15.3.10

Contradições em tempo verbal


De repente ficou bom. Simples assim: de repente, bom. Mas do nada fica ruim. Complexo assim mesmo: do nada, ruim. Entende? Ora, desculpe. Não estou subjugando a sua capacidade de compreensão, não é isso. Mas me conte: entende o que eu digo? Simples – complexo, bom – ruim?

Me confundo tanto com essas contradições. De repente bom, do nada ruim e eu sempre optando pelo mais complexo. Deve estar nos astros. Áries com ascendente em Touro e sol em Áries. Tanta cabeça dura para um ser só...

Sabe que outro dia eu voltava para casa, cabeça cheia, ombros duros, peito inchado e espírito agudo e de repente, assim, não mais que de repente, fiquei bem.

Talvez tenha sido o sorriso daquele bebê no banco da frente, o cheiro de grama recém aparada que invadiu o ônibus ou aqueles feixes de luz saindo de trás da nuvem rosa como em cena de filme quando ocorre um milagre. Não sei bem – como disse, foi de repente que fiquei bem.

Mas daí bate uma puta nostalgia, rola aquela ansiedade, e então vem o por que não, o por que sim e, pior, sempre surge o se e, do nada, fico mal.

Tem um pouco de culpa, uma certa mágoa e talvez até mesmo uma latente revolta. Sabe como é, você também já fez análise, ora. A gente cutuca, revira, cava e do nada estoura a lava. Me ocorreu uma frase de efeito agora: a expressão oral pode reacender o mal. Que acha?

Eu sei, eu sei: piegas, pedante, prolixo. Ah! Não era isso que iria dizer? Mas teve vontade ou ao menos pensou. Confessa, vai, não vou achar ruim, juro. Tudo bem, desculpe. Vou mudar de assunto.

Outro dia me peguei pensando em milagres e cheguei mesmo a acreditar na existência deles. Milagre é a subversão do irremediável, pensei. Aflorei então minha tendência subversiva e decretei mudança (nem de repente e nem do nada), tempestiva e imediata no tempo verbal: ficava mal, agora fico bem.

2 comentários:

Núbia Roberto disse...

Se está bom ou ruim logo penso: "Nada, vez em quando também me acabo em estados assim. Às vezes decidida, outras não. Em certos momentos bate até uma falta de coragem pra tomar atitudes que num piscar de olhos poderiam mudar minha vida". E na verdade é o que mais quero: ser eu, estar, poder e o melhor poder querer (sic) o tudo, o insano, o verdadeiro, o exótico. Enfim, confusas essas contradições do ser, não?

Plexsophia disse...

Também faço parte desse, meu caro, mundo de conflitos e transposições súbitas entre bom e ruim, bem e mal. Qualquer permissão para uma mente nova é o passaporte para um caminho sem voltas. Pra que se livar das contradições? No fundo elas nos completam...saudade amigo, lembre-se que prezo, e muito, nossa amizade!