21.6.11

Carta ao amigo ausente

Por aqui, poucas amenidades, meu querido. Copo meio cheio, meio vazio, entende? Tanta falsa inspiração. Talvez não. Melhor não. Tem a música e se há música a paixão nunca é em vão, você sabe. Tem Veloso cantando Help, cara, e até o Robertão mandando Detalhes. Lindo. Mas soa falso. Porque nem parece paixão. Parece só sede. Ou fome.

“Você tem fome de quê?” me pareceu agora a indagação filosófica mais elementar. Lembro sempre aquela frase da Camile Claudel que você me mostrou – “existe sempre alguma coisa ausente que me atormenta”. Que fome é essa, cara? É sede de quê? Por favor, não me venha com explicações freudianas. Ando mais insaciável que nunca, meu amigo. Faminto. Guloso.

Jóia, do Caetano, não para de tocar por aqui. Madrugada avança rápido e eu tão lento. Três e pouco. Vento frio invadindo o quarto. Cigarro atrás do outro. Lápis e papel nas mãos. Tão retrô, né? E eu estou, inacreditavelmente, zero nostálgico. Você está rindo agora, aposto. Mas falo sério. Totalmente desgarrado. Quase não percebo as amarras. Acredite.

Mas, como não podia deixar de haver mas, em contrapartida o amanhã me dá um nó na boca do estômago. Cheguei a pensar que pudesse ser apenas ansiedade. Mas, não. O inverno chega nas próximas horas. Acho que é essa a causa desta sensação incômoda que quase chamei de medo agora. Inseguro, um pouco sim. Inverno representa o renascimento. A tal dor do parto, será?

Já nem me lembro direito como comecei toda essa prosa torta. Ah! A falsa inspiração. Depois falei da fome e agora falava do inverno. Desculpe, ando confuso como sempre. E faminto, só pra variar. Mas não vou gastar mais sua saúde mental repetindo meus traumas, dores, neuroses.

Coragem. Me deseje muita coragem, meu amigo. Lhe desejo o mesmo para encarar este inverno. Sinto uma força bruta se aproximando densa, tensa. Relaxe, não é nada premonitório. Mas, como que por uma convicção íntima, sem nada de divino ou fabuloso, sinto que este inverno será penoso. E muito proveitoso.

Ah! A Lua acaba de entrar em peixes. Me deseje força também, meu querido, além da coragem.

Axé pra nós.

4 comentários:

Marcelo Ernesto disse...

Mestre Silveira sempre inspirado em seus dizeres. "...sinto que este inverno será penoso. E muito proveitoso.". Vc so tem que escrever mais pra gente, né?!

Dandara Andrade disse...

Continuo passeando por aqui. Num tem mais volta. Rs. Excelente.

Dandara Andrade disse...

Continuo passeando por aqui. Não tem volta. Rs. Excelente.

Dandara Andrade disse...

Continuo passeando por aqui. Não tem volta. Rs. Excelente.