrosa aos casais homossexuais que se amam. A foto acima tem dois objetivos: chocar os mais conservadores e contribuir um pouco para diminuir a descriminação daqueles que de diferente só têm o desejo sexual.

2.6.06

Eu sou brasileiro, com muito orgulho

Minha filha e eu assístíamos TV quando apareceu uma imagem da bandeira do Brasil. Beatriz, que só tem três aninhos, toda eufórica:
- Papai, papai! Olha, olha: é a bandeira do Brasil!
- Ah é Bia?! E o que é o Brasil?
- Humm... ééééé... ééééé... Ah! É a Copa do Mundo papai!
Impressionante como a copa do mundo é capaz de alimentar o sentimento nacionalista do brasileiro!
Que venha o HEXA!!!!!

1.6.06

Sobre Ratos e Marés

Ela não suportava mais. Não há ser humano que resista tanto. Afora a pobreza, a distância do marido e as dificuldades para sustentar e educar os filhos, a invasão dos ratos trouxe a peste que destruiu a vida de Marli.

Pobre sim, jamais suja. Marli sempre foi mulher digna. Agüentava muito desaforo, mas jamais se deixava humilhar. Criava os filhos com a força de uma guerreira. Sozinha, após o marido mudar para terra distante em busca de trabalho, cuidava da casa e das crianças, sendo que muitas vezes esquecia-se de si mesma.

Quando o marido partiu, vieram os ratos. Não fugiram do esgoto, se criaram em rendez vous. Eram nojentos e repulsivos. Destruíam-lhe as roupas e abodegavam a casa. Não se intimidavam com a presença de outros, e faziam orgias até na frente das crianças.

Eram ratos da pior espécie: ratos-homem, bichos-gente. Diferenciavam-se dos demais por andar apoiados em duas pernas, não sobre quatro patas. Não roíam madeira, mas carcomiam a decência dos que próximo conviviam.

Ela suportou enquanto pôde. Para preservar os filhos, Marli foi capaz de tolerar a presença dos ratos. Fez vista grossa. Recuou. Permitiu que os ratos conhecessem sua fraqueza. Recolheu-se em mágoa e ira e, assim, acumulou forças.

Mas é chegada a hora em que a ressaca arrebenta na costa, e mesmo a rocha mais forte não resiste ao peso da maré.

A turbulência em que Marli vivia levou-a a exterminar os ratos. Acrescentou temperos ao veneno que matou as pragas. Não para lhes agradar o paladar, mas para que confundissem a fúria com ingenuidade.

O cheiro dos ratos permaneceu na casa e Marli foi embora com as crianças. Não se arrepende de nada. Sabe que não há nada como um dia após o outro. Aos poucos ela vai recuperando sua dignidade, sem a humilhante presença dos ratos.
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Texto baseado em um fato real. Marli é uma dona de casa, moradora da região metropolitana de Belo Horizonte, mãe de dois filhos menores. O marido trabalha em uma mineradora no Pará. Durante dois anos Marli dividiu a casa casa com a cunhada, Ana Maria. Ana Maria e um amigo travesti promoviam orgias na casa de Marli, a humilhavam e a agrediam. Cansada das humilhações, Marli preparou uma feijoada para Ana Maria e o amigo, acrescentando veneno para rato ao prato. Marli responde processo em liberdade.

22.5.06

Quarto n° 15

Da janela do quarto n° 15 ele observava o cemitério. No meio da madrugada, com o silenciar das vozes, era possível perceber o que dizia o vento. Naquela madrugada, em que observava o cemitério, o vento lhe trazia notícias da vida. Mas ele insistia em tentar compreender os fatos da morte. E isso o fazia se sentir vivo.

Ao terminar de tragar mais um cigarro, voltou para a cama e passou, novamente, a observar ela. Nua, encolhida embaixo dos lençóis, demonstrava sinais de fragilidade tal como de uma criança. A doçura daquele sono que ele velava o fazia pensar na vida. E em seus pensamentos ele procurava encontrar significados para as coincidências que os levavam a estar ali.

Certa vez, ele a ouviu questionar se as coisas acontecem porque têm que acontecer ou se a sucessão de fatos é que determinam o que chamamos de acaso. Ele não compreendeu bem aquele questionamento. De certo, ele se recusava a tratar o que acontecera entre eles como mera coincidência do acaso.

No entanto, ele não podia ignorar as coincidências que norteavam o contato entre eles. Seria mesmo o acaso que os levavam a estar ali, no quarto n° 15? Era naquele quarto onde os dois se conheciam melhor. Mesmo divididos entre a embriagues e o torpor, se sabiam e se sentiam em sensatez.

Voltava a tragar outro cigarro e a observar o cemitério. Que mistérios são aqueles guardados pela morte – ele queria saber. Será a linha que separa a vida da morte tão tênue quanto a neblina que cobria o gramado? Será essa estrada tão curta quanto a distância do quarto ao cemitério? Mistérios que ele tentava destilar, em vão, a cada trago.

Posto novamente a observá-la, identificava em seus suspiros mistérios que também gostaria de compreender. Não mistérios da vida ou da morte, mas sim da alma feminina. Enigmas que parecem querer se revelar em gestos, mas se escondem em olhares – ou vice-versa. Segredos de uma mulher que se recusa à entrega – por medo ou por desgosto, ele desconhecia – de sua alma.

Ao raiar o dia, ele observou novamente o cemitério e se sentiu ainda mais vivo. Os segredos da morte já não lhe prendiam o pensamento. Os enigmas da vida lhe despertavam mais interesse em meio à luz do sol.

Quando ela despertou, ele se sentiu imensamente feliz. Os segredos daquela mulher, então desperta, já não lhe afligiam mais. Nos braços dela, ali no quarto de n° 15, ele se sentia seguro e vivo.


Ouvindo:
Sete Desejos (Alceu Valença)
Voz: Alceu Valença

Recomeçando das cinzas
Eu faço versos tão claros
Projeto sete desejos
Na fumaça do cigarro
Eu penso na blusa branca
De renda, que dei pra ela
Na curva de suas ancas
Quando escanchada na sela

Lembro um flamboyant vermelho
No desmantelo da tarde
A mala azul, arrumada
Que projetava a viagem
Recomeçando das cinzas
Vou recompondo a paisagem
Lembro um flamboyant vermelho
No desmantelo da tarde

E agora penso na réstia
Daquela luz amarela
Que escorria do telhado
Para dourar os olhos dela
Recomeçando das cinzas
Vou renascendo pra ela
E agora penso na réstia
Daquela luz amarela

E agora penso na estrada
Da vida, tem ida e volta
Ninguém foge ao destino
Esse trem que nos transporta

19.5.06

Libertas quae sera tamen

Mesmo que tardia, buscamos incessantemente a liberdade. Desejo concreto, mas significado extremamente subjetivo, como todo conceito.

Liberdade é uma ilusão criada para manter o homem prisioneiro.

Já parou para pensar que a maior condenação do homem é ser livre? Que ao contrário de ser um direito, a liberdade é um dever?

Sim, meu caro, somos condenados a ser livres. Cumprimos essa pena diariamente e não há nenhuma brecha na “lei” que a diminua. Essa condenação é eterna.

Em breve (quando restar tempo!) divagarei mais sobre esse assunto...

17.5.06

Ufa!

Finalmente um blog decente! Há tempos procuro um provedor (gratuito) no qual pudesse hospedar meu humilde cantinho virtual com mais "requinte". Graças à Mah eu encontrei exatamente o que queria (só espero que ela não fique brava por eu ter escolhido o mesmo template que ela!)! Agora posso postar fotos, textos com mais de 4.000 caracteres, inserir links, além de outras cositas que ainda não descobri! Sem contar o layout que está bem mais limpo, fácil de visualizar, é possível justificar os textos... enfim, estou encantado com meu novo blog!
Fiz questão de importar todos os posts do antigo blog. Isso porque quero que os visitantes tenham a possibilidade de acompanhar a trajetória do Solilóquios, conhecendo o objetivo de sua criação e de sua reativação, além, é claro, da inconstância deste "severino" aqui.
Nos títulos dos posts antigos estão as datas em que foram publicados, e não foi feita nenhuma alteração nos textos, com exceção da formatação de alguns. O Solilóquios antigo continuará disponível (inclusive há o link dele no menu lateral) para quem desejar visualizar os comentários e a "antiga versão".
Espero contar com a visita constante dos amigos e de novos companheiros.
Ah! Sugestões, críticas e elogios serão bem recebidos. Então, por favor, COMENTEM!!

11/05/2006

Cada um por si e Deus contra todos?

Às vezes sinto vontade de ter nascido sem aquela característica que nos define como humanos: a capacidade de aprender. O processo de aprendizagem do homem é complexo, apesar de natural. É natural em que se pese as funções orgânicas do ser humano. É complexo na medida em que se considere a conquista do saber. Para saber, é indispensável questionar. Questionar é, muitas vezes, não obter respostas. Não saber as resposta me desperta a vontade de ter nascido sem a capacidade de questionar.

Creio que o homem faz parte de um jogo de tabuleiro chamado ‘VIDA’. O tabuleiro é a Terra, as peças somos nós e o jogador é Deus. Ou seria Ele o juiz e nós os jogadores? Quem são - ou quem é - os adversários? Qual o objetivo? Afinal, quem criou o jogo? Como e quando entramos nele? Quais são as regras? Deus? Quem é ele mesmo? Perguntas que jamais terão respostas? Talvez já foram respondidas desde o surgimento da humanidade, mas, com certeza, as explicações se perderam em meio a tantos questionamentos.


Ouvindo:
Invocação (Chico César)
Voz: Maria Bethânia

Deus dos sem deuses
Deus do céu sem Deus
Deus dos ateus
Rogo a ti cem vezes
Responde quem és
Serás Deus ou Deusa?
Que sexo terás?
Mostra teu dedo, tua língua, tua face
Deus dos sem deuses

06/05/2006



...Deitar-se com uma mulher e dormir com ela:
eis duas paixões não
apenas diferentes, mas quase contraditórias.
O amor não se manifesta pelo desejo de fazer amor
(esse desejo se aplica a uma multidão inumerável de mulheres),
mas pelo desejo do sono compartilhado
(esse desejo diz respeito a uma só mulher)...



Milan Kundera, no livro ‘A Insustentável Leveza do Ser’

05/05/2006

Minha frustração por não saber cantar permanece, por isso escrevo

Quanta turbulência... Uma agitação louca toma conta dos meus dias. Há vários motivos para esse movimento caótico das semanas mais recentes. Dentre eles, talvez o principal, certo desequilíbrio entre a razão e a emoção. Isso é ruim? Duvido. Aquela certa insanidade sempre me faz bem.

Em meu último post comentei a respeito de um texto que publicaria posteriormente. Ele permanecerá guardado, por enquanto, junto ao sentimento que o inspirou. Criei este espaço com o objetivo de fazer dele uma válvula de escape. Desta forma, há alguns pensamentos que prefiro mantê-los em mente por tempo suficiente para que sejam maturados.

Uma vontade inusitada toma conta de mim: me acabar em uma boate. Me jogar na night mesmo! Logo eu que prefiro bossa-nova em barzinho pouco movimentado! Talvez seja reflexo dessa minha agitação, ou pura necessidade de gastar toda a energia saturada. A propósito, quanta energia acumulada no meu corpo (isso renderia outro post!) ultimamente!

Respirar fundo é o que preciso agora. Inflar meus pulmões com ar suficiente para gritar ao mundo que eu existo. De certo isso não é preciso. Aliás, chamar a atenção de muitos faz com que eu me sinta esquisito. Mas, mesmo assim, persisto. Só não sei o por que.

Por falar em “porquês”, por que será que a gente perde tanto tempo dispensando atenção ao que não merece? O dia torna-se extenso, a rotina cansativa e as dúvidas que surgem nos consome absurdamente. Quem souber a resposta, por favor, manifeste-se.

Ouvindo:
Palavra Acesa (José Chagas e Fernando Filizola)
Voz: Quinteto Violado

Se o que nos consome fosse apenas fome
Cantaria o pão
Como o que sugere a fome
Para quem come
Como o que sugere a fala
Para quem cala
Como que sugere a tinta
Para quem pinta
Como que sugere a cama
Para quem ama
Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão
E se não lhe atinge como uma espada
Peço não me condene oh minha amada
Pois as palavras foram pra ti amada
Pra ti amada
Oh! pra ti amada
Palavra quando acesa
Não queima em vão
Deixa uma beleza posta em seu carvão
E se não lhe atinge como uma espada
Peço não me condene oh minha amada
Pois as palavras foram pra ti amada
Pra ti amada
Oh, pra ti amada
Pra ti amada
Pra ti amada



Post escrito em 04/05/06 às 13:30 (não foi publicado porque o TheBlog estava fora do ar)

28/04/2006

Só pra variar


Escrevi, na noite de ontem, mas desisti de postar. Trata-se de um texto que apresenta, de forma muito íntima, o momento que estou vivendo. Resolvi publicá-lo outro dia, só para variar o discurso deste Solilóquios. Sempre muito emotivo e nostálgico, tenho a impressão que este blog transmite certa melancolia.

Pensei então em contar alguma situação engraçada que eu tenha vivido, mas correria o risco de revelar alguma gafe. Uma crônica inspirada nos hábitos de consumo de minhas colegas de trabalho arrancaria gargalhada dos leitores, mas as meninas comeriam o meu fígado!

O ideal seria comentar algo que todo mundo gosta. Vou falar então sobre cerveja. Mas muita gente não aprecia a bebida... Então eu vou escrever sobre sexo, afinal, quem não gosta que atire a primeira camisinha. Melhor ainda: vou falar sobre sexo e cerveja.

Líquido dourado, de sabor amargo e baixo teor alcoólico, a cerveja é apreciada por milhões de brasileiros. Há quem prefira um bom vinho ou um licor, mas em meio ao calor dos trópicos, uma lourinha gelada desce muito mais redondo, e reanima!

Cerveja reúne os amigos, reaproxima pessoas, afoga mágoas e também nos deixa alegre (muito alegre por sinal!). Refresca em dias de muito calor e, dependendo da ocasião, esquenta tanto quanto conhaque!

Existem inúmeras marcas de cerveja. Alguns consumidores são extremamente fiéis à determinada cerveja, e não aceitam outra que não a preferida. Outros apreciadores não se importam tanto - têm aquela de sua preferência, mas na falta tomam qualquer uma. Eu tenho a minha preferida: a que é servida gelada e de graça!

Cá pra nós, existe coisa melhor que cerveja? Existe, se existe!

Sexo. Desde a criação do mundo o sexo está presente na vida e, principalmente, na cabeça das pessoas. Adão abriu mão do paraíso tentado pelo prazer carnal (você acredita na historinha da maçã? Bobo que é!). Na Grécia antiga existia até um representante para o prazer da carne: Eros, Deus do amor e do desejo.

Não importa como ou quando, chegada a adolescência os hormônios começam a fervilhar... se segure quem puder (ou o que puder!). Chega a ser engraçado como que, mesmo entre meninos, até certa idade o assunto “sexo” é um tabu. Mas depois dos 15 anos não há conversa que deixe de ser citado (e desejado!).

Bom para dormir, melhor para acordar, sexo é bom de qualquer jeito! Mas com certa criatividade e empolgação o “troço” pode ficar melhor ainda e é possível elevar o prazer à 10ª potência. Inclusive, pensando nisso, um hindu escreveu um livro ensinando como aumentar o prazer sexual: Kamasutra. Sabe quando foi escrito? Em época entre 100 e 400 d.c.!

Se regada à cerveja, uma noite de sexo pode ser melhor ainda! A cerveja relaxa, descontrai, deixa a gente mais solto, a imaginação trabalha mais facilmente e tudo flui que é uma beleza! Além disso, no calor do ato refrescar-se com uma cervejinha é ótimo! Combinação perfeita: sexo e cerveja, antes e durante. Se depois do auge a cerveja for mantida, melhor ainda: dá para recomeçar tudo de novo... EITA NOIS LÁ EM CASA SÔ!!!!!

24/04/2006

1996: Quando eu tinha 12 anos

Quando eu tinha doze anos eu era um moleque. Judiava dos meus priminhos; pregava papel higiênico molhado no teto do banheiro da escola; fazia guerrinha de papel em sala de aula; guardava o dinheiro da merenda para comprar revista de mulher pelada; dividia meu tempo livre entre o video-game e o banheiro.

Quando eu tinha doze anos ainda me divertia nas brincadeiras com meus colegas, também moleques. Lutar jacarezinho (brincadeira inspirada em uma disputa de força de tradição indígena); jogar ranca; esvaziar pneu de carro; tocar campainha e sair correndo; assustar a “bruxa do 71” (quem nunca teve uma vizinha dessas?!) com revólver de espuleta; ficar na rua até de madrugada brincando de pique-esconde.

Quando eu tinha doze anos eu tinha sonhos de menino. Viajar pelo mundo a bordo de um zepelim era uma de minhas fantasias. Sem falar no desejo de que o tempo passasse rápido, para que eu deixasse de ser um menino e, já com 20, 21 ou 22, pudesse ser independente, auto-suficiente e não mais um “pré-aborrecente”.

Ainda quando eu tinha doze anos conheci minha primeira namorada. E junto a ela descobri uma série de sentimentos que, até então, desconhecia. Inclusive comecei a achar que todas aquelas brincadeiras eram coisas de moleque, pois já me julgava um rapazinho.

Quando conheci minha primeira namorada eu suava frio toda vez que nos encontrávamos; ficava encabulado sem saber até que ponto eu podia tocá-la; gaguejava muito para conseguir dizer que estava apaixonado; tremia toda vez que ia até sua casa, imaginando como seu pai me receberia.

Com doze anos, quando tive minha primeira namorada, me aborrecia com o namoro às escondidas; me preocupava muito com o que ela pensava a meu respeito; sofria procurando compreender o que ela sentia por mim; imaginava que seria a única mulher de minha vida.

Quando eu tinha doze anos e desejava ter logo mais de 20, jamais imaginava que aos 22 eu sentiria saudades daquelas brincadeiras; que ainda sonharia com um passeio de zepelim; que teria namorado com outras mulheres e me relacionado com outras tantas; que já teria uma filha; e, principalmente, que não saberia, novamente, como agir ao lado de uma mulher, feito um “pré-aborrecente".

Post escrito em 21/04/06 às 11:30

19/04/2006

Dia da Impunidade

Crimes hediondos chocam, constantemente, o país. A sociedade suporta, quieta, a impunidade dos criminosos. Permanece inerte frente ao terror e à ausência de justiça, mas jamais calada. Resmunga, chora, lamenta. Comenta, entre si, o sentimento de insegurança e a revolta. Diz não poder agir ou não saber como agir. Afirma não suportar, não concordar, não tolerar, mas, mesmo assim, permanece acomodada pela injustiça.

Culpar a Polícia, o Legislativo, o Judiciário é fácil. Rememorar os tempos de colônia também é uma boa alternativa para se justificar a violência impune. Não cabe, aqui, transferir a responsabilidade para a sociedade. É generalizar demais. Talvez seja até outra opção simples para apontar o culpado. Porém, há que se ressaltar a responsabilidade de cada cidadão brasileiro pela ausência de justiça neste país.

Cada cabeça baixa; qualquer suspiro sufocado; o grito contido; a garganta seca; a lágrima enxuta; a omissão; a conivência aos pequenos delitos; o pagamento de qualquer propina; a falta de memória deste povo... A lista é enorme dos fatores que contribuem para que, cada vez mais, a impunidade se fortaleça no Brasil.

Há quase dez anos, jovens de classe média alta atearam fogo em um índio que dormia nas ruas de Brasília. O índio ainda é lembrado, mesmo que somente no dia 19 de abril de cada ano. Já os criminosos, que estão impunes e bem de vida, quase ninguém se lembra mais. Que seja, então, decretado o “Dia do Impune”, para que a sociedade relembre, comente e proteste.

18/04/2006

“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria; aperta e depois afrouxa e depois desinquieta. O que a vida quer da gente é coragem. O que Deus quer é ver a gente aprendendo a sorrir no meio da tristeza. Todo caminho da gente é resvaloso, mas cair não prejudica demais. A gente levanta, a gente sobe, a gente volta” – Guimarães Rosa

Viver sem ter vergonha de ser feliz. A vida é bela demais e passa muito rápido. E com ela passam pessoas, lugares, sentimentos. Cada queda é motivação para nova escalada. Cada altitude alcançada é estímulo para novos – e mais altos – obstáculos. Desafiar-se é sentir-se vivo. Viver é querer ir além. Além da vida? Sonhos apenas.

Pensamentos:

Em linha reta:

Pensar é atributo de quem sofre.

Positivo:

Sofrer é indispensável ao processo de amadurecimento.

Em afirmação:

Amadurecer é fazer escolhas.

Negativo:

Escolher consiste em mais perdas que ganhos.

Em negação:

Ganhar nem sempre é estar em lucro.

Em círculos:

Lucrar não é verbo que se aplica a sentimento. Uma mulher desperta em um homem sentimentos capazes de mergulha-lo em um oceano de pensamentos. Pensar é atributo de quem sofre. Sofrer é indispensável ao processo de amadurecimento. Amadurecer é fazer escolhas. Escolher consiste em mais perdas que ganhos. Ganhar nem sempre é estar em lucro. Lucrar é verbo não se aplica a sentimento. Uma mulher desperta em um homem sentimentos capazes de mergulha-lo em um oceano de pensamentos. Pensar é atributo de quem sofre. Sofrer é estar vivo. Viver é querer ir além. Ir além significa ultrapassar os sonhos. Sonhar faz a vida correr. A corrida da vida faz embrulhar tudo. Tudo em um homem nasce a partir de uma mulher. Uma mulher desperta em um homem sentimentos capazes de mergulha-lo em um oceano de pensamentos. Pensar é atributo de quem sobre. Sofrer é um bem necessário. Necessidade de estar vivo é sentir. Para sentir é necessário, antes, pensar. Pensar é atributo de quem sofre e vive. Viver é não ter vergonha de ser feliz. Uma mulher é capaz de fazer um homem feliz e de mergulha-lo em um oceano pensamentos. Pensar só nos traz alegria ao mesmo passo em que é atributo de quem sofre. Sofrer é um bem necessário.....

07/04/2006

Coisas de blogueiro...

Fui intimado pelo Marco a participar da seguinte brincadeira:

"Cada bloguista participante tem de enumerar CINCO manias suas, hábitos muito pessoais que o diferenciem do comum dos mortais. E, além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher CINCO outros bloguistas para estarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blog's aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blog."

Listemos então:

1 – Olho para o céu a todo instante. Sinto necessidade de olhar para o céu sempre que estou em local aberto.

2- Converso sozinho enquanto caminho. O que há de diferente nisso? Bem, é porque geralmente converso comigo mesmo em japonês...

3- A qualquer hora que chego em casa, a primeira coisa que faço é tirar a calça e o tênis e vestir uma bermuda, mesmo que saiba que terei que sair de novo após 15 minutos.

4- É incontrolável, mas sempre tento prever o comportamento do outro. E quase sempre dá certo! Além disso, sempre faço uma “análise psicológica” de todo mundo!

5 – Rezo, todas as noites, de joelhos.

Como não visito muitos blogs, nem sou muito visitado, só convocarei a Cella Sing para participar deste jogo também!

07/04/2006

Ufa!

Acabou! O inferno astral passou... E no lugar de toda aquela aflição, uma alegria quase eufórica toma conta! Os problemas continuam, as preocupações também. Mas a serenidade volta a me equilibrar.

Coisas muito boas me aconteceram desde o meu aniversário. “Nada mudou, mas eu sei que alguma coisa aconteceu...”! Uma das coisas que não mudou nada foi esse pobre coração leviano... apaixona fácil demais o coitado!

Mas tem gente que sabe (e gosta) de judiar, não é? Mas tudo bem, eu suporto. Só não sei até quando! Apesar de ter certeza que não passa de viagem da minha cabeça, certos olhares me deixam muito instigado...!

A única coisa muito ruim que está acontecendo é este TheBlog não permitir que eu post mais fotos, além de ocultar os comentários... Vou mudar de provedor em breve!

Ouvindo:
Tiro ao Álvaro (Adoniran Barbosa e Oswaldo Moles)
Voz: Elis Regina

De tanto levar
Frechada do teu olhar
Meu peito até
Parece sabe o quê?
Tauba de tiro ao álvaro
Não tem mais onde furar

Teu olhar mata mais
Do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que peixeira de baiano
Teu olhar mata mais
Que atropelamento de automóver
Mata mais que bala de revórver

23/03/2006

Sobre o "tal inferno astral".....

(...) Refletir. Ponderar. Reler textos. Relembrar fatos. Rever pessoas. Reviver situações. Questionar atitudes. Idealizar o futuro. Remoer o passado. Equilibrar no tempo... e no espaço. Renovar as esperanças... e o espírito. Descobrir novos caminhos. Alcançar objetivos. Traçar metas. (...) Buscar ações concretas (como todos os verbos) que não verbais.

Relendo:
Aniversário - (Fernando Pessoa)

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui --- ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça,
com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado---,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa, No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

21/03/2006


“Cada um de nós possui um repertório de faces – um elenco de personagens (...) Da mesma forma que atuamos como atores tentando criar uma fachada, a nossa ‘audiência’ é igualmente composta de outros atores que estão tentando criar seus próprios personagens (...) é um tipo de processo teatral em que colaboramos com outros atores que parecem improvisar cenas nas quais os nossos personagens se enredam.”
(ADLER, Ronald et RODMAN, George. Comunicação Humana, In: Percepção, o Eu e a Comunicação. Rio de Janeiro, ed. LTC, 2003.)





Estudando ‘Psicologia da Comunicação’, deparei-me com o artigo citado acima que discute, principalmente, o gerenciamento da identidade como instrumento para a comunicação. Os autores afirmam que gerenciamos nossa identidade a fim de criar impressões através das quais os outros nos percebem. Moldamos estas impressões objetivando alcançar, sobretudo, a aceitação social e, até mesmos, outros objetivos pessoais.

Somos formados por diversos “eu”: o “eu público” e o “eu privado”, como definem os autores. Tanto o eu privado quanto o eu público são constituídos por diversas faces que construímos com o passar dos anos. O eu privado é o reflexo do nosso autoconceito, ou seja, daquilo que acreditamos ser. Já o eu público é a forma com a qual nos apresentamos às outras pessoas, mesmos as mais íntimas.

O uso destas “fachadas” é indispensável para que consigamos lidar com as mais diversas situações e pessoas. Afinal, ninguém se comporta na frente de um juiz do mesmo modo como entre amigos de infância.

Atuar com diversas faces no dia-a-dia não significa falta de personalidade nem é sinônimo de falsidade. Pelo contrário. Múltiplas faces é diferente de múltiplas personalidades. Mantemos sempre uma única personalidade e usamos nossas variadas faces de acordo com o evento que vivenciamos. O fato é que a honestidade (ser honesto consigo e com os outros), ou seja, nossos valores morais, é que determina quais as faces construímos e de que maneira as utilizamos.

Ontem apresentei um trabalho sobre o tema e hoje, coincidentemente, fiz uma reflexão prática a respeito do mesmo.

Sempre tive vontade de fazer teatro, ser um ator. Cheguei até mesmo a pensar em cursar Artes Cênicas, mas, apesar de muitos acharem que tenho perfil, não julgo-me capaz de interpretar personagens além daqueles concebidos pelo meu “autoconceito”.

Hoje, através de um comentário (que dispensa comentários!), me lembrei, infelizmente, de uma peça teatral na qual fui o grande protagonista. Mas a peça não emplacou nos palcos, pois não renderia bilheteria alguma. O texto era de um dramaturgo “estrela”, competente em criar e dirigir comédias, mas displicente ficcionista no drama.

Em função do texto mal escrito e inacabado, fui colocado no meio do palco, com um holofote iluminando minha cara (rasgada) e com o público (distante) rindo da piada sem graça. Riam, não sei, para reanimar o personagem ou para enaltecer o autor.

Apaguei da minha memória aquela cena e desisti da carreira cênica.

Relembrar, hoje, a passagem daquele texto despertou-me um sentimento de desprezo e repugnância. Por um momento me senti mal, mas, sem dúvida alguma, não vale a pena. Os que me conhecem, nas minhas mais diversas faces, me alegram sem precisar me aplaudir.


17/03/2006

Dias longos. Tempo curto. Ambigüidade e inconstância. Fé e esperança. Sonhos e fantasias.

Pôr do Sol no Arpoador. Luar violão e o som do mar. Vinho e edredom. Dormir de conchinha. Acordar com beijos. Banho quente - a dois. Músicas e poesias - ao pé do ouvido. Longo silêncio seguido de apenas um sussurro – fico mudo. Acordo só.


Relendo:
Claro Enigma (Carlos Drummond de Andrade)

Sonho de um Sonho
Sonhei que estava sonhando
e que no meu sonho havia
um outro sonho esculpido.
Os três sonhos superpostos
dir-se-iam apenas elos
de uma infindável cadeia
de mitos organizados
em derredor de um pobre eu.
Eu que, mal de mim!, sonhava.

Sonhava que no meu sonho
retinha uma zona lúcida
pra concretar o fluído
como abstrair o maciço.
Sonhava que estava alerta,
e mais do que alerta, lúcido,
e receptivo, e magnético,
e em torno a mim se dispunham
possibilidades claras,
e, plástico, o ouro do tempo
pra todo o sempre, para
um sempre que ambicionava
mas de todo o ser temia...
ai de mim! que mal sonhava.

(...)

Sonhava, ai de mim, sonhando
que não sonhara... Mas via
na treva em frente a meu sonho,
nas paredes degradadas,
na fumaça, na impostura,
no riso mau, na inclemência,
na fúria contra os tranqüilos,
na estreita clausura física,
no desamor à verdade,
na ausência de todo amor,
eu via, ai de mim, sentia
que o sonho era sonho, e falso.

02/03/2006

Porque os outros são cheios de defeitos.

Finalmente o mês de fevereiro acabou. O menor mês do ano, para mim, foi muito extenso. E tenso. Após toda serenidade vivida em janeiro, o mês dois desestruturou completamente minhas atitudes, pensamentos e comportamentos.

Acredito que alguns posts aqui no Solilóquios indicam muito de minha personalidade. Extremamente emotivo, introspectivo e subjetivo. Chego a ser contraditório: enquanto deixo muito explícito o meu estado de espírito, disfarço ou, até mesmo, escondo os motivos de meu temperamento. Sempre fui assim. Falo muito sem dizer ou, na maioria das vezes, digo sem falar. Para bom entendedor, um pingo é letra, um olhar basta.

Meus amigos são ótimos entendedores. Me conhecem há anos. Oito, dez ou 21 anos, como o Nívio, hoje padrinho de minha filha, com quem dividi os maiores acontecimentos de minha vida. É curioso como estes amigos me conhecem. Sabem interpretar meus gestos, minha palavras. Compreendem quando preciso ficar quieto e, também, sabem a hora que precisam me arrastar para fora de casa e me dar uma injeção de ânimo.

Porém, hoje convivo pouco com estes amigos. Temos nos encontrado muito, mas, mesmo assim, não temos mais a convivência diária como há quatro ou cinco anos atrás. Divido meu dia-a-dia com os colegas de trabalho e, principalmente, com a turma da faculdade.

No trabalho, em meio a tanta turbulência, não tem sobrado tempo para conversas pessoais. Mal é possível perceber uma mudança no visual, quanto mais no comportamento do colega ao lado. Já na faculdade, todos têm percebido que estou diferente. Não houve um dia sequer que entrei na sala de aula sem que alguém perguntasse: o que você tem Dani? Você está tão estranho? Até piadinhas esdrúxulas já ouvi. Como me conhecem pouco, ou não me conhecem, alguns associaram minha mudança de comportamento ao fato de usar roupas diferentes, mais sociais que as de costume.

Alguns acham que estou com raiva deles. Outros julgam até que não me “misturo” mais. Outros puxam conversa, demonstrando-se preocupados. Em alguns percebo uma preocupação sincera em relação a mim. Já em outros percebo que a preocupação é com eles próprios, seja pelo motivo que for.

De fato estou diferente. Não nego que minha postura mudou. Realmente tenho evitado me “misturar” com algumas pessoas. Tenho dito mais “não” que “sim”. Tenho me preocupado pouquíssimo com os outros. Tenho conversado pouco com os outros. Por quê? Simples: porque os outros são cheios de defeitos.

Porque os outros agem sempre por interesse. Seja material ou afetivo, não importa, agem sempre por interesse. Porque, para os outros, as pessoas são descartáveis. Porque os outros somente se importam com o próprio umbigo. Porque os outros cobram demais e pagam pouco. Porque os outros são cínicos. Porque os outros mentem. Porque os outros não sabem agradecer, menos ainda pedir desculpas. Porque os outros são como os outros, cheios de defeitos. Porque eu sou igual aos outros.

Para meus amigos de há tempos é nítido que passo, novamente, por uma fase de auto-conhecimento, de introspecção. Não sabem os motivos desta fase, que, por sinal, são muitos, e nem os precisam saber. Mas têm certeza que, assim como as outras, essa fase passa. E com ela passam os questionamentos, as neuroses, o silêncio, os frisos na testa, o comportamento arredio, a falta de paciência.

Mais que isso, sabem eles que continuo o mesmo Daniel. Têm ciência que é o Daniel passando por problemas que não conta. Dá indício de quais são as dificuldades, mas não as explicita porque não gosta de receber conselhos. Percebem em seu olhar que precisa de silêncio, e sentam-se ao seu lado, em silêncio compreensivo.

Espero que com o tempo os amigos da faculdade também me percebam como meus amigos “das antiga”. De certo continuarão me achando louco, mas torço para que não me achem mais tosco do que realmente sou. Há alguns meses atrás, eu estaria muito preocupado com isso. Teria medo de perder amizades. Atualmente estou ligando o FODA-SE. Não sei se é o melhor para mim, mas tenho certeza que preciso, neste momento, me preocupar muito comigo e dispensar mais atenção a mim.

Quarta-feira de cinzas. Dia cinza, céu nublado. Início do mês de março. Data inicial de meu inferno astral. Daqui a trinta dias comemorarei mais um aniversário. Provavelmente no dia 31, como na maioria dos anos anteriores, irá chover. E a chuva lavará minha mente e trará águas limpas para continuar tocando o barco, rumo a uma nova fase.

Assim seja!

Ouvindo:
Águas de Março (Tom Jobim)
Voz: Ney Matogrosso

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira
Caingá, candeia, é o Matita Pereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira
É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira
Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho
No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma conta, é um conto
É uma ponta, é um ponto, é um pingo pingando
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando
É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama
É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José
É um espinho na mão, é um corte no pé
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã

São as águas de março fechando o verão
É a promessa de vida no teu coração

02/03/2006

Carnaval, carnaval...

Noticiário em época de carnaval é sempre a mesma coisa. Tudo bem, são produzidas notícias distintas a cada ano. Afinal, ao menos as Escolas de Samba geram novas reportagens. Entram na avenida com novo enredo, com novos problemas técnicos, novos acidentes, novas madrinhas de bateria...

Todavia, algumas matérias parecem apenas reeditadas. É o caso dos roteiros alternativos para quem prefere sossego no carnaval ou outras matérias de comportamento. Em editoria policial, pouca coisa varia além dos números. Crimes, acidentes, reforços nas ruas, barreiras nas principais estradas, blitz preventivas, dicas de segurança, etc.

Meu carnaval rendeu “matérias” bem diferentes dos anos anteriores. Fiquei em Belo Horizonte, longe de qualquer tumulto, marchinhas, axé, desfiles. Acompanhado por amigos, fiz minha folia. E dá-lhe cachaça!

Para finalizar o carnaval, fechamos com chave de ouro, ou melhor, bebida de ouro extremamente gelada! Fizemos um churrasco em minha casa. Na terça, pela manhã, fomos cedo comprar as carnes e as cervejas. Não passavam de dez horas. Vivi, David, Jéssica e eu saímos de minha casa em direção ao supermercado.

A cerca de três quarteirões, eu falava ao celular quando percebi que estávamos sendo assaltados. Dois meninos (tinham cara de, no máximo, 14 anos cada um) mandavam a gente encostar no muro. Um deles com a mão sob a bermuda, demonstrando que estava armado. Coisa nenhuma. Ao perceber que todos continuavam andando sem dar importância a eles (detalhe, como eu falava ao celular um pouco a frente de todos, custei a perceber o que acontecia!), o que parecia armado mandou o outro “pegar” a Viviane. Foi aí que percebi o assalto, pois o David gritou “encosta nela pra você ver”, e foi andando em direção a eles, enfrentando os dois. Resultado: os pivetinhos saíram correndo rua a baixo.

Passado o susto, demos boas gargalhadas.

Enfim, churrasco assando, cerveja estupidamente gelada, Isa dando o ar de sua graça com o violão, vovô tomando uma e batendo altos papos com a galera. Tudo perfeito. Só estava faltando a caipirinha. Não tinha gelo. Viviane e a irmã resolveram, então, ir em casa buscar gelo e comprar alguns abacaxis.

Passada meia-hora, toca o telefone. Viviane toda assustada porque a Patrícia bateu o carro. Acidente tranquilo, ela não se feriu e apenas a seta do carro foi quebrada. O problema era o outro carro envolvido: viatura 10272 da PM. Fala sério! Com tanto cachaceiro andando de carro no carnaval, ela tinha que bater justo nos “omi”!?

Lá fui eu atrás das meninas, com uma lata de cerveja na mão. Chegando no lugar, a revolta: CINCO viaturas paradas no local. Pouco depois, duas foram embora e ficaram três, a que estava envolvida no acidente e outras duas. SEIS policiais parados enquanto centenas de delitos estavam sendo cometidos e, provavelmente, os dois pivetinhos ainda tentavam aprontar nas ruas do bairro.

O PM assumiu o erro. Ele não parou no cruzamento onde a preferência era de quem subia a outra rua.. Porém, acordaram cada um assumir o seu prejuízo. A Paty teve que concordar porque ela estava em situação complicada.. Está usando um aparelho ortopédico, Sarmento, que ela não poderia usar para dirigir.

Impressionante como um boletim de ocorrências na mão de um policial parece ser bem maior, quase interminável. Ficamos mais de duas horas esperando a perícia. Minha revolta crescia a cada minuto. SEIS policiais parados a toa. E eu sem nenhuma latinha de cerva para relaxar.

Enfim, a perícia chegou e em menos de cinco minutos fomos liberados. Inclusive os SEIS policiais foram liberados. Eram cerca de 15h20 e todos largavam serviço às 15. O acidente foi por volta de 13h15. REVOLTANTE!

O churrasco continuou. Mais gente chegou, a caipirinha saiu, a cerveja acabou, compramos mais cerveja, a Isa tocou violão, eu também toquei, David e Jéssica brigaram, a cerveja acabou, compramos mais cerveja novamente, e... Sinceramente, não me lembro de mais nada!!!

20/02/2006

Do latim amicu: o que quer bem; partidário; aliado; afeiçoado.

Uma das principais características do ser humano é a capacidade de criar laços afetivos. Ao contrário de outros animais, que estabelecem relações entre seus iguais instintivamente para a convivência em grupo, o homem depende de outros humanos para se espelhar e se apoiar. Um dos maiores laços que firmamos, além dos sanguíneos, é a amizade. É fundamental e indispensável ter amigos, mesmo que imaginários (como na infância).

Recordo-me de minha prima, ainda bem novinha, brincando com um amiguinho invisível. Só ela o enxergava. Ela ainda não estava em fase escolar, não convivia com outras crianças no prédio onde morava e as outras crianças da família eram bem mais velhas que ela. Mas ela tinha um amigo. E os dois se conheciam e, apesar de algumas brigas (!), se davam muito bem.

Na medida em que crescemos, vamos construindo uma grande rede de amigos. Vizinhos, colegas de escola, de cursos, do clube e até em grandes redes virtuais como o Orkut. As amizades, geralmente, surgem a partir de afinidades em comum. Todavia, poucas se tornam sólidas e duradouras.

Tenho que amizade que nasce em mesa de bar se restringe à bebedeira, e nada mais. Nem ao porre se estende. Limita-se ao copo cheio, às brincadeiras, à farra em geral. São positivas e saudáveis, sem dúvida. Afinal, nada como companhias “bom de papo e bom de golo”. Mas lhes falta substrato.

Uma amizade tida como “verdadeira”, para mim, surge num momento de silêncio. Silêncio que significa compreensão, respeito, atenção. Algumas nascem após grandes desavenças ou brigas, quando seguidas de um perdão mútuo. Outras ainda, raras por sinal, são frutos de um namoro que não deu certo.

Já ouvi dizer, diversas vezes, que amigos são aqueles que te apóiam, que sempre te ligam, te defendem, levantam sua moral, exaltam suas qualidades, lhe protegem. Muitas são as características de uma amizade perfeita. Cada um as define à sua maneira, de acordo com as necessidades que lhe cabem.

Sou muito feliz pelos amigos que tenho. Raramente me ligam, nem sempre me apóiam, diversas vezes não me defendem. Alguns já jogaram minha moral lá em baixo. Outros apontaram com desdém os meus defeitos. Deixaram-me desprotegido e me fizeram chorar.

Por tudo isso, considero-os meus amigos. Deposito neles minha maior confiança. Quando me negaram apoio ou não me defenderam, sabiam que eu estava errado, e com isso aprendi. Se derrubaram minha auto-estima, é porque o orgulho e a vaidade me subiam à cabeça, e isso me corrompia. Quando apontaram meus defeitos queriam me indicar o erro. Se me deixaram sem proteção, é porque sabiam que no choro eu me fortaleceria. Se raramente me ligam, é porque não é necessário, nos sabemos mesmo à distância.

Parafraseando Vinícius de Morais, digo que a amizade é um sentimento muito mais nobre que o amor. O amor não permite que seu objeto se divida em outros tipos de afeto, pois possui inerente o ciúme. Assim, mesmo sofrendo, poderia suportar perder todos os meus amores, mas perderia o chão se me faltassem os amigos.

Na vida não fazemos amigos, não os conquistamos nem os escolhemos, simplesmente os reconhecemos.

17/02/2006

"Cantando a gente inventa. Inventa um romance, uma saudade, uma mentira...Cantando a gente faz história.Foi gritando que eu aprendi a cantar: sem nenhum pudor, sem pecado.Canto pra espantar os demônios, pra juntar os amigos.Pra sentir o mundo, pra seduzir a vida..." (Cazuza)



Eu também canto. Canto para criar sonhos, imaginar lugares, idealizar amores. Reviver momentos felizes, recordar ocasiões difíceis. Canto para lembrar e para esquecer. Afastar meus demônios e, por vezes, chamá-los de volta. Só não canto para reunir os amigos, porque minha voz... Dispenso comentários!

Como disse em post anterior, minha maior frustração é não ter dom para a música. Queria saber compor. Harmonizar Mi em escala de Fá, Dó em escala de Sol, Si em escala de Ré. Sonorizar poemas, musicar textos. Compor.

Música faz parte do meu dia-a-dia. “Cotidiano” para acordar, “Vagabundo” para despertar, “Paquetá” para relaxar, “Menina da Lua” para dormir. “Black Dog” quando a tarde está cansativa, “Blues da Piedade” quando bate a vontade de mandar todo mundo pra...

“Brushfire Fairytales” se é preciso criar um clima. “Frisson” quando bate saudade. “Choro Bandido” se é necessário me confessar. “Com Você Meu Mundo Ficaria Completo” para me declarar. “Não Enche” para um dar um fora ou “Esta” para dizer que meu coração já tem dona.

Poderia citar todas as músicas que gosto, que me inspiram. Ou, ainda, fazer referências à todos os compositores e intérpretes que admiro. Melhor não pecar pelo exagero. Além disso, alguns ficariam esquecidos e não acho isso justo.

Assim, farei menção especial a apenas um compositor, minha mais recente “descoberta”: Marcelo Camelo, do Los Hermanos. Digo nova descoberta porque, apesar de já conhecer o Los Hermanos (limitado a “Ana Júlia” e “Primavera”) há mais tempo, somente agora pude conhecer melhor as composições da banda.



Carioca, 28 anos, graduado em Jornalismo pela PUC, revelou seu talento na música. E que talento! Não é à toa que das 13 faixas do primeiro álbum de Maria Rita, quatro são de autoria de Camelo. Estou, realmente, admirado com o trabalho dele.

Ano passado assisti ao show de lançamento, em BH, do quarto álbum do Los Hermanos. “4” apresenta um repertório repleto de samba, em estilo próprio, e belíssimas letras. O show foi péssimo. A acústica estava horrível. Mas o CD é imperdível.

E já que não tenho o dom da música, me valho da melodia alheia!

Ouvindo:
Todo Carnaval Tem Seu Fim - Marcelo Camelo
Los Hermanos

Todo dia um ninguém josé acorda já deitado
Todo dia ainda de pé o zé dorme acordado
Todo dia o dia não quer raiar o sol do dia
Toda trilha é andada com a fé de quem crê no ditado
Mas o dia insiste em nascer
Mas o dia insiste em nascer
Pra ver deitar o novo...

Toda rosa é rosa por que assim ela é chamada
Toda Bossa é nova e você não liga se é usada
Todo o carnaval tem seu fim
Todo o carnaval tem seu fim
É o fim, é o fim

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz

Toda banda tem um tarol, quem sabe eu não toco
Todo samba tem um refrão pra levantar o bloco
Toda escolha é feita por quem acorda já deitado
Toda folha elege um alguém que mora logo ao lado
E pinta o estandarte de azul
E põe suas estrelas no azul
Pra que mudar?

Deixa eu brincar de ser feliz,
Deixa eu pintar o meu nariz



13/02/2006

“Às vezes construímos sonhos em cima de grandes pessoas. O tempo passa, e percebemos que grandes eram os sonhos, não as pessoas.”


Certa vez, recebi um bilhetinho de uma colega de sala, quando ainda cursava o ensino médio, com o pensamento acima. Não entendi muito bem o porquê de ela me dizer aquilo. Na verdade, não entendi bem o que aquela frase representava.

O tempo passou. Percebi o quanto essa frase é significativa. Mais que isso, percebi o quanto construo sonhos em cima das pessoas. E o quanto me frustro por agir assim.

Ledo engano depositar expectativas em terceiros. Idealizar situações futuras, mesmo quando se é o único responsável por concretizá-las, já é uma grande perda de tempo.

Nada como bater com a cara no chão. Machucar, mesmo. Ao menos, assim, percebemos em que pedra tropessamos e passamos a andar com mais cautela em outras calçadas.


Ouvindo:
Estranho (Chico César)
Voz – Chico César


Eu bem que avisei
Sou estranho
Não chegue tão perto assim
Vai por mim
Você fez que não ouviu
Tomou de conta
Fez de conta que era charme alfenim
Ai de mim
Agora quero ir
Eu quero ir embora
Embora não deseje o fim
Vai por mim

08/02/2006

Só uma coisa não muda: aquela certa insanidade que até que me faz bem

É preciso mudar. Todo dia, toda hora, em qualquer lugar, é preciso mudar. Mudar o visual, a mensagem da caixa postal, o desktop, o toque do celular. Trocar os móveis de lugar também é preciso. Mudar o caminho para o trabalho e pegar apenas um ônibus no trajeto de volta para casa ou invés de dois é outra alternativa. Sentar na primeira carteira e abandonar o fundão pode ser muito proveitoso. O inverso também. Não importa, é preciso mudar.

Deixar de comprar aquele jornal conservador e se aventurar em um popular é interessante. Abandonar a Globo e conferir a programação do SBT é outra grande mudança. Locar um típico besteirol americano em troca do drama francês muda completamente o senso crítico. Comer a sobremesa antes do almoço ou, quem sabe, almoçar às 6 da manhã chega a alterar até o relógio biológico. Qualquer coisa, é preciso mudar.

Sempre há o que mudar. O problema é quando não se sabe o que mudar, ou como mudar, ou de que forma mudar. Reflexo de alienação? Desânimo? Desilusão? Frustração? Estagnação? Conformismo? Medo? Insegurança? Baixa auto-estima? Seja lá o que for, é preciso mudar.

E quando se percebe que tudo mudou mas, aparentemente, tudo permanece igual? E quando tudo parece igual após ter mudado completamente? E quando o que parece o todo na verdade é o nada? E quando o que parecia insignificante se torna imenso? Quando é preciso mudar?

Mudança gera mudança. É preciso querer mudar.

06/02/2006

O HORIZONTE MAIS BELO DAS MINAS GERAIS





Uma Cidade jovem. Projetada especialmente, no final do século XIX, para sediar a nova capital de Minas Gerais, Belo Horizonte, com 330 km² e cerca de 2,5 milhões de habitantes, é hoje uma das principais metrópoles do país. Além de possuir características de uma grande capital a cidade preserva, ainda, lembranças da época de sua inauguração e a mineiridade das cidades interioranas do Estado.

Uma ligeira caminhada pela avenida principal do centro da cidade, a Afonso Pena, ou uma rápida passagem pelo terminal rodoviário são suficientes para perceber que se está em uma grande metrópole. Sotaques distintos, estilos variados, diversas etnias, trânsito intenso, pedintes, meninos de rua e, como não poderia deixar de ser, ritmo acelerado dos ponteiros de todos os relógios.

A área territorial da cidade parece pequena se comparada, por exemplo, à cidade de São Paulo com seus 1.509 km², mas abriga grande diversidade de espaços que parecem se interagir. Na Praça da Liberdade, onde se localiza o Palácio do Governo, por exemplo, há a mistura entre a arquitetura dos palácios do início do século XX, a ousadia das obras de Oscar Niemayer e o clima de cidade do interior sugerido pelos bancos ao redor do coreto da praça.

O servidor público aposentado Augusto Antônio dos Anjos, 87 anos, recorda-se emocionado da época em que BH começava a crescer: “Nós brincávamos na rua até a madrugada. Todas as casas tinham pomares e quase não se via um carro passar nas ruas”, comenta. Morador do bairro Santa Tereza, um dos mais tradicionais da cidade, senhor Augusto relembra, sentado em frente a igreja matriz, sua juventude, as paqueras na praça, as brincadeiras da criançada e se diz triste em perceber que, hoje, a diversão dos jovens já não é mais a mesma.

Apelidada de ‘a cidade dos barzinhos’, sem dúvida a diversão da cidade já não é a mesma de 70 anos atrás. “O melhor de BH é sentar em um barzinho da Savassi com os amigos e terminar a noite em uma boate”, afirma o publicitário Daniel Faria, 23 anos. Apesar das inúmeras opções para os boêmios, algumas praças, assim como no passado, ainda são pontos de encontro da galera jovem. “Aqui vem gente de todo tipo: punk, hippie, skatistas e até patricinhas. Rola droga sim, mas a galera é tranqüila e fica cada um na sua. Eu venho aqui sempre com meus amigos tocar violão e bater papo”, diz o estudante Thiago Oliveira Gonçalves, 17 anos, que prefere freqüentar a Praça da Liberdade nas noites belo horizontinas a ir para os barzinhos.

O chamado ‘Circuito Alternativo’ está em moda atualmente. A capital mineira não está fora de moda e, assim, oferece diversas opções para o chamado público ‘cult’ que procura ambientes culturais em suas horas de lazer e descanso. Há, por exemplo, três salas de cinema que exibem filmes que estão fora dos catálogos das superproduções cinematográficas. Para o bancário Fernando Menezes Nogueira, 29 anos, não há programa melhor que ir à uma dessas salas. “Aqui no Belas-Artes você encontra um ambiente agradável para um café ou até mesmo um chopp, uma livraria com excelentes títulos além dos melhores filmes. Minha vida profissional é extremamente agitada e faço questão de reservar ao menos dois dias do mês para vir aqui relaxar um pouco”, relata.

O centro da cidade já não possui os frondosos fícus da década de 20 e pouquíssimas casas têm alguma árvore frutífera como recorda o senhor Augusto Antônio dos Anjos. Porém, há ainda muita área verde preservada. Na região sul da cidade, ao pé da Serra do Curral que circunda a capital, se encontra o Parque das Mangabeiras. Trata-se da maior área verde da cidade, com 337 hectares de mata nativa, fauna e flora diversificada e muita água. “Estou impressionado com este lugar. Moro aqui há anos e jamais estive neste Parque. É muito bom saber que a cidade ainda consegue manter uma área verde como esta tão bem preservada. A partir de hoje, pretendo trazer meus filhos aqui mais vezes”, comenta o contador Alisson Oliveira Silva, 34 anos, pai de Lucas e Filipe, 5 e 9 anos respectivamente, que aproveitou seu dia de folga para passear com os filhos.

Outra área verde da cidade é a Lagoa da Pampulha que também possui obras assinadas pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Apesar de artificial, a Lagoa possui um lindo espelho de água e é muito freqüentada, não só pelos ciclistas que encontram uma extensa ciclovia como pelos amantes do futebol, uma vez que o estádio Governador Magalhães Pinto, conhecido como ‘Mineirão’, está localizado ao lado da lagoa. Para os estudantes Luciana Magalhães de Freitas, 22 anos, e Breno Moreira Costa, 27 anos, a Lagoa é um ótimo local para passar as tardes. “Moramos próximos daqui e adoramos caminhar às margens da lagoa e tomar água de côco em frente à igrejinha”, diz Breno. “A lagoa tem um significado especial para nós: foi aqui começamos a namorar há quatro anos”, acrescenta Luciana.

“Quem te conhece não esquece jamais”, diz o hino de Minas Gerais. O engenheiro italiano Mauro Busca, 63 anos, ratifica esta afirmativa. “Vim ao Brasil pela primeira vez em 94 para realizar um trabalho para uma empresa do grupo FIAT. Me encantei por Belo Horizonte e jamais a esqueci. Sempre que retorno à Europa, fico ansioso pelo meu regresso à Minas Gerais”, declara.



Praça da Liberdade



16/01/2006

POEMA (Cazuza/Frejat)
Voz: Ney Matogrosso


Eu hoje tive um pesadelo e levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo e procurei no escuro
Alguém com seu carinho e lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
Do tempo que eu era criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço ou um consolo
Hoje eu acordei com medo mas não chorei
Nem reclamei abrigo
Do escuro eu via um infinito sem presente
Passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim, que não tem fim
De repente a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua
Que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio mas também bonito
Porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu
Há minutos atrás


Primeiros dias de férias... muita preguiça! Vontade de estar na praia. No campo também seria ótimo. Livros estão ocupando grande parte de minha imaginação. Músicas me relaxando. Filmes me fazendo sonhar. Fotografias me levando ao passado. Antigas anotações me fazendo pensar muito no futuro.

Em meio a tantas músicas, poesias, textos, fotos, rascunhos, sol forte, noite estrelada, lua cheia, pensamentos, devaneios, sonhos e aquela certa insanidade, meu maior desejo é único: alguém a quem pedir desculpas a fim de um abraço ou um consolo.

11/01/2006



Dizem que todo belo-horizontino tem o umbigo ligado à Serra do Curral. Bairrista como sou, venero aquela Serra. Meu astral muda quando olho para ela, mesmo que seja do terraço de minha casa que fica bem distante dela.

Além da região do Parque das Mangabeiras, há diversos locais em BH que admiro e me sinto muito bem. A Praça da Liberdade é um deles. Inclusive, ela foi para mim sinônimo de liberdade. Além disso, é fantástico sentar nos bancos desta praça e tentar imagina-la à época da ditadura militar, quando foi palco de grandes conflitos.

Outro lugar que adoro é a Lagoa da Pampulha. Sem dúvida o cartão postal mais conhecido da cidade, a Pampulha é um excelente lugar para relaxar. É ótimo sentar em uma churrascaria à beira da lagoa e apreciar o pôr do sol.

Como já disse, sou um amante infiel. Apesar de extremamente apaixonado por Belo Horizonte, minha terra natal, meu coração bate muito forte pelo Rio de Janeiro. Não é à toa que aquela cidade é chamada de maravilhosa. A Serra do Curral é linda sim, mas não se compara ao Pão-de-Açúcar ou à Pedra da Gávea. A Praça da Liberdade é incrível, mas comparada à Candelária (apesar das trágicas lembranças de lá)... A Lagoa da Pampulha é muito aprazível, mas uma caminhada ao redor da Rodrigo de Freitas (foto) é muito melhor. As mineiras são as mais lindas sim, mas as garotas de Ipanema...

Amanhã começam as minhas FÉRIAS! Ainda não decidi quando vou viajar, mas o destino é certo: Belo Horizonte, aqui vou eu! Mas em breve retornarei ao Rio para matar as saudades. Passei minhas férias de 2004 lá. Foi uma viagem única, principalmente pela adorável companhia.

Ouvindo:
Samba do Avião (Tom Jobim)
Voz: Tom Jobim

Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Rio, seu mar
Praia sem fim
Rio, você foi feito prá mim
Cristo Redentor
Braços abertos sobre a Guanabara
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar
Rio de sol, de céu, de mar
Dentro de um minuto estaremos no Galeão
Este samba é só porque
Rio, eu gosto de você
A morena vai sambar
Seu corpo todo balançar
Aperte o cinto, vamos chegar
Água brilhando, olha a pista chegando
E vamos nós
Aterrar...

10/01/2006



Eu amo Belo Horizonte! Vista assim, da Praça do Papa, é mais linda ainda!




Pensar, refletir, raciocinar, filosofar, discorrer, ponderar, divagar, argumentar, criticar, questionar... Pensar. Afinal, penso logo existo (afirmativa e interrogativa)!

Já estou me acostumando em ser chamado de doido. Ei, não é piada não! Desde criança meus coleguinhas me chamavam de ET. Não porque eu fosse verde ou passasse o dia inteiro apontando para o céu como se quisesse voltar para casa, mas falavam que eu era de outro mundo. Por quê? Não sei. Imagino porque, à época, com 8 anos, preferia brincar com meu kit de química e meu microscópio a jogar futebol de botão. Aos 9 preferia livros a vídeo games. Com 10 comecei a estudar japonês. Com 13 matava aula para freqüentar a faculdade de medicina e vasculhar sua biblioteca e seus museus. Após os 14 experimentei maconha, aí piorou tudo! Agora, na faculdade, meus amigos criaram (na verdade plagiaram!) a expressão “danializar” para se referirem ao meu modo de interpretar as coisas.

Realmente, eu viajo demais! Mas não vejo nada de anormal nisso. Todo mundo reflete o tempo todo, pensa na vida, na morte, nas dívidas, nos amores, nos desamores, nos que já foram, nos que ainda vão vir, na bezerra... Enfim, pensar é uma constante na vida do homem.

Estive pensando... resolvi postar!

Ontem fui comemorar o aniversário de um querido amigo. Daqueles que a gente conhece há anos, nunca perde o contato, mas se encontra somente à sorte do acaso. Pouquíssimas foram as vezes que conseguimos marcar um encontro. Mas sempre nos encontramos, por acaso, em lugares pra lá de inusitados.

Originalíssima a comemoração: lual regado a vinhos, ao som de violões, bongô, xique-xiques e muitos amigos formando uma grande roda no gramado da praça. A lua crescente deu o ar de sua graça e poucas nuvens possibilitaram uma linda visão do céu e da cidade iluminada.

Foi uma noite agradabilíssima! Cheguei na Praça por volta de 19 horas. Ninguém da turma havia chegado ainda. Sentei-me e passei a........VIAJAR, claro! Cenas bucólicas me alegraram profundamente! Achei lindo um casal de namorados rolando na grama, brincando como crianças; crianças soltando pipas; dois amigos fumando maconha e trocando um papo super cabeça (até da atual política econômica do país eles falaram!); um rapaz jovem, cerca de 23 anos, desprendendo uma atenção incrível à um menino que, aparentemente, é seu irmão e possui algum tipo de deficiência mental. Esta última cena me emocionou muito.

O sol se pôs, as luzes da cidade se acenderam, a lua brilhou mais forte, o frio começou a apertar e nada do pessoal chegar. Quando chegaram já passava de 20:30h. Valeu a pena esperar. Sobretudo porque reencontrei uma mulher que conheci há seis anos, quando ainda tinha apenas 16.

Ela é uma mulher fantástica! A começar pelo sobrenome: Beleza. A conheci por intermédio de meu amigo que aniversariou ontem. Na época, ela devia ter uns 35 anos. Nos conhecemos em um boteco do centro da cidade e batemos altos papos. Ela, assim como outras pessoas que estavam na mesa, demonstrou-se admirada comigo. Dizia que eu não tinha postura de um menino de 16 anos, pois me sentei à mesa acompanhado por pessoas bem mais velhas e mantive um diálogo coerente e seguro.

Naquela noite em que nos conhecemos, Beleza me deu um conselho que eu jamais esqueci. Fiquei muito feliz por reencontrá-la ontem e ouvir de sua boca que se sentia contente em perceber que eu o segui. “Lindo perceber que você está ainda mais maduro e que não deu ouvidos àqueles que te chamavam de ET ou louco”, disse.

Após esse comentário, comecei a pensar....................

09/01/2006

Aujourd'hui mon corps demande âme et mon esprit demande calme.

Durante praticamente todo o mês de dezembro meu nick no MSN esteve acompanhado por esta frase. Final de ano sempre me deixa um pouco mais introspectivo, nostálgico e, por vezes, melancólico.

Grafada em francês, aquela frase traduzia meu real sentimento: olhar um pouco mais para minha alma e exercitar a paciência. Cuidar da alma para me sentir mais vivo. Exercitar a paciência para não perder o equilíbrio.

No dia 2 de janeiro mudei a frase no MSN. Coloquei: “Daniel – Sereno, sereno....”. Estou sereno, realmente. Não tenho me sentido aflito, ansioso, preocupado. Tenho vivido estes primeiros dias de 2006 com tranqüilidade, sem atropelos ou desesperos.

Porém, percebo que preciso, com urgência, cuidar muito do meu corpo, da minha alma e da minha mente. Tenho me sentido muito cansado e com um sono descomunal. Não tenho tido ânimo nem para caminhar, atividade que sempre me deu muito prazer. Sinto-me um pouco afastado de minhas crenças, desapegado do plano espiritual e muito ligado às coisas da Terra, o que difere muito de meus princípios. Minha mente tem trabalhado exaustivamente, porém, dedicando-se a pensamentos que tendem a desviar-me do que realmente me faz bem.

Na madrugada de sábado pude observar com clareza o que tem comprometido minha harmonia nos planos físico, espiritual e psicológico. Identifiquei também os primeiros passos que preciso dar para alcançar uma serenidade efetivamente plena. O ponta-pé já foi dado, agora é correr pro gol!

Em breve, discorrerei aqui mais detalhadamente sobre o assunto. Tentarei ser menos subjetivo!

05/01/2006

Num outro plano...

Choveu muito na madrugada de hoje. Eram cerca de três horas quando um trovão me despertou. A luz do quarto estava acesa, o livro que lia antes de adormecer jogado no chão, o corpo dolorido pela má posição na cama. Levantei-me, fui ao banheiro, arrumei a cama, apanhei o edredom, apaguei a luz e me deitei. Já não conseguia mais dormir. O sono foi embora. Passei a observar o barulho da chuva contínua. Vez ou outra todo quarto era iluminado por um raio. E o barulho da chuva no telhado. Um trovão me assustou. Concentrei-me novamente no barulho da chuva. Comecei a me lembrar de meus acampamentos. Outro relâmpago iluminou o quarto. Atentei para o som das árvores. Pude perceber pela sombra da janela o bailado dos galhos. E o barulho da chuva. Quando o vento soprou mais forte pude sentir o cheiro da terra molhada invadir o quarto. Prestei ainda mais atenção no barulho da chuva. De repente, ouvi um choro sofrido. Não pude identificar de quem eram aqueles soluços. Tateei até o cômodo escuro. Sentada em uma cadeira ao centro, com a face parcialmente iluminada pela chama de uma vela, uma menina chorava compulsivamente. Não sabia quem era, mas seus cabelos pareceram familiar. Ela havia perdido seu avô. Morrera um dia antes, mas somente ali, reclusa num cômodo escuro, pôde entregar-se às lágrimas. Sua mãe não podia vê-la chorar. Precisa que a filha se mantivesse forte, pois ela já não tinha mais forças, após cuidar tantos anos de seu pai que sofria com problemas nefrológicos. À menina só pude oferecer meus ombros. E meus ouvidos. Não ousei falar nada, palavra alguma lhe traria conforto naquela hora. Ela me contou sobre sua infância, sobre a luta da família, a ausência do pai, a doença do avô. Logo amanheceu. Convidei-a a um passeio. Ao ar livre ela poderia se acalmar e enxugar as lágrimas. Caminhamos à beira do rio. Ela se lembrou de quando ela e o avô foram pescar. As lágrimas voltaram. Com dificuldade consegui distrair aquela doce menina ao apontar-lhe um casal de pássaros. Uma música alta chamou-me a atenção. Não conseguia identificar de onde surgia aquela música. Não havia ninguém, senão a menina e eu, à beira daquele rio e a casa mais próxima devia estar a uns 500 metros. Esfreguei os olhos. Avistei o celular. Desliguei o despertador e me levantei. A chuva já havia passado. Espero que o choro da menina também tenha cessado.

04/01/2006



Fragmentos soltos. Nada mais que devaneios....

Alguns amigos me convidaram a fazer um curso de teatro. Sempre me interessei pelas artes cênicas, mas acho que não tenho o dom de encenar. Assim como não o tenho para a música, minha maior frustração.

Sou um grande amante. Infiel, confesso. Mas amante. Apaixonado, sempre. Réu condenado a amar, a contemplar a beleza, que encontro rua a fora, anonimamente. Um amante anônimo sim. Não ouso assinar minhas paixões. Não porque não possam se tornar públicas. Pelo contrário. Sou ciumento. Guardo-as somente para mim.

Um pierrô arremessa seus malabares. Seus olhos embotados de paixão. Para o respeitável público que o assiste, a paixão revelada em seus olhos é pelos malabares, pela sua arte, pela sua platéia. Mal sabem eles que o que os olhos daquele artista revelam é o reflexo do que em seu peito se esconde. As colombinas que o inspiram, ninguém precisa saber.

Ouvindo:
O Circo (Orlando Morais)
Voz: Maria Bethânia

Quando a noite vem
Um verão assim
Abrem-se cortinas, varandas, janelas
Prazeres, jardins
Onze e meia alguém
Concentrado em mim
No espelho castanho dos olhos
Vê finalidades sem fins

Não lhe mostro todos os bichos
Que tenho de uma vez
Armo o circo com não mais
Do que uns cinco ou seis

Leão, camelo, garoto, acrobata
E não há luar
E os deuses gostam de se disfarçar